Tu és o Cristo

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

Eis que o tempo comum avança. A Igreja caminha na história, presente no dia a dia das nossas vidas, tendo o Senhor como aquele que conduz a nossa caminhada. Nesse 12º domingo do Tempo Comum a palavra de Deus em toda sua riqueza vem nos iluminar para vivermos cada vez melhor nossa vida cristã. Temos neste mês de Junho a celebração dos santos juninos: já celebramos santo Antônio no dia, 13; celebraremos São João Batista, precursor do Messias no dia 24 e no dia 29 (no Brasil será no domingo seguinte), final do mês, a festa de São Pedro e São Paulo, quando também comemoramos o dia do Papa, grande oportunidade que temos de reforçar nossas orações pela Igreja e pelo santo padre o papa Francisco, para que o Senhor o conserve, o vivifique, o faça feliz nesta terra e não o deixe cair nas mãos dos seus inimigos.

Que em meio a tantas festas possamos reafirmar aquilo que realmente conta em nossa vida, a busca daquele que é o centro de nossa caminhada que é Cristo, o Senhor! Providencialmente a Palavra de Deus que nos é dirigida neste domingo vai apresentar esta realidade, reafirmando nossa vivência de fé: quem é o centro de nossa vida? Em quem baseamos o seguimento de nossa história? Em que acreditamos? Em quem colocamos a nossa confiança?

A palavra coloca com muita clareza diante de cada um de nós que é em Jesus Cristo, nosso Senhor em quem cremos, que deu sua vida por nós e que está vivo, ressuscitado e presente no meio de nós. Somos chamados a acolhê-lo, aceita-lo e perguntarmos com mais frequência como podemos anunciá-lo e testemunhá-lo no mundo de hoje, um mundo cercado de contradições e questionamentos, que nem sempre compreende o Evangelho, que vê a Igreja com outros olhos que não os olhos da fé, com abordagens meramente econômicas ou ideológicas. Eis a nossa grande missão! O próximo mês de outubro, mês missionário especial, com uma motivação maior a partir da convocação feita pelo Papa Francisco (batizados e enviados), possa nos ajudar a encontrar caminhos para uma maior coerência de vida em nosso mundo de hoje. A maneira mais eficaz de fazê-lo é o seguimento de Jesus que dá sua vida por nós, como nos aponta de maneira especial a liturgia desse domingo: crer em Jesus Cristo, mas aquele Jesus Cristo que dá a vida e está vivo e ressuscitado no meio de nós.

O Evangelho deste domingo (Lc 9, 18-24), está dividido em três partes bem delimitadas em seu interior: O diálogo sobre a figura messiânica de Jesus, o anúncio da Paixão por parte de Jesus e o convite ao seguimento da Cruz.

Começa mostrando que, enquanto Jesus orava, apresenta este grande questionamento aos discípulos: Jesus estava rezando num lugar retirado, e os discípulos estavam com ele. Então Jesus perguntou-lhes: ‘Quem diz o povo que eu sou?’ (Lc 9, 18). O Evangelho segue apresentando a resposta dada ao questionamento: Eles responderam: ‘Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou'(Lc 9, 19). Quem é Jesus? O que dizem os jornais, a internet, as revistas, a grande mídia, as pessoas e as ideologias sobre Ele? Cada uma presenta uma visão, tentando trazer para seu próprio mundo e contexto a opinião sobre quem é Jesus. Jesus é para todos, mas infelizmente há manipulações e imprecisões. Seguramente encontraremos várias respostas a partir da consideração e da observação de cada fato ante o acontecimento Cristo. Se nos detemos a observar, não presos a uma metodologia científica, mas simplesmente observando despretensiosamente as opiniões presentes ao nosso redor sobre esse assunto, constatamos uma enorme diversidade de conceitos e opiniões.

Há, porém, uma pergunta fundamental: Mas Jesus perguntou: ‘E vós, quem dizeis que eu sou (Lc 9, 20)?’ Independente das opiniões alheias, Jesus convida os discípulos a responder a partir de uma vivência imediata e concreta do Senhor que caminha com eles. Esta será a pergunta fundamental que a Palavra de Deus nos mostra nesse final de semana. Pergunta que parece óbvia, mas que mostra ao mesmo tempo como a lógica do amor e da misericórdia de Deus, juntamente com seus planos, superam nossas expectativas colocadas no amor e na misericórdia do Senhor.

A pergunta de Jesus: “Quem dizem os homens que Eu sou?”, continua pedindo uma resposta a cada geração. Permanecem muitas opiniões em relação a Ele. É reconhecido como um homem que lutou pelo amor, fraternidade, paz e justiça. É admirado pela preferência em favor dos pobres: desfavorecidos, marginalizados, desprezados. É apreciado pela coragem que teve em defrontar o poder instituído, a honestidade e nobreza de alma, a sua dignidade e determinação perante a morte. Mas tal como os escribas e fariseus do seu tempo não é reconhecido como o Messias prometido. Os próprios discípulos ainda não o viam como tal. Não tinham compreendido que a Sua missão era o oposto daquilo que pensavam. Muitas vozes se levantam e muitas palavras são proclamadas por aí. Mas somos chamados a nos perguntar: qual é o nosso relacionamento concreto e pessoal com Jesus Cristo?  Embora a fé nasça pela confiança no testemunho de um outro, quem é este Senhor com quem me encontrei? Quem é Ele para nós? Como é que nós o encontramos e como somos suas testemunhas? É sempre bom recordar que os primeiros apóstolos, ao saírem para anunciar Cristo, anunciaram aos homens sua experiência viva de encontro com o Senhor. É a alegria de ter se encontrado e ter sido iluminado pelo Senhor que torna eficaz o nosso testemunho, não sendo visto como uma obra meramente humana, mas colocando o protagonismo sempre na graça do Senhor. É por causa do Senhor que fazemos o bem e nos amamos uns aos outros. Nossa ação é fruto do nosso encontro com o Senhor.

Pedro, o primeiro Papa, tomando a iniciativa, responde: ‘O Cristo de Deus.’ Lucas apresenta o episódio da confissão de fé de Pedro dentro do contexto da oração de Jesus, uma atitude que está presente nos momentos transcendentais de seu ministério. A palavra Cristo significa Ungido, sendo um nome de honra e de ofício. O Antigo Testamento nos conta que eram ungidos os sacerdotes, os reis e os profetas, ungidos pela dignidade de seus cargos. Cristo, ao vir ao mundo, recebe as funções de Sacerdote, Profeta e Rei, e por isso pode ser chamado de Cristo.

Responde que é o Messias, o Deus conosco. Embora Jesus reconheça a ação da Graça que faz com que Pedro tome esta atitude, Jesus apresenta a conveniência de que esta mensagem ainda não seja propagada, pois primeiramente é necessário passa pelo caminho da cruz: “Mas Jesus proibiu-lhes severamente

que contassem isso a alguém. E acrescentou: ‘O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia.’ Só após a experiência do Senhor que morre e que dá a vida é que os apóstolos poderão tornar-se as testemunhas. E o Senhor ainda acrescenta mais: Depois Jesus disse a todos: ‘Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la;

e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará (Lc 9, 23-24).Os que seguem a Cristo são chamados também eles a entregar a própria vida e a descobrir que, quanto mais se entrega a vida, mais se tem vida. Falar de Jesus supõe tê-lo encontrado e ter feito também de nossa vida Páscoa, passagem da morte para vida, carregando nossa cruz e deixando que a presença do Senhor nos glorifique, vencendo em nós nossos pecados e nossas mortes.

O Senhor profetiza sua paixão e morte para assim fortalecer a fé dos seus discípulos, ao mesmo tempo que mostra a aceitação voluntárias dos sofrimentos vindouros.

A resposta dada por Jesus ante a proclamação de Fé por parte de Pedro mostra que a missão de Cristo passa pela cruz. Quem quer seguir Jesus não pode contar ou esperar outro caminho. A paixão e a cruz são episódios chave na vida de Cristo, e por isso são também realidades fundamentais para a vida dos cristãos. Já lembrava o padroeiro dos Padres, são João Maria Vianney: “Aquele que ama os prazeres, que busca somente comodidades, que lamenta exageradamente ante o sofrimento, que se inquieta, que murmura e se impacienta porque as coisas mais insignificantes não saem de acordo com suas vontades e desejos, há de redescobrir a eficácia do caminho da cruz”.

O senhor acrescenta que o cristão deve renovar a tarefa de levar a cruz a cada dia, pois cada momento pode ser o momento propício para a chegada da salvação.

A primeira leitura, (Zc 12, 10-11; 13,1), vem dentro de um contexto denominado Oráculos de Restauração. Tais oráculos vêm apresentado apontando a uma realidade futura, de tal forma que podemos dizer que eles nos falam de um tempo escatológico. Este tempo virá marcado por um profundo tempo de penitência e arrependimento em Jerusalém, suscitados pelo Espírito de Deus. Esse arrependimento é consequência da morte dada a um homem caro ao povo. Não se sabe quem foi historicamente este homem transpassado. A misteriosa morte desse personagem tem efeitos parecidos aos do Servo do Senhor citado em Isaías, pois a partir dele Judá e Jerusalém vão encontrar a expiação do pecado e abandonar a idolatria, ou seja, sua morte significou um novo início, conversão e volta pra Deus.  Podemos ver nesta figura tão lamentada uma alusão à figura de Jesus Cristo pregado na cruz. Outra característica dos tempos escatológicos será também a purificação do povo mediante a água de uma fonte extraordinária colocada por Deus que apagará seus pecados e suas impurezas. Esta purificação é uma purificação interior, uma purificação do coração, consequência da nova aliança que Deus há de fazer com seu povo. A Liturgia deste domingo vai relacionar esse texto com a predição da Paixão de Jesus.

O salmo de resposta (62), expressa o desejo da alma do salmista de encontrar  Deus, de contemplá-lo; o salmo recorda a constante experiência que o salmista teve no Templo, estando diante da presença de Deus. O desejo inicial parece ter levado à esperança segura, conforma relata o final do salmo.

A segunda leitura (Gl 3, 26-29) vai nos mostrar que todos somos um só, revestidos de Cristo, unidade que está amparada na Filiação Divina. Somos um só.  Apresenta a relação da Lei Antiga com as realidades da Nova Aliança. A lei foi dada por Deus como um pedagogo para guiar os homens a Cristo. Com a redenção de Cristo, o homem se vê livre da necessidade desse pedagogo. Pela fé em Cristo e pela imersão no batismo o homem se faz filho de Deus e se reveste de Cristo. A partir desse momento desaparece toda diferença entre aqueles que creem; todos passamos a ser descendência de Abraão e participantes das promessas divinas.  Não há mais do que uma raça: a raça dos filhos de Deus. Não há mais que outra língua senão a língua que nos dá a conhecer Deus e a nos amarmos uns aos outros.

Portanto, cabe a nós pedir ao Senhor que sejamos testemunhas de Cristo, que sejamos revestidos de Cristo. Aquilo que fazemos e anunciamos seja, através de nossa vida, testemunhando de que seguimos a Cristo, levando nossa cruz de cada dia, dando sinais de que cremos nele seja nos momentos da alegria da ressurreição como nos momentos da tristeza do calvário e da cruz. Que os homens reconheçam que nele está a vida do mundo. Que os homens reconheçam que o sentido da vida está em ser outros Cristos, ipse Christus, aquele que veio, é Messias e Senhor. Que essa palavra possa entrar no coração de cada pessoa ao participar desta celebração. Que Maria, a primeira grande missionária do Pai, nos acompanhe nesse caminho de encontro e de comunicação da presença do Senhor.

O post Tu és o Cristo apareceu primeiro em CNBB.


Fonte: Noticias da CNBB

Rede Excelsior de Comunicação

Leve a rádio sempre com você
Baixe nosso aplicativo

Some description text for this item

receba novidades por email
Assine a nossa newsletter

Some description text for this item

Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.
Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.