Sinodalidade da Igreja

Cardeal Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo (SP)

O sínodo arquidiocesano de São Paulo está em seu segundo ano e as assembleias sinodais nos Vicariatos Regionais e Ambientais já estão acontecendo. A meta dos trabalhos sinodais deste ano é a reflexão sobre os dados levantados no primeiro ano (2018), para compreender melhor os elementos do “ver e ouvir” já recolhidos. É preciso, agora, compreender e discernir sobre “como estamos” em nossa Arquidiocese.

O que dizem os dados levantados? O que diz a palavra de Deus e da Igreja sobre isso? Queremos “ouvir o que o Espírito diz à Igreja de São Paulo” (cf Ap 2-3). Assim, no 3º ano do sínodo (2020), nos perguntaremos, como São Paulo, no caminho de Damasco, depois do seu encontro surpreendente com Cristo: “Que devemos fazer?” O ano de 2020 será dedicado às assembleias arquidiocesanas, para elaborar as conclusões sinodais e as indicações para o “caminho de comunhão, conversão e renovação missionária” da Arquidiocese de S.Paulo.

O Papa Francisco, desde o início do seu pontificado, vem indicando a sinodalidade como o modo de ser e de viver da Igreja. Esse conceito expressa características da Igreja, não necessariamente novas, mas que precisam ser assimiladas de maneira nova pela comunidade eclesial. O conceito “sínodo” fala de “caminho feito juntos”. Na pregação mais originária dos apóstolos o conceito “caminho” também era usado para designar a comunidade dos fiéis e o modo de viver dos que seguiam a Cristo. Saulo recebeu autorização para prender e levar a Jerusalém “os homens e as mulheres que encontrasse, adeptos do Caminho” (At 9,2). O próprio Paulo, depois de sua conversão, reconheceu: “persegui até à morte os adeptos deste Caminho” (At 22,4).

A sinodalidade é um modo de viver da Igreja, que inclui a comunhão e a corresponsabilidade, conceitos tão caros ao Concílio Vaticano II na constituição dogmática Lumen gentium, sobre a Igreja. A sinodalidade também está presente na teologia do “colégio episcopal” e da colegialidade, que indicam a comunhão entre os bispos e com o Sucessor do apóstolo Pedro e a missão local e universal de todos os bispos. Não é o Papa o único responsável pela Igreja, mas todos bispos com ele. E cada bispo, além da missão direta que lhe é confiada em sua diocese, também carrega, de modo corresponsável, a missão da Igreja inteira. A Igreja pós-conciliar, mediante a instituição do Sínodo dos Bispos, passou a a adotar mais e mais um estilo sinodal.

A sinodalidade também aparece, de maneira criativa, na Conferência Geral de Puebla (1979), no binômio “comunhão e participação”, mediante o qual todo o povo de Deus é convocado a viver a comunhão em Cristo nas suas comunidades de fé e a participar da missão universal da Igreja, cada um a seu modo e com seu carisma próprio. Isso também significa que, na Igreja, ninguém deve se considerar apenas um beneficiário receptivo e passivo dos bens do Evangelho; cada membro também participa da vida e missão da Igreja. Não é diferente o binômio “discípulos-missionários”, da Conferência Geral de Aparecida (2007). A Igreja é a comunhão dos discípulos unidos em Cristo, pela ação do Espírito Santo; mas também é a comunidade missionária do Evangelho, enviada ao mundo, para testemunhar a vida nova do reino de Deus. A Igreja não é uma organização clerical, onde o povo é apenas assistido e beneficiado pelo clero. Ela é o povo dos discípulos-missionários, que vivem em comunhão e em estado de missão.

A sinodalidade não se refere, em primeiro lugar, a uma questão de método, estratégia e organização: faz parte da natureza da Igreja de Cristo, povo convocado e reunido na comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A sinodalidade fala, sobretudo, do mistério de comunhão da Igreja com o mistério da Trindade e da comunhão de fé, esperança e caridade, que caracterizam a Igreja. A sinodalidade é inerente à graça do Batismo, mediante o qual todos os fiéis foram introduzidos na comunhão da Trindade. Vem da ação do Espírito Santo, que anima a Igreja a partir de dentro e distribui dons e carismas a todos, para a realização da missão e a edificação do “corpo de Cristo”.

Diversamente de uma “igreja-mercado”, ou “Igreja clerical”, formada de “fregueses” e de fiéis meramente assistidos, a Igreja de Cristo é formada de membros vivos e participativos. É essa Igreja viva e participativa que buscamos ser mediante o nosso sínodo arquidiocesano.

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Fonte: Noticias da CNBB

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