Silêncio e escuta

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte

 

Sem o silêncio e a consequente escuta, as relações na sociedade tornam-se um verdadeiro caos, com graves prejuízos para todo o mundo. O mais imediato deles é o distúrbio na essencialidade da escuta. Não saber escutar é causa de demolidora incidência sobre a aptidão para discernimentos e escolhas. Instala-se, assim, uma verdadeira torre de Babel.

Essa perda de rumos, decorrente do desequilíbrio na competência do discernimento, empurra a humanidade para os extremos configurados nos fundamentalismos, nas polarizações irracionais, na tendência autodestrutiva de fazer ataques.  E o que pode ser visto, no início, como fogo amigo, ao longo do tempo se avoluma em dinâmicas de ódio e atitudes violentas que impossibilitam as relações entre as pessoas. A história mostra o quanto podem ser devastadores os efeitos do comprometimento da convivência humana e onde se pode chegar. Por isso, a necessidade da imediata correção de rumos, perante os absurdos que configuram os cenários da contemporaneidade – a exemplo dos vergonhosos contextos que perpetram a exclusão social – evidenciando realidades que alcançam o patamar patológico de convivências passivas com os frutos de perversidades e insensibilidades produtoras desses mesmos cenários.

Ao se lançar o olhar sobre o mundo, particularmente sobre a sociedade brasileira, é lamentável constatar que esses cenários excludentes não foram revertidos no seu alto grau de perversidade. Do contrário, eles têm se agravado de maneira preocupante e caótica. Os termômetros sociais comprovam o quanto se está distanciando das soluções, pela carência de respostas satisfatórias em razão da incompetência humanística e moral vigente na condução das sociedades.

O agravamento dessa situação retarda os processos e distancia os pobres e excluídos da resposta que esperam, necessitam e a que têm direito. Instala-se, assim, uma dinâmica civilizatória que produz irracionalidades e que precisa ser superada para se desenhar e operacionalizar novos cenários. Essa é a condição para que o mundo possa merecer, de fato, ser a expressão amorosa de seu criador. Lugar dos desabrochamentos que humanizam e enriquecem as interfaces e interações entre as criaturas.

Sem a necessária correção de rumos, vai ficando longe o amor que conta. Predominam sentimentos confusos e hostis, as opiniões são empobrecidas por não conseguirem circular na indispensável escuta que é capaz de gerar entendimentos para o respeito e a competência afetiva e racional de lidar com os valores – tanto os próprios, quanto os valores das outras pessoas, na medida certa.

A perda dos funcionamentos ético-morais, temperados pelo argumento de que valem as autonomias próprias e o uso das liberdades específicas, explica a confusão que se vai estabelecendo: cada indivíduo ou grupo se reconhece no direito de usos e usufrutos de valores, tradições e experiências, sem ponderar sobre as consequências das indevidas relativizações e atitudes que comprometem as relações, conduzindo todos ao caos.

Não se sabe, consequentemente, responder quem tem razão e quem precisa redimensionar suas escolhas e ajustar suas posturas. Por isso mesmo, é imprescindível reabrir o diálogo, na busca de entendimentos. É fundamental investir na composição de  intercâmbios, começando pela consciência dos limites e do lugar que se ocupa, consciente de que autonomias e liberdades são horizontes largos, mas não sem limites. Essa é a condição para se encontrar o rumo certo.

Não perceber os próprios limites na dinâmica das relações com outras autonomias e liberdades, certamente, precipitará a sociedade, sempre mais, nas defesas e justificativas de extremismos, lugar de dinâmicas sem possibilidades para se encontrar as necessárias soluções. Urgente é encontrar remédio para esta gravíssima enfermidade que está obscurecendo mentes, incapacitando inteligências para percepções e discernimentos, enjaulando a competência humanística indispensável numa sociedade plural.

A situação é tão grave que há um arvorar-se, em curso, que por conta própria e por articulação de argumentos que, em si, não deixam de ter pertinências, secundando entendimentos que justificam indivíduos, grupos ou segmentos a se pensarem donos da verdade e com autoridade de balizar um mundo que precisa muito mais do que é visto somente por um indivíduo e apenas de um lugar. As diversas formas de expressão, especialmente a arte, na sua genuinidade, sem riscos de manipulações ou de deturpações, com a inerência de um código próprio de validação, podem e precisam abrir sempre mais um espaço para este diálogo perdido.

Há de se apontar como eficaz remédio, com força educativa e terapêutica, o silêncio e a escuta – que não se restringem a dinâmicas de uma vida monástica e religiosa. A prática do silêncio e da escuta constitui uma disciplina corretiva com força qualificante das relações e dos entendimentos. Sem o silêncio, também físico, em se considerando o mundo barulhento, extremamente barulhento, os ricos não vão escutar os clamores dos pobres. Sem o silêncio que permite uma escuta capaz de recuperar sensibilidades, os governantes poderão ter boas intenções, mas suas escolhas estarão comprometidas pela falta de clareza e assertividade para formatar os rumos novos.

Muitos defenderão os injustiçados, mas serão incapazes de descer de suas cátedras e abrir mão dos privilégios, que incluem altos salários e benesses, transformando seus protestos em meros posicionamentos conceituais. Da mesma forma, a religiosidade pode se tornar uma farsa mágica, pois, sem o silêncio, não há a escuta de Deus, que fala e interpela – prevalecem apenas as justificativas interesseiras de projetos pessoais e profissionais.

 Já no contexto familiar, sem o silêncio e a escuta, há o comprometimento da qualidade dos relacionamentos. Não se alcança a meta desejada, nem se consegue avançar na direção acertada e urgida. O silêncio qualificado é interior, mas há de se começar por evitar falatórios, corrigir a presunção de que se sabe tudo ou de que o que se sabe é a verdade única.

O silêncio que qualifica e produz a competência da escuta, aquela que faz a ponte para o diálogo, para a ressensibilização em vista da solidariedade fraterna, para o reencontro do encantamento pelo outro, num respeitoso e civilizado abraço comprometido com o bem e a justiça, abrindo mão de defesas belicosas, começa com o calar-se mais para mais escutar. Assim, torna-se a fonte de onde brota a sabedoria que está faltando para o tempo novo.

 

 

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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