São Paulo e o encontro com o Ressuscitado

Dom Adelar Baruffi
Bispo de Cruz Alta (RS)

 

            Recordo Bento XVI, que disse que “somos cristãos unicamente se encontramos Cristo” (Audiência Geral, 03/09/2008). Cuidemos para que a vida cristã não seja compreendida a partir de elementos exteriores somente, alguns valores fraternos e o desejo de fazer o bem. De fato, é Cristo a razão de ser de todo o cristão. Os grandes santos, sobretudo São Paulo, nos testemunham isto. A nós, cabe deixarmo-nos tocar por Cristo, na sua Palavra, na Eucaristia e nas pessoas, sobretudo nos mais pobres. Caminharmos com a presença e atuação do Cristo Ressuscitado, todos os dias da vida, isto faz toda a diferença.

            Saulo, bem formado judeu em Jerusalém, de repente percebe-se tocado, no caminho para Damasco, pelo Ressuscitado. Isto foi tão envolvente que começou a considerar “perda” e “esterco” tudo o que antes constituía o seu ideal de vida, a razão de sua existência (cf. Fl 3,7-8). Torna-se cego, não consegue mais ver o que tinha tanta certeza em sua vida, a ponto de ser perseguidor de quem seguia o caminho cristão. Contudo, abre novamente os olhos a partir do seu “sim” no dia do batismo. De fato, o batismo era conhecido como iluminação. Ele dava a fé, a luz capaz de ver o que simplesmente pela razão não se via. O Papa Bento XVI afirma que houve algo do exterior na sua vida, que o atingiu todo: “por um acontecimento, pela presença irresistível do Ressuscitado, da qual nunca poderá sucessivamente duvidar, dado que foi muito forte a evidência do acontecimento, deste encontro” (Audiência Geral, 03/09/2008). Claro, desde fora, mudou-o internamente. O que aconteceu foi a morte e ressurreição para ele mesmo. “Morreu uma sua existência e outra nova nasceu em Cristo Ressuscitado” (Bento XVI, 03/09/2008). O que foi decisivo foi o fato de que “foi alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante” (Fl 3,12-13).

            Paulo tinha certeza de que o mudou foi este encontro inusitado do Crucificado-Ressuscitado em sua vida. Ele mesmo fala: “E, em último lugar, apareceu-se também a mim” (1Cor 15,8). Por isso, como ele diz, “não vi eu a Jesus Cristo, nosso Senhor?” (1Cor 9,1), considera-se também um apóstolo, enviado a proclamar o evangelho. Ele fala de sua missão como evangelizador, que parte sempre do encontro com o Ressuscitado. Este judeu convicto, agora movido interiormente pelo Cristo Ressuscitado, transforma-se e se faz capaz do diálogo com todos, move-se em três difíceis viagens para o anúncio do evangelho, escreve cartas às comunidades e dá sua vida por Cristo. Verdade absoluta que traz consigo, não tem dúvidas disso, ele vai e anuncia.

            O anúncio das verdades fundamentais da fé não pode ser somente uma questão doutrinal. São, antes de tudo, uma questão vivencial, sentidas profundamente na pessoa. O cristão sabe que unicamente ele é por uma ação gratuita de Deus, manifestada em Cristo, pela sua morte e ressurreição. Hoje, faz falta esta compreensão vivencial da presença de Deus, que conduz e fortalece, que nos dá vida sempre. Ele é o sujeito, não nós! Ele nos dá a vida pela graça que nos oferece gratuitamente pela sua morte e ressurreição. É diante da misericórdia e bondade de Deus que reconhecemos nosso pecado e nos sabemos salvos, por meio da Igreja.

 


Fonte: Noticias da CNBB

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