Santíssima Trindade

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro

 

Bendito seja Deus Pai e bendito o Filho Unigénito e bendito o Espírito Santo, pela sua infinita misericórdia.

Com o Domingo de Pentecostes terminamos o tempo da Páscoa. Ao retomarmos o tempo comum, algumas solenidades nos são propostas para nossa celebração, para que possamos nos aproximar cada vez mais dos mistérios de Cristo. Um desses exemplos é a celebração do grande mistério da Santíssima Trindade, onde a Igreja nos brinda com essa grande contemplação do mistério de Deus, que é comunhão de pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.

O Antigo Testamento já vislumbrava O Deus Único com vários sinais de sua realidade trinitária, embora só a partir de Cristo é que ela via se tornar explícita. Essa revelação, esse mistério, embora tenhamos clareza da Escritura em relação a ele, supera nosso entendimento. Podemos sim nos aproximar e contemplar o mistério, mas sempre amparados na certeza de que este supera nossa capacidade intelectual. Damos o passo da fé e acreditamos naquilo que nos propõe a Revelação ao falar do Deus Uno e Trino, como professamos no credo ou ao persignar-se. Celebremos então com unção este domingo, que seria o 11º do Tempo Comum. “O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. É o mistério de Deus em si mesmo. É, portanto, a fonte de todos os outros mistérios da fé, é a luz que os ilumina. É o ensinamento mais fundamental e essencial na hierarquia das verdades de fé. Toda a história da salvação não é senão a história da via e dos meios pelos quais o Deus verdadeiro e único, Pai, Filho e Espírito Santo se revela, reconcilia e une consigo os homens que se afastam do pecado” (CIC 234).

Por ser o mistério central da vida da Igreja, a Santíssima Trindade é continuamente invocada em toda a liturgia. Fomos batizados em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, e em seu nome perdoam-se os pecados; ao começarmos e ao terminarmos muitas orações, dirigimo-nos ao Pai, por mediação de Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo. Muitas vezes ao longo do dia, nós, os cristãos repetimos: Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.

A palavra de Deus vai nos conduzindo a isso cada vez mais. O Evangelho de João que é proclamado neste Domingo (Jo 16, 12-15) assim diz: “Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não podeis compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará para a verdade plena; porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que está para vir. Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso vos disse que Ele receberá do que é meu e vo-lo anunciará”.

As três Pessoas da Trindade são apresentadas nesse texto: O Espírito anunciará o que recebeu de Cristo, que por sua vez possui tudo o que é do Pai. A essência de Deus é a comunhão, a comunhão na Trindade. Jesus deixa clara a missão do Espírito, que será revelar e recordar quem é Ele e a ação do Pai: mistério de plena comunhão e de plena unidade. Por isso temos a necessidade de buscar sempre a comunhão e a unidade já que, relembrando o livro do Gênesis, fomos criados à imagem e semelhança de Deus que é comunhão de Pessoas, que é unidade na diversidade. Saibamos acolher esta palavra e deixar que isso se traduza em nossa existência concreta: o cristão é o homem da comunhão. Por ser alguém que vive da fé, sabe conviver com pessoas diversas e em situações diversas, permanecendo sempre o mesmo. E aguardamos ansiosos o dia em que estaremos mergulhados na vida da Trindade a plena realização de nossa vida. Como nos recorda o Papa Francisco na Celebração desta solenidade: “ a festa da Santíssima Trindade nos faz contemplar o mistério de um Deus que incessantemente cria, redime e santifica, sempre com amor e por amor, e a cada criatura que o acolhe faz refletir um raio de sua beleza, bondade e verdade. Ele sempre escolheu caminhar com a humanidade e formar um povo que é bênção para todas as nações e para todas as pessoas, nenhuma excluída. O cristão não é uma pessoa isolada, pertence a um povo, esse povo que Deus forma. Não se pode ser um cristão sem tal pertença e comunhão: somos povo, o povo de Deus” (Papa Francisco, Angelus do dia 27/05/18).

A revelação da Trindade é uma oportunidade fundamental para que possamos compreender nossa vida e o sentido último desta. O Espírito Santo é o que leva à plena compreensão da verdade revelada por Jesus Cristo. Como nos ensina o Vaticano II: O Senhor tendo enfim enviado o Espírito da Verdade, completa a Revelação, a leva à Plenitude e a confirma com o Testemunho Divino (Dei Verbum 4). Nesta passagem, Jesus Revela alguns aspectos do mistério da Santíssima Trindade. Ensina a igualdade de natureza das três Pessoas Divinas ao dizer que tudo o que tem o Pai é do Filho, que tudo o que tem o Filho é do Pai e que o Espírito Santo possui também aquilo que é comum ao Pai e ao Filho, ou seja, a Essência Divina. A ação própria do Espírito Santo será glorificar a Cristo, recordando e esclarecendo aos discípulos o que o mestre lhes ensinou. Os homens, ao reconhecer o Pai através do Filho movidos pelo Espírito, glorificam a Cristo; e ao glorificar a Cristo é o mesmo que dar glória a Deus. “No dia de hoje contemplamos a Santíssima Trindade, do modo como Jesus nos fez conhecer. Ele revelou-nos que Deus é amor, «não na unidade de uma única pessoa, mas na Trindade de uma só substância» (como recorda o Prefácio de hoje):  é Criador e Pai misericordioso; é Filho Unigénito, eterna Sabedoria encarnada, morto e ressuscitado por nós; é, finalmente, Espírito Santo que tudo move, cosmos e história, rumo à plena recapitulação final. Três Pessoas que são um só Deus, porque o Pai é amor, o Filho é amor e o Espírito é amor. Deus é tudo e somente amor, amor puríssimo, infinito e eterno. Não vive numa solidão maravilhosa, mas é sobretudo fonte inesgotável de vida que se doa e se comunica incessantemente. Em certa medida podemos intuí-lo, observando quer o macro universo: a nossa terra, os planetas, as estrelas e as galáxias; quer o microuniverso:  as células, os átomos e as partículas elementares. Em tudo o que existe está num certo sentido gravado o «nome» da Santíssima Trindade, porque todo o ser, até às últimas partículas, é um ser em relação, e assim transparece o Deus-relação, transparece por fim o Amor criador. Tudo deriva do amor, tende para o amor e se move impelido pelo amor, naturalmente com diferentes graus de consciência e de liberdade.  (Bento XVI, Angelus do dia 07 de junho de 2009).

A segunda leitura desta solenidade nos recorda (Rom 5, 1-5):

Tendo sido justificados pela fé, estamos em paz com Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual temos acesso, na fé, a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos, apoiados na esperança da glória de Deus. Mais ainda, gloriamo-nos nas nossas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz a constância, a constância a virtude sólida, a virtude sólida a esperança. Ora a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. Paulo nos apresenta um texto sobre o Amor Divino realizado em Cristo. O homem encontra a justificação na fé em Jesus Cristo: fé que é confiança de vida e adesão comprometida. Entregando-se a Jesus Cristo, sua palavra e seus exemplos, o homem se coloca nos braços de Deus: por isso até as tribulações enfrentadas por causa de Cristo são vistas de uma outra forma, pois nos unem mais ainda a Ele. A vida se transforma em esperança, e esperança que não decepciona, pois já temos as primícias da realização da plenitude: O Espírito que foi derramado em nós. Estamos em paz com Deus por meio de Cristo e o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado: a nova vida que resulta da justificação se realiza na fé e na esperança. Fé, esperança e caridade seguem atuando em nós contribuindo ao crescimento da vida da Graça. O Espírito do Pai e do Filho, a quem amamos com o Pai e com o Filho, derrama a caridade em nossos corações.

O Texto vem apresentar nossa vida envolvida pela Trindade. É por isso que não temos medo de continuar nossa caminhada em meio às tribulações e lutas, pois esta desabrocha em constância e firmeza, algo tão necessário em nossas épocas de constantes mudanças: O amor de Deus não decepciona. Somos chamados a ser sinais de esperança, porque cremos no Deus Uno e Trino.

A primeira leitura (Pr 8, 22-31) apresenta a Sabedoria divina personificada, existindo eternamente em Deus e realizando com Ele, como sábio arquiteto, a obra da Criação:  “Eis o que diz a Sabedoria de Deus: O Senhor me criou como primícias da sua atividade, antes das suas obras mais antigas. Desde a eternidade fui formada, desde o princípio, antes das origens da terra. Antes de existirem os abismos e de brotarem as fontes das águas, já eu tinha sido concebida. Antes de se implantarem as montanhas e as colinas, já eu tinha nascido; ainda o Senhor não tinha feito a terra e os campos, nem os primeiros elementos do mundo. Quando Ele consolidava os céus, eu estava presente; quando traçava sobre o abismo a linha do horizonte, quando condensava as nuvens nas alturas, quando fortalecia as fontes dos abismos, quando impunha ao mar os seus limites para que as águas não ultrapassassem o seu termo, quando lançava os fundamentos da terra, eu estava a seu lado como arquiteto, cheia de júbilo, dia após dia, deleitando-me continuamente na sua presença. Deleitava-me sobre a face da terra e as minhas delícias eram estar com os filhos dos homens”.

Os Padres da Igreja reconheceram nestes versículos uma referência à Segunda Pessoa Divina, que com o Pai e o Espírito Santo chama à existência todas as coisas. Saibamos nos reconhecer e glorificar a Deus ao contemplarmos a beleza do Universo. A sabedoria é apresentada como estando na origem da ordem e da estabilidade de Deus junto ao mundo, já que está presente junto a Deus desde o princípio. Neste canto, com uma linguagem solene e com figuras que são comuns à maneira do povo de Israel explicar a origem do mundo, vemos manifesta a relação entre Sabedoria e criação do mundo e do homem. A sabedoria se encontra junto a Deus na criação e tem suas alegrias em estar junto dos homens. A Sabedoria aparece descrita com algumas características pessoais que preparam para compreender mais adiante, com o progresso da Revelação, o mistério da Santíssima Trindade.

O início do Evangelho de João vai descrever a relação entre Deus e o Verbo (Lógos) com termos que nos fazem recordar este texto. A dignidade quem tem a figura no Livro dos Provérbios será atribuída a Cristo em algumas passagens do Novo Testamento, como na carta aos Colossenses, onde Cristo é chamado de Primogênito de toda criatura (Col 1, 15) e no livro do Apocalipse, onde é chamado de Princípio da criação de Deus (Ap 3, 14).

O Salmo responsorial (Salmo 8) apresenta: Como sois grande em toda terra, Senhor nosso Deus! Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as estrelas que lá colocastes, que é o homem para que Vos lembreis dele, o filho do homem para dele Vos ocupardes? Deus cria por amor; mas de modo especial rodeia de amor todos os homens imagem e semelhança do Criador e chamados a ser Seus filhos. Manifestemos o nosso agradecimento ao Senhor louvando a sua infinita bondade. O salmo coloca sua atenção em sua primeira grande obra, a criação, focando-se de maneira mais direta na criação do homem. O salmo começa com o reconhecimento da grandeza de Deus presente no céu e na terra. Proclama depois a forma com que Deus manifesta a sua glória: mostrando seu poder por meio por meio daqueles que são humanamente limitados e cuidando do homem e dando a ele uma dignidade semelhante à sua.

Deus uno e Trino que nos amou deste toda a eternidade e quis que nós, criados à sua imagem e semelhança, o conhecêssemos cada vez mais e o anunciássemos aos irmãos e irmãs. Senhor, eu creio, mas aumentai a minha fé. Que além de cada teoria ou teologia que tente nos fazer compreender melhor este mistério, que possamos abraçar o mistério de Deus que nos surpreende em seu ser e em seu agir. “Deus Pai, que revelastes aos homens o vosso admirável mistério, enviando ao mundo a Palavra da verdade e o Espírito da santidade, concedei-nos que, na profissão da verdadeira fé, reconheçamos a glória da eterna Trindade e adoremos a Unidade na sua omnipotência”. (Oração Coleta da Solenidade da Santíssima Trindade).

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Fonte: Noticias da CNBB

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