O Caminho da Palavra

Alguns antropólogos dizem que o ser humano, antes de falar, cantou. Provavelmente, o sussurro cantante das mães embalando o adormecer de seus filhos iniciou os humanos no atributo da fala. Com o dom da palavra demos um grande passo na evolução da espécie. Todavia, tendo a capacidade de falar se tornado ato comum no dia a dia, chegamos mesmo a esquecer o grande poder que ela nos confere.

Reflitamos, pois, sobre o poder da palavra nos caminhos de Deus. Comecemos observando que a extraordinária força da palavra depende de quem a pronuncia e da fé de quem a escuta. Abraão ouviu a voz de Deus, acreditou e obedeceu. Assim fizeram Moisés, patriarcas e profetas. Após João Batista, último dos profetas, Deus passa a falar através de seu Filho Jesus Cristo. A palavra, nos lábios de Jesus, é pronunciada com toda força do poder divino emanado do Pai. Pela palavra de Jesus, doentes foram curados, mortos revividos, pecados perdoados, ensinamentos transmitidos, missão evangélica criada, Igreja instituída, sacramentos instruídos, e, sobretudo, eucaristia consagrada.

A herança do poder da palavra nos foi legada e registrada nas sagradas escrituras.  Pelo poder da palavra somos batizados, crismados, casados, consagrados, perdoados e, também, abençoados a cada instante até a última bênção, a dos enfermos. Vivemos alimentados pela força da palavra na Bíblia, nas homilias, sermões, pregações, palestras, retiros, etc. É pelo caminho da palavra que nos comprometemos com o projeto de Deus.

Jesus, em sua divina sabedoria, advertiu-nos que o que é maléfico é o que sai da boca (a palavra), e não o que nela entra. Há dois mil anos as pessoas conhecem esse ensinamento, que, transcendendo as páginas dos evangelhos, tornou-se popular.

Mesmo diante do caminho da palavra na história do Cristianismo, deparamo-nos, no século XXI, com o cruel desvirtuamento de coisas ditas nas “fake news” (notícias falsas), na prática da pós-verdade (isso é, criar a verdade dos fatos ao modo do que interessa), no não compromisso com o prometido, etc., sem falar nas conversas pessoais desvirtuadas que desagregam amizades e depreciam amigos (fofocas). Não estamos sempre diante da mesma palavra que tem efeitos e poderes?

Eliane S. Azevedo

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