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Em Roma, Dom Murilo presidiu a primeira Missa em ação de graças pela canonização da Santa Dulce dos Pobres

Na manhã de hoje (14), o Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger, presidiu a primeira Missa em ação de graças pela canonização da Santa Dulce dos Pobres. A Celebração Eucarística aconteceu na Igreja San’Andrea della Vale, em Roma, e foi concelebrada pelo bispo da Diocese de Irecê (BA), Dom Tommaso Cascianelli, pelo bispo emérito da Diocese de Janaúba (MG), Dom Ricardo Guertino Brusati, pelo bispo da Diocese de Nova Iguaçu (RJ), Dom Gilson Andrade da Silva, pelo bispo auxiliar da Arquidiocese de Niterói (RJ), Dom Luiz Ritchie, pelo Vigário Episcopal para os Institutos de Vida Consagrada, Sociedades de Vida Apostólica, Movimentos Eclesiais e Novas Comunidades, e Delegado Arquiepiscopal para a Causa dos Santos do Rio de Janeiro, Dom Roberto Lopes, e por padres de várias partes de mundo.

Confira, abaixo, a homilia proferida por Dom Murilo:

Roma, 14 de outubro de 2019.

Igreja de San’Andrea della Vale

Primeira Missa de Santa Dulce dos Pobres

Homilia de Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

Textos bíblicos da Missa de Santa Dulce dos Pobres:

Tb 12,6-13; Sl 14(15), 1Jo 4,7-16 Mt 25,31-40

  1. Te Deum laudamus, te Dominum confitemur… “A Ti, Deus, louvamos, a ti, Senhor, confessamos, a Ti, Pai Eterno, toda a terra venera…” Penso que meu sentimento nesta manhã é o mesmo de vocês. Com quanta alegria cantamos hoje este hino que, segundo antiga tradição, foi cantado por ocasião do batismo de Santo Agostinho – batismo presidido por Santo Ambrósio, enquanto Bispo de Milão -, no ano 387. É uma graça termos um hino que expressa de forma adequada a gratidão que nos envolve! “A ti, Deus, louvamos… O coro glorioso dos Apóstolos, a harmonia de louvor dos Profetas, o exército dos Mártires em brancas vestes Te louva. Em toda a terra a tua santa Igreja Te confessa como o Pai de imensa majestade: Digno de veneração é Teu verdadeiro e único Filho; e também nosso Advogado, que é o Espírito Santo.”
  2. Não temos ainda ideia do presente que recebemos ontem da Igreja e que é a causa da celebração desta manhã. Precisaremos de muito tempo para tomar consciência do privilégio de estar aqui e poder proclamar: Senhor, Tu és maravilhoso em Teus santos! Ao dizer isso, pensamos em uma pessoa que sentimos muito próxima de nós, que é nossa irmã e amiga; alguém que parece há muito tempo fazer parte de nossa família. A Irmã Dulce que percorria as ruas de Salvador à procura de pessoas abandonadas; a Dulce dos Pobres que tinha um coração com as dimensões da miséria humana; o Anjo Bom da Bahia que tinha um corpo frágil, uma voz fraca e um olhar bondoso que deixava todos à vontade, agora é santa: Santa Dulce dos Pobres!
  3. A canonização de Santa Dulce dos Pobres vem nos lembrar que a prática da caridade é uma das dimensões essenciais da Igreja, juntamente com os Sacramentos e o anúncio da Palavra de Deus. “Para a Igreja, a caridade não é uma espécie de atividade de assistência social que se poderia mesmo deixar a outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência” (Bento XVI, Deus caritas est, 25). Como a Igreja é a família de Deus no mundo, nela não pode e não deve haver alguém que sofra por falta do necessário. Mas a caridade vai além dos limites da Igreja, pois ela tem uma dimensão universal. Onde há um necessitado, ali está Jesus Cristo pedindo pão, justiça e amor. Na passagem do Evangelho que ouvimos, Jesus antecipou que considera feito a si o que for feito ao menor de nossos irmãos. Isso vale para todas as épocas pois mesmo na sociedade mais justa, há necessidade de amor. Sempre haverá sofrimento que necessita de consolação e ajuda. Sempre haverá solidão. Jesus veio nos ensinar que aquele que sofre tem necessidade de uma amorosa dedicação pessoal. Essa dedicação vai além das necessidades materiais, pois “não só de pão vive o homem” (Mt 4,4).
  4. À medida que crescia, Irmã Dulce foi tomando consciência do sofrimento humano. Aos 13 anos, foi levada por sua tia para conhecer de perto a periferia de Salvador, marcada pela miséria e pobreza. As cenas que viu e o sofrimento que testemunhou marcaram profundamente sua vida e suas escolhas. A partir daí, quis dedicar sua vida a servir os pobres como Jesus havia feito. Quis servir o Senhor à imitação de S. Francisco de Assis, de várias religiosas que havia conhecido, particularmente da Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, fundada em 1910 no próprio Brasil. Mais tarde, dirá: “As lágrimas enchiam meus olhos. Meu coração estava invadido pela dor de ver tanta miséria ao meu redor”.
  5. Se formos percorrer os passos da vida de Irmã Dulce, verificaremos que sua experiência foi antecipada na parábola do Bom Samaritano. Antes de tudo, ela procurou responder às necessidades imediatas com que se deparou: acolheu doentes entregues à sua própria sorte, menores abandonados, idosos sem casa… Não buscou desculpas para se omitir e permanecer numa situação cômoda. Ao contrário, sentia-se impelida pelo amor a lhes dar os primeiros socorros, preocupada também em levar os que acolhia ao encontro de Deus, pois tinha consciência de que a causa mais profunda do sofrimento humano é a ausência de Deus. Não atendia os necessitados por obrigação, mas como consequência de sua fé. Quanto mais necessitados acolhia, mais necessitados descobria. Jesus deixou seu coração inquieto; ela, por sua vez, passou a inquietar o coração de muitos. É que não demorou a descobrir a importância de se multiplicar, de se organizar, de programar a caridade para atender ao maior número possível de necessitados. Tinha consciência, contudo, de que a caridade é muito mais do que uma multiplicação de atividades; é muito mais do que dar alguma coisa. A caridade, segundo Irmã Dulce, é dar-se a si mesma, na linha do ensinamento de Paulo: “Se tivesse o dom da profecia, se conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; se tivesse toda a fé, a ponto de remover montanhas, mas não tivesse amor, eu nada seria. Se eu gastasse todos os meus bens no sustento dos pobres e até entregasse meu corpo para me gloriar, mas não tivesse amor, de nada me aproveitaria” (1Cor 13,2-3).
  6. Onde Irmã Dulce – a Santa Dulce dos Pobres – buscava forças para enfrentar as dificuldades e não desanimar? Sua força estava em Cristo Jesus, o Senhor Bom Jesus do Bonfim. Fazia, então, o que estava a seu alcance e colocava seus sonhos e limitações no coração daquele que a havia atraído a si. Havia aprendido do apóstolo e evangelista S. João: “Todo aquele que proclama que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece com ele e ele com Deus” (1Jo 4,15). Ela sabia que “é Deus quem governa o mundo, não nós” (DCE 35). Ele tem o mundo em suas mãos e será dele a última palavra no final dos tempos.
  7. Santa Dulce dos Pobres fez entrar raios da luz de Deus no mundo. Iluminou com sua vida a cidade de Salvador, o Estado da Bahia, o Brasil; iluminou sua própria Congregação e o Instituto que fundou – as Filhas de Maria Servas do Pobres; iluminou a Obra Social Irmã Dulce, a OSID; iluminou a multidão de pessoas que procuravam um atendimento, uma palavra amiga ou um gesto de carinho. Ela comprova que “Os Santos são os verdadeiros portadores de luz dentro da história, porque são homes e mulheres de fé, esperança e caridade” (DCE 40).
  8. Com Maria, Santa Dulce dos Pobres aprendeu que é grande diante de Deus quem não procura engrandecer-se a si próprio, mas quem procura engrandecer a Deus. Como Maria, quis ser serva do Senhor. Com Maria, Irmã Dulce proclama: Magnificat anima mea Dominum – A minha alma engrandece o Senhor (Lc 1,46).
  9. Não quero terminar minha homilia sem fazer dois agradecimentos especiais: o primeiro é a Frei Hildebrando, já falecido, um verdadeiro “Ananias” na vida de nossa Santa Dulce dos Pobres. Mas, por que chamá-lo de “Ananias” na vida de Irmã Dulce? Ainda jovem, ao conhecê-lo, Irmã Dulce o escolheu como orientador e confessor. Foi ele que a fez conhecer o carisma franciscano e que a introduziu no serviço de assistência social. Nos trabalhos pelo Reino de Deus, ela era o coração; ele, o cérebro. Ambos eram apaixonados pelo Evangelho e queriam dedicar-se aos necessitados; ambos sofreram (muito!) por Cristo. Quando Irmã Dulce celebrou o jubileu de vida religiosa (1983), Frei Hildebrando afirmou publicamente, num comovente testemunho: “Tu acreditas plenamente naquilo que Cristo um dia proclamou solenemente, em tom categórico: que ele se esconde no próximo necessitado!” Meu segundo agradecimento é a dois Paulos: Dr. Paolo Vilotta, postulador da causa da canonização, e a Pe. Paolo Lombardo, que que acompanhou de perto, e de forma eficaz, todo o processo de canonização. Graças ao trabalho de ambos, em união com o trabalho incansável de Maria Rita, sobrinha de Santa Dulce dos Pobres, estamos aqui, celebrando esta festa. Deus os recompense e Santa Dulce dos Pobres interceda por eles.

Sim, temos razão em cantar nesta manhã:  Te Deum laudamus, te Dominum confitemur… “A Ti, Deus, louvamos, a ti, Senhor, confessamos, a Ti, Pai Eterno, toda a terra venera…”  Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Amém!

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Fonte: Noticias da Arquidiocese de Salvador

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