Mostra-nos ó Pai, e isso nos basta

DOM ALBERTO TAVEIRA CORRÊA
Arcebispo de Belém do Pará

 

“Assim diz o Senhor: ‘Parai um pouco na estrada para observar, e perguntai sobre os antigos caminhos, qual o melhor para seguirdes por ele assim encontrareis lugar tranquilo para viver’” (Jr 6, 16). Olhamos nossa realidade, com seus desafios, problemas e sucessos, através da luz da Palavra de Deus, que é fonte do que agora refletimos, a ela retornando a cada passo com devoção! Neste mês dedicado às vocações, desejamos contribuir para que todos descubramos o que o Senhor quer de nós, seja sincera e corajosa nossa resposta e demos os passos necessários a uma vida cristã coerente.

Às vésperas do Dia dos Pais e da Semana Nacional da família, que tem como tema uma desafiadora pergunta – “A família, como vai?” – voltamos o olhar para a urgente necessidade de redescobrir e valorizar a figura paterna. E isso só pode acontecer se “o Pai” for redescoberto. Os primeiros discípulos de Jesus amadureceram pouco a pouco nesta aventura da paternidade de Deus. A coragem para chamar a Deus de pai e viver na intimidade com ele, entrando no relacionamento existente na Santíssima Trindade! Não é pouca coisa! É a eternidade! No contexto da última ceia, brotam palavras vindas do coração de Cristo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim. Se me conhecestes, conhecereis também o meu Pai. Desde já o conheceis e o tendes visto”. Filipe disse: “Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta”. Jesus respondeu: “Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me conheces? Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14, 6-9). A aparente ingenuidade de Filipe vem em nossa ajuda, para chegarmos também nós à experiência de filhos.

A fecundidade humana é um dado da natureza, sim, mas Deus tem seus caminhos para realizá-la, onde parece impossível. “Foi pela fé que Abraão obedeceu à ordem de partir para uma terra que devia receber como herança, e partiu, sem saber para onde ia. Foi pela fé que ele residiu como estrangeiro na terra prometida, morando em tendas com Isaac e Jacó, os coerdeiros da mesma promessa. Pois esperava a cidade alicerçada que tem Deus mesmo por arquiteto e construtor. Foi pela fé também que Sara, embora estéril e já de idade avançada, se tornou capaz de ter filhos, porque considerou fidedigno o autor da promessa. É por isso também que de um só homem, já marcado pela morte, nasceu a multidão comparável às estrelas do céu e inumerável como a areia das praias do mar” (Hb 11, 8-12). Se parecia impossível a Abraão ser pai e Deus o realizou, peregrinação semelhante pode fazer uma pessoa na descoberta da figura do pai, tão importante na constituição de sua personalidade. De fato, humanamente precisamos ver o pai e em nossa experiência de fé precisamos ver “o Pai”! A paternidade nasce do alto e tem no Pai do Céu, revelado por Jesus, o seu modelo realizado. “E serei para vós um pai e vós sereis meus filhos e filhas, diz o Senhor todo-poderoso” (2 Cor 6, 18).

Desejamos ser introduzidos numa graça de revelação, vinda da vontade de Deus, que ilumina também toda a nossa experiência humana: “A prova de que sois filhos é que Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: “Abbá, Pai!” Portanto, já não és mais escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro; tudo isso, por graça de Deus” (Gl 4, 6-7). “Todos aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. De fato, vós não recebestes espírito de escravos, para recairdes no medo, mas recebestes o Espírito que, por adoção, vos torna filhos, e no qual clamamos: “Abbá, Pai!” (Rm 8, 14-15). São palavras de São Paulo que nos indicam o nível de relacionamento a ser experimentado na vida cristã.

Nossa proposta vai na estrada da oração! Pedir esta graça única que é viver a filiação divina! Podemos pedir com o salmista na liturgia do próximo Domingo, como povo que o Senhor escolheu por sua herança: “Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, da mesma forma que em vós nós esperamos! (Sl 32, 22).

Depois, a paternidade vem a ser acolhida com docilidade. Podemos fazê-lo quando nos entregamos nas mãos de Deus. Afinal de contas, o Senhor nos assegura (Cf. Lc 12, 32-48): “Não tenhas medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado do vosso Pai dar-vos o Reino”. Vendei vossos bens e dai esmola. Fazei para vós bolsas que não se estraguem, um tesouro no céu que não se acabe; ali o ladrão não chega nem a traça corrói. Pois onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. Alguém poderá dizer que este é um grande risco, e é verdade! É o risco de nos lançarmos confiantes nas mãos do Pai, realizando em nossa convivência na sociedade o mesmo que ele mesmo faz conosco, dando-nos tudo o que existe de melhor.

Ter a experiência do Pai do Céu é ainda o caminho seguro para que os pais da terra nele se espelhem e assumam com coragem não apenas o fato da paternidade biológica, mas acolham a missão que lhe é dada. A eles se dirija mais uma palavra do Evangelho: “Ficai de prontidão, com o cinto amarrado e as lâmpadas acesas. Sede como pessoas que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento, para lhe abrir a porta, logo que ele chegar e bater. Felizes os servos que o Senhor encontrar acordados quando chegar. Em verdade, vos digo: ele mesmo vai arregaçar sua veste, os fará sentar à mesa e passará para servi-los. Portanto, todo aquele a quem muito foi dado, muito lhe será pedido; a quem muito foi confiado, dele será exigido muito mais!” (Lc 12, 35-37). Uma fecunda revisão de vida da parte dos que são pais faz-se necessária e urgente. E os que desejam ser pais olhem primeiro para o alto, pois existe no Céu a referência com que podem planejar seu futuro.

Todas as nossas famílias, esposo, esposa, pai e mãe, filhos e filhas, irmãos e irmãs, ajudem-nos a responder positivamente à pergunta sobre a família, que a Igreja divulga nesta semana. E que nossas famílias, reconhecendo o bem que nelas existe, olhem para o alto e para frente, pois “todo dom precioso e toda dádiva perfeita vêm descendo do Pai das luzes, que desconhece fases e períodos de sombra. De livre vontade ele nos gerou, pela Palavra da verdade, a fim de sermos como que as primícias de suas criaturas” (Tg 1, 17-18).

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Fonte: Noticias da CNBB

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