Leigo Como Sujeito

A palavra ‘leigo’, no senso comum, tem sido aplicada no sentido de quem é desprovido de saber em um determinado assunto ou área do conhecimento. Contudo, o então Papa João XXIII, quando da convocação para o Concílio Ecumênico Vaticano II, na Constituição apostólica Humanae salutis, atenta para o fato de que a Igreja sabe que a convivência humana carrega as suas tensões e, como em outras épocas de crises históricas, abre-se uma ampla gama de possibilidades para uma ação evangelizadora que anime a comunidade humana e, mais ainda, que a resistência aos materialismos e às doutrinas que visaram abalar os fundamentos da fé só aconteceu por força de um empenho dos clérigos, à medida que se tornaram capacitados tanto humanamente como doutrinalmente, e dos leigos que, ao longo do tempo, foram ganhando força e confiança da hierarquia, sendo compreendidos como auxiliares no cumprimento dessa missão.

Na Exortação apostólica pós-sinodal Christifideles laici (1988), o Papa João Paulo II lembra que “a comunhão eclesial se configura, mais precisamente, como uma comunhão «orgânica», análoga à de um corpo vivo e operante: ela, de fato, caracteriza-se pela presença simultânea da diversidade e da complementariedade das vocações e condições de vida, dos ministérios, carismas e responsabilidades. Graças a essa diversidade e complementariedade, cada fiel leigo encontra-se em relação com todo o corpo e dá-lhe o seu próprio contributo”.

Fruto do Concílio, a Constituição dogmática Lumen Gentium (1964) – que define também a Igreja como sacramento em Cristo, isto é, “sinal e instrumento da união com Deus e da unidade de todo gênero humano” – chama de leigo “todos os fiéis que não pertencem às ordens sagradas (bispos, presbíteros e diáconos) e nem são religiosos reconhecidos pela Igreja”. Os leigos são convocados a administrar as coisas temporais, vivendo no mundo, nas condições da vida familiar e agindo como fermento, segundo o espírito do Evangelho, ou seja, testemunhando a fé, a esperança e o amor; são chamados especialmente “a tornar a Igreja presente e ativa nos lugares e circunstâncias onde somente por eles pode atuar o sal da terra”.

Através do sacerdócio espiritual, são chamados e dotados das condições que, por meio da vida no Espírito, como seiva, produzirá frutos em abundância e alimentará o protagonismo da jornada à perfeição. Essa qualidade de testemunho, alicerçado na fé e na graça da palavra, gera não apenas um aprofundamento no conhecimento da verdade revelada, mas fermenta o crescimento do reino de Cristo.

Portanto, neste ano do laicato, mais do que nunca, é preciso revisitar os documentos e textos, em especial o documento 105 da CNBB, que clarificam a importante e imprescindível missão dos leigos e recorda-lhes a dignidade enquanto membros de um único corpo e igualmente chamados à santidade. Uma vez batizados e confirmados, por meio dos dons recebidos, são configurados a uma apostolicidade que os qualifica a serem testemunhas e instrumentos da própria missão da Igreja.

Pe. Franklin Silveira

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