Fundamentalismo e Cultura do Diálogo – II

Dom Luiz Antonio Lopes Ricci
Bispo Auxiliar de Niterói (RJ)

Parte II: retrotopia e desilusão acerca do futuro

Segundo M. Millen (2017), “para que o comportamento do pensamento único, da autorreferencialidade, não seja a regra, precisamos contemplar o diverso amigavelmente, dispondo-nos a buscar caminhos plausíveis, mais saudáveis, que nos revelem horizontes amplos e repousantes”. M. Millen propõe algumas atitudes éticas e cristãs essenciais para promover o diálogo e evitar posturas fundamentalistas. “Pensar a vida e o mundo sempre na perspectiva da complexidade, evitando toda espécie de reducionismo; restaurar a presença de perguntas, dúvidas e adversativas, que evitam o discurso radical, em geral, feito de afirmações;  mesmo quando achamos que temos a resposta, devemos dar preferência à pergunta; cultivar a capacidade de escutar; recuperar a esperança: os desesperançados aceitam soluções únicas e radicais; lembrar que nunca estamos prontos; somos seres sempre em formação, necessitados de aperfeiçoamento; retomar as diretrizes do Vaticano II; assumir o diálogo como caminho preferencial: o diálogo nos conduz à não-violência e à tolerância ativa”.

E prossegue, indicando que “trazer o fundamentalista à realidade concreta pode colocar nele a necessária abertura, ou colocá-lo em dúvida diante de suas ‘certezas’”. Aponta ainda outras atitudes necessárias para se evitar o risco do fundamentalismo: “fugir da arrogância e autorreferencialidade e da ‘pseudo-inocência’ de se considerar conhecedor da verdade toda e ter sempre razão;  cultivar a hospitalidade, o acolhimento do outro, do diverso; recuperar o bom humor e a capacidade de sorrir: os fundamentalistas são sérios, tristes e intransigentes, e veem o mundo com um olhar frio e pessimista; resgatar o espírito de gentileza e ternura; superar a desconfiança permanente e atitudes defensivas; resgatar o afeto e a ternura; propagar a misericórdia, o cuidado e a compaixão; promover sempre a paz e não deixar jamais morrer a esperança”.

Em 2016, José Renato Nalini, em seu artigo “Utopia ou Retropia”, comenta o novo livro de Bauman, Retrotopia, como um ensaio sobre a necessidade de voltar ao passado e não pensar em edificar algo diferente no futuro. Trata-se da mistificação infantil do passado. A utopia é um lugar inexistente, que se mostra impossível de ser atingido no futuro. Já a retrotopia é o retorno ao passado, a um modo de vida “que foi exageradamente, irrefletidamente e imprudentemente, abandonado”.

Em 2017, Retrotopia foi lançado no Brasil, e nele o autor aborda o “advento dos sentimentos e das práticas retrotopianas”. Segundo Bauman, “retrotopia é utopia do passado. Vivemos a perda completa da esperança de alcançar a felicidade em algum lugar idealizado no futuro – como a famosa ilha Utopia, imaginada por Thomas More, o que leva à glorificação de práticas e projetos de tempos idos”. E prossegue, “fenômeno atual de busca por um mundo melhor, não mais no futuro a ser construído, mas em ideias e ideais do passado”.

Seu ponto de partida é o quadro de Paul Klee, analisado por Walter Benjamin – Angelus Novus – redenominado O Anjo da História. Nesse quadro, o anjo da história está voltado para o passado. Hoje, para Bauman, “seu rosto está virando do passado para o futuro. Agora é o futuro. Sua hora de ser crucificado parece estar próxima. Está na coluna de débitos. E agora é a vez de o passado ser posto na coluna dos créditos. O passado é ainda um lugar de livre escolha e um investimento em esperanças até agora não descreditadas”.

O século XX começou com uma utopia futurista e acabou com nostalgia: “epidemia global de nostalgia”. Anseio emocional, que renuncia ao pensamento crítico em prol do vínculo afetivo. Hoje estão emergindo retrotopias: “visões instaladas num passado perdido/roubado/abandonado, mas que não morreu, em vez de se ligarem a um futuro, ainda todavia por nascer e, por isso, inexistente”.

“A esta atitude de desvalorizar o presente em nome do passado, de achar que à nossa frente só pode estar o pior e de endeusar o passado, chamarei “retropia”, isto é, olhar para o passado como se fosse a idade do ouro e para o presente como o paraíso conspurcado pela evolução. É uma utopia ao contrário, a olhar para trás, o que é, obviamente, a negação da ideia de utopia. As pessoas “retrópicas” dizem que tudo foi já inventado, que o passado (história) nos ensina como se vão passar as coisas e que, se seguíssemos as lições do passado, resolveríamos não só o presente mas também o futuro” (D. Rodrigues, 2013).

Segundo Bauman, é urgente resgatar a “capacidade de diálogo. Não há atalhos que levem a um represamento rápido, hábil e sem esforço das correntes ‘de volta’. A tarefa presente de erguer a integração humana até o nível de toda a humanidade, provavelmente, se mostrará muito árdua, onerosa e difícil de se levar a efeito e completar. Temos que nos preparar para um longo período, marcado por mais perguntas que respostas, e mais problemas que soluções, assim como para atuar à sombra de chances muito equilibradas de sucesso e derrota. Estamos numa situação ou/ou. Ou nos damos as mãos, ou rumamos para as nossas valas comuns”.

Também em 2017, o Papa Francisco, em seu Discurso aos novos Bispos, demonstrou uma preocupação com “um sentido de autorreferencialidade, que proclama concluído o tempo dos mestres”. Seguem alguns pontos de sua reflexão que podem ser perfeitamente aplicados à prática pastoral e à formação das consciências retas e esclarecidas.

“Oferecer ao rebanho aquele discernimento espiritual e pastoral necessário, a fim de que se alcance o conhecimento e a realização da vontade de Deus. Viver o discernimento, como membro do Povo de Deus, isto é, numa dinâmica sempre eclesial, a serviço da koinonía”.

“Portanto, convido-vos a cultivar uma atitude de escuta, crescendo na liberdade de renunciar ao próprio ponto de vista (quando é parcial e insuficiente), para assumir o de Deus. Sem se deixar condicionar pelos olhares alheios, aplicai-vos a conhecer com os vossos próprios olhos os lugares e as pessoas”.

“Discernir significa humildade e obediência. Humildade, em relação aos próprios projetos. Obediência, relativamente ao Evangelho, critério último; ao Magistério, que o preserva; às normas da Igreja universal, que o servem; e à situação concreta das pessoas”.

“O discernimento é um remédio contra o imobilismo do “sempre se fez assim” ou do “adiar”. É um processo criativo, que não se limita a aplicar esquemas. É um antídoto à rigidez, porque as mesmas soluções não são universalmente válidas. É sempre o hoje perene do Ressuscitado, que impõe que não nos resignemos à repetição do passado e tenhamos coragem de nos questionarmos, se as propostas de ontem são ainda evangelicamente válidas. Não vos deixeis aprisionar pela nostalgia de poder ter uma única resposta a ser aplicada a todos os casos. Isto talvez possa acalmar a nossa ansiedade do rendimento, mas deixaria relegadas às margens e “áridas” vidas que precisam ser irrigadas pela graça que custodiamos (cf. Mc 3, 1-6; Ez 37, 4)”.

Chamados a crescer no discernimento: “Devemos esforçar-nos por crescer num discernimento encarnado e inclusivo, que dialogue com a consciência dos fiéis, que deve ser formada e não substituída (cf. Amoris laetitia, 37), num processo de acompanhamento paciente e corajoso, a fim de que possa amadurecer a capacidade de cada um – fiéis, famílias, presbíteros, comunidades e sociedade – todos chamados a progredir na liberdade de escolher e realizar o bem desejado por Deus”.

“O discernimento autêntico não se reduz à repetição de fórmulas ao homem concreto, muitas vezes imergido numa realidade irredutível ao branco ou ao preto. Uma condição essencial para progredir no discernimento é educar-se na paciência de Deus e nos seus tempos, que nunca são os nossos. Ele não faz “descer fogo sobre os infiéis” (cf. Lc 9, 53-54), nem permite que os zelosos “arranquem do campo o joio” que veem crescer (cf. Mt 13, 27-29). A nós cabe acolher, cotidianamente, de Deus a esperança que nos preserva de qualquer abstração, porque nos permite descobrir a graça escondida no presente sem perder de vista a longanimidade do seu desígnio de amor que nos ultrapassa”.

“Peço-vos que tenhais escrupulosamente diante dos olhos Jesus a missão que não era sua, mas do Pai (cf. Jo 7, 16), e ofereçais às pessoas – hoje como ontem confusas e desconcertadas – quanto Ele soube dar: a possibilidade de encontrar pessoalmente Deus, de escolher o seu Caminho e de progredir no seu amor”.

Escolha o diálogo e a correção fraterna!

Com gratidão e bênção,

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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