Reflexões

A Igreja Católica e a Ciência

Como cheguei a ser quem sou? Creio ser uma pergunta comum a quem aprecia pensar a vida, o mundo e a si mesma. Meus pais, minha família, amigos e amigas, professoras e professores que, ao longo da existência, vão passando e deixando marcas de sua passagem ou permanência. São pessoas na unicidade de cada ser humano, com histórias próprias e modos únicos de perceber a vida. De cada pessoa que conheci, de cada experiência que vivi, algo foi ficando comigo e fui construindo em mim o que os bioeticistas chamam de “axiograma’.

A palavra axiograma não é muito usada no dia a dia. Os filósofos a descrevem como o conjunto de valores que cada um tem consigo. Conscientes ou não de seu axiograma, as pessoas agem sempre de acordo com ele. É nosso arcabouço cultural moral. Nossas reflexões, nossas avaliações e nossas decisões são nascidas dentro de nosso axiograma.

Não apenas pessoas, mas também instituições moldaram meu conhecimento, minha bagagem de saberes, meu modo de ser e a pessoa que sou. A Igreja Católica e a Universidade têm destaques nesse processo.  Com o batismo, tornei-me cristã. Anos depois, as aulas de catequese (bem diferente das atuais) deram-me ideia do que eu deveria ser como católica. Na infância, em Tanquinho, admirava as celebrações, novenas, procissões, orações do terço, e, também, a sabedoria do padre Carlos de Lima Santiago em conversas com meu pai. Cheguei mesmo a desejar ser “padre”. Minha realização limitou-se a ler as crônicas da Ave-Maria no serviço de autofalante local, diariamente, às 18h. Minha mãe exigia que o padre aprovasse o que eu escrevia antes da leitura pública. Sem pensar muito no significado desse tipo de censura, submetia-me feliz a essa aprovação. Não lembro de ter sido censurada por heresia, ousadia ou ignorância. Deus tenha padre Carlos no céu!

As sementes de tudo isso ficaram lentamente germinado em minha alma. Foram décadas de incubação até serem despertadas pelos bons fertilizantes do Cursilho de Cristandade lá pelos idos dos anos setenta. Voltei a escrever coisas de inspiração cristãs ao me tornar palestrante em muitos cursilhos ou em ocasiões outras.

Por outro lado, a Universidade Federal da Bahia (UFBA) deu-me oportunidade para o crescimento científico e intelectual. Entrelaçamos nossas vidas desde o tempo de estudante, de professora, e até o cargo superior da administração. Sou muito do que ela me fez ser. Se retirar de mim tudo que a UFBA e a Igreja Católica me fizeram ser, restará pouca coisa em mim, impossível de fazer reconhecer-me no imenso vazio que ficará. Obrigada a ambas.

Eliane S. Azevedo

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