Domingo da Misericórdia

Dom Manoel João Francisco
Bispo de Cornélio Procópio (PR)

O segundo Domingo da Páscoa, desde o ano 2000, por determinação do Papa São João Paulo II, chama-se “Domingo da Misericórdia”.

Num mundo de ódio, terror e morte, em que estamos imersos, somente a misericórdia é capaz de romper a espiral de violência e possibilitar o aparecimento de uma sociedade fraterna e reconciliada. No dizer do Papa São João Paulo II, “A misericórdia é um elemento indispensável para dar forma às relações mútuas entre os homens, num espírito do mais profundo respeito por aquilo que é humano e pela fraternidade recíproca. (…). O mundo dos homens só poderá se tornar mais humano se introduzirmos no quadro multiforme das relações interpessoais e sociais, juntamente com a justiça, aquele amor misericordioso que c onstitui a imagem messiânica do Evangelho”(DM 93.94).

A misericórdia não é um mero fenômeno psico-afetivo, mas uma prática concreta do amor de Deus que libertou e arrancou seu povo do sofrimento no Egito, e sempre o acompanhou pelos caminhos da história. Misericórdia é o seguimento de Jesus de Nazaré que diante do pedido “tende misericórdia de mim” jamais deixou de curar e perdoar o povo que a ele acorria, restituindo-lhe a dignidade e o sentido de viver.

A misericórdia sempre tende a ser eficaz. Por isso busca todas as mediações práxicas que possibilitem a concretização desta eficácia. Neste ponto a misericórdia se transforma em justiça e se empenha na construção de um mundo onde a verdade vença a mentira, a vida a morte e a fraternidade a opressão.

A misericórdia é a reação mais adequada e necessária ante este mundo sofredor. Sem misericórdia não haverá compreensão de Deus, nem de Jesus, nem do ser humano. Por misericórdia e somente por misericórdia Deus se aproximou do seu povo, envergonhado e acabrunhado sob o peso dos pecados pessoais e estruturais, perdoando a sua culpa e afastando-o de todo o medo e terror (Is 54,4-14). “Movido por misericórdia” o pai do filho pródigo restituiu-lhe a dignidade de filho e de irmão (Lc 15,20). O exemplo perfeito de ser humano, segundo Jesus, é o samaritano que “movido de misericórdia” socorre o necessitado à margem do cam inho (Lc 10,30-37). A misericórdia é também a atitude que antecede qualquer decisão pela construção Reino. Como opção primordial ela configura a vida inteira: a mente e o coração, a prática e a oração. Como princípio totalizante ela deve ser mantida permanentemente, e não pode ser trivializada em nome da escatologia ou da plenitude da vida cristã.

Diante do ódio e do fanatismo raivoso, como o que aconteceu no Sri Lanka, agora no último domingo, dia da Páscoa, a misericórdia se solidariza e toma o partido das vítimas, mas não fecha o futuro ao agente da violência e do terror. Em meio a dor absurda, a misericórdia procura sempre caminhos de perdão e reconciliação. Neste sentido, o grande teólogo Jon Sobrino tem palavras muito esclarecedoras. “Sem dúvida, a situação de dor causa indignação e cólera contra os opressores, como causou nos profetas e em Jesus. Porém, não é a cólera o primeiro motor da ação, mas sim a misericórd ia de Jesus, “misereor super turbas”(Mc 6,34). Esta misericórdia é a que deve informar inclusive a denúncia profética, a qual não é mitigada por aquela – como mostra Monsenhor Romero – , mas se converte num grande ato de amor, para com os pobres em primeiro lugar, pois se procura defendê-los, e para com os opressores em segundo lugar, enquanto chamada à conversão, boa notícia “sub specie contrarii”.

A fonte da misericórdia é Deus que não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (Ez 18,23.32; 33,11; 2Pd 3,9). Jon Sobrino ainda com a palavra: “Deus não é só bom para com os homens, mas seu amor deve ser descrito como especial ternura para com o pequeno, para com o indefeso e perdido. Assim como Isaías o descreve, mais terno do que uma mãe para com o filho de suas entranhas, Jesus o descreve como o pai que sai ao encontro do filho que tinha deixado a casa e cujo gozo está no fato de que tenha regressado (Lc 15,11-32).

Para ser fiel a Deus o ser humano deve adquirir uma afinidade com ele. Destarte, ser fiel a Deus, fonte de misericórdia é pôr em prática o convite: “Sede misericordiosos como vosso Pai celeste é misericordioso” (Lc 6,36). Por isso o cristão diante do mundo sofredor, não se deixa levar pelo ódio, mas se enche de misericórdia e jamais exclui o causador de violência ou de terror do seu amor e do seu perdão.

O post Domingo da Misericórdia apareceu primeiro em CNBB.


Fonte: Noticias da CNBB

Rede Excelsior de Comunicação

Leve a rádio sempre com você
Baixe nosso aplicativo

Some description text for this item

receba novidades por email
Assine a nossa newsletter

Some description text for this item

Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.
Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.