Cultura da Vida e Morte Social: construir e superar (3)

Dom Luiz Antônio Lopes Ricci
Bispo Auxiliar de Niterói

Estamos no Tempo Pascal e no mês de maio, mês de Maria, das Mães e de nossa Co-Padroeira, Nossa Senhora Auxiliadora. Páscoa e Mãe nos remetem ao tema da vida e estamos, justamente, refletindo sobre a Cultura da Vida e superação da Morte Social. Quando falamos em defesa da vida, precisamos pensar em todas as fases da existência temporal, da concepção à morte natural. Por essa razão, é importante recordar o ensinamento do Papa Francisco: “A defesa do inocente nascituro deve ser clara, firme e apaixonada, porque neste caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada. Mas, igualmente sagrada é a vida dos pobres, que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura e em todas as formas de descarte” (GE, n.101).

Urge aproximar a bioética das questões emergentes e persistentes, que têm como ponto de partida as necessidades elementares, primárias e fundamentais do ser humano concreto, em todas as fases e situações. Isso implica deslocar o eixo para as questões vitais que podem ceifar vidas precocemente. Não se pode deixar à margem questões sociais pertinentes e emergentes. O acento da bioética ao campo clínico e de fronteira não implica marginalizar ou negligenciar as questões sociais que vulnerabilizam e vitimizam um número expressivo da população mundial. Neste ponto, é oportuno recordar a proposta integradora de Cristo: “importava praticar estas coisas sem deixar de lado aquelas” (Lc 11,42).  Importa recordar que para nós, cristãos, o bios tem um rosto, é personalizado, com forte apelo fenomenológico: ética do cuidado (cuida de mim!) e ético: responsabilidade moral pela vida confiada (a vida foi confiada a mim!). “A bioética é a ‘voz’, por excelência, do cuidado e solicitude de cunho humanista. Esta ‘voz’, no seu ‘linguajar’, soa diferentemente em diferentes comunidades. É uma mesma língua que se vai falando de modo diverso” (Patrão Neves). A bioética procura contribuir para a construção de uma sociedade mais equânime, e conforme à dignidade humana. Trata-se de ser uma voz dos sem voz, uma expressão contextual e aplicada, da mesma voz chamada bioética.

É singular à nossa reflexão a atenção aos problemas reais e prioritários da população. Não se pode esquecer que “a bioética tem o encontro obrigatório com a pobreza, inequidades (desigualdades injustas) e exclusão social. Elaborar uma bioética somente no nível micro, sem levar em conta essa realidade, não responderia aos anseios por mais vida digna” (Pessini e Barchifontaine).

Portanto, o conceito mistanásia precisa ser cravado na bioética como uma voz que não destoa, mas afina a produção, em vista de torná-la mais concreta e completa. Segundo E. Chiavacci, a ética deve resgatar o grave tema da responsabilidade moral indireta.  “Dos milhões de crianças mortas, da vida miserável e breve da maior parte da família humana, nós somos responsáveis, mesmo que em forma indireta, mas perfeitamente conscientes. O assassino direto dos pobres da terra é o sistema econômico global”. A reflexão de Chiavacci permite situar a mistanásia na categoria de “morte indireta” ao considerar que seria possível evitá-la, não fosse o abandono e a negligência social e pessoal, visto que era previsível e evitável. São omissões mistanásicas que precedem a morte antecipada.

Pessini, ao comentar o Mapa da Violência, assim se expressa em seu artigo “o absurdo desperdício de vidas humanas no Brasil”: “eticamente falando, nos assusta perante esse verdadeiro ‘holocausto silencioso’ a atitude de certo conformismo e até indiferença das elites de nossa sociedade e Governo, perante essas terríveis estatísticas de milhares de mortes perfeitamente evitáveis”. Dentro da categoria de mortes mistanásicas, pode-se agrupar as mortes ocorridas por conta da violência, trânsito, corrupção, desigualdades, injustiças, poluição, desastres preveníveis, dependência química, falta de acesso à saúde, atendimento médico, internação etc. São mortes precoces e evitáveis.

Sabe-se que não basta apenas ‘politizar a bioética’, o que de certo modo já aconteceu. Urge “ bioeticalizar a política” (Saad Hossne) como meio de transformação e superação das situações emergentes, considerando que “a sociedade justa é obra da política” (Bento XVI). Por essa razão, a bioética é “movimento cultural de sensibilidade ética de proteção à vida” (L. Pessini), para que todos possam viver e morrer com dignidade. Isso implica lutar por uma realidade que favoreça o “bem viver” para todos.

A Campanha da Fraternidade, que vivenciamos no período quaresmal, é uma relevante contribuição da Igreja no Brasil para a implementação de Políticas Públicas, que visam defender a vida, sobretudo a mais necessitada e vulnerada.

Com o meu abraço fraterno e bênção,

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Fonte: Noticias da CNBB

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