Cultura da Vida e Morte Social: construir e superar (2)

Dom Luiz Antonio Lopes Ricci
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Niterói (RJ)

Seguimos nosso itinerário quaresmal, já tendo a Festa Maior dos cristãos no horizonte. Nesse caminho, também pascal, estamos refletindo sobre a Cultura da Vida e a Morte Social. Com a certeza de que Jesus, com seu Sacrifício Redentor, venceu a morte, empenhemo-nos todos, com muita disponibilidade, esperança e entusiasmo pela cultura da vida. Empenho que gera sinergia e sinergia que gera sedução pela defesa da vida. Esta sedução deve fazer com que todos os ambientes tornem-se, para o povo da vida e a favor da vida, novos areópagos, para o anúncio do Deus da vida, vencedor da morte. A vida venceu a morte! Esta é a nossa esperança, relatada esplendidamente na Sequência Pascal: “A morte e a vida travaram um duelo tremendo. O Senhor da Vida era morto; mas agora, vivo, triunfa”. Nele e por Ele lutamos contra a Morte Social. Jesus é o Evangelho da Vida!

O Papa Francisco indica que as ideologias atuais levam a “dois erros nocivos que mutilam o coração do Evangelho”. A) “O erro dos cristãos que separam as exigências do Evangelho do seu relacionamento pessoal com o Senhor, da união com Ele, da Graça. Assim transforma-se o cristianismo em uma espécie de ONG, privando-o daquela espiritualidade irradiante”(GE, n.100).  B) “É nocivo e ideológico também o erro das pessoas que vivem suspeitando do compromisso social dos outros, considerando-o algo de superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista; ou então relativizam-no, como se houvesse outras coisas mais importantes, como se interessasse apenas uma determinada ética ou um arrazoado que eles defendem”(GE, n. 101).

Feito este esclarecimento, não se pode negar que a ética cristã e a Doutrina Social da Igreja podem oferecer, e já têm oferecido, uma relevante contribuição para a reflexão bioética. Por essa razão, L. Correa sublinha o interesse no aporte de elementos da ética teológica ao debate bioético, ao propor um diálogo construtivo, por meio dessas “duas racionalidades complementares”: interface bioética e teologia. O encontro da bioética com a teologia favorece a construção de uma bioética que se ocupa do bem de todos os indivíduos, especialmente dos mais pobres e vulnerados. Certamente, na origem do neologismo mistanásia, deve-se considerar a orientação cristã, eclesial e comprometida de seu autor, M. Fabri. A teologia contribui grandemente para ampliar o horizonte da reflexão e ação, ao colocar os vulnerados na agenda da bioética. O mal que aflige o outro deve ser motivo recorrente na bioética, visto que “o homem que sofre pertence-nos” (São João Paulo II). O olhar da fé ajuda a ver além…

A bioética, como ética aplicada, situada num contexto social injusto e plural, visa contribuir para a tutela, defesa e promoção da vida humana, sobretudo a vulnerada e exposta à possibilidade de morte mistanásica: precoce e evitável. O conceito de mistanásia facilita a avaliação ética das mortes evitáveis, tanto como substantivo (mistanásia), quanto como adjetivo (mistanásica). Trata-se da morte adjetivada, com implicações éticas, por ser “não natural” ou normal.

A morte é um substantivo, porém mistanásica (precoce e evitável) é um adjetivo que pede transformação social e pessoal. A morte é comum a todos, contudo a desigualdade social pode antecipá-la, tornando-a “desigual”, com sérias implicações éticas. A morte natural é inevitável e deve ser acolhida e não removida da existência. Diferente é a morte mistanásica, que “perturba”, justamente por ser evitável. Em alguns casos, resiste-se insistente e inutilmente contra a morte natural (distanásia), mas não contra a morte mistanásica.  A morte é uma realidade inevitável, o ser humano é temporal, a vida é finita, não apenas um ser para a morte, mas um ser de dignidade até a morte. O viver sofrido quase sempre leva a morrer fora do tempo ou “antes da hora”. Mistanásia tem força convocatória: evitar a exposição contínua à morte por meio de práticas plurais integradas no campo da bioética.

É na distinção inevitável e evitável que se elabora a verdadeira e eficaz resistência, em favor da vida com qualidade e dignidade para todos. Por essa razão, a bioética desperta para a compreensão de que muito pode ser feito para se evitar o mal na perspectiva da “resistência criativa”. Uma pessoa bioética é aquela que milita para salvaguardar a vida com qualidade e dignidade. O mesmo serve para a sociedade e instituições. Assumir a bioética como adjetivo, como um modo de ser e de se posicionar, permite o comprometimento, afeto e encontro com o outro vulnerado e a consequente superação da indiferença, além de integrar o conceitual e o vivencial, o social e o pessoal (atitudes e comprometimento).

Nesse nosso contexto injusto, desigual e desfavorável à vida, a bioética configura-se como uma espécie de ação afirmativa para corrigir o sistema e impedir ou diminuir as mortes evitáveis e precoces, conectando duas dimensões: ética e profética. A bioética pode, perfeitamente, cumprir esse papel de facilitar a dignidade do viver e do morrer. A conexão estreita entre ética cristã e bioética, entendida como ética aplicada com função social, busca criar condições dignas e decentes para todos, acrescida pelos novos desafios que derivam das questões emergentes e persistentes que tornam a vida precária, “nua” (G. AGAMBEN: questão essencialmente política), vulnerada e exposta à morte. Trata-se de uma exposição contínua à morte, onde se introjetam instrumentos de reprodução sistêmica de desigualdades e exclusão. A bioética pode contribuir para a transformação das estruturas e mecanismos que produzem marginalização e pobreza. O tema da Campanha da Fraternidade, deste ano, pode ajudar muito na elaboração e fortalecimento de Políticas Públicas, como caminho de superação das injustiças e desigualdades, que produzem mortes evitáveis. Continua na próxima edição…

Desejo a todos e todas uma Feliz e Santa Páscoa! Sigamos, acreditando no Amor, pois o Amor tem poder. “Sem a Cruz o poder de Cristo não seria amor e sem a Ressurreição o Amor não seria poder”.

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Fonte: Noticias da CNBB

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