CNBB

A fé atua pela caridade

Dom Adelar Baruffi
Bispo de Cruz Alta (RS)

 

            São Paulo nos ajuda a compreender a gratuidade da misericórdia de Deus em nossa vida, que nos acolhe e nos envia para vivermos a caridade. O homem só se torna realmente justo, diante de Deus, porque é Ele que lhe confere este dom, não o mérito humano. Este processo, que inicia com um ato de fé e se materializa no batismo, une-o a Cristo. O que nos torna justos é nossa fé em Cristo, nossa comunhão de vida com Ele.

            Como um homem se torna justo aos olhos de Deus? O surpreendente encontro de Paulo com o Ressuscitado mudou sua vida. Cristo entrou nele. Foi conquistado por Ele. “Começou a considerar todos os méritos, adquiridos numa carreira religiosa integérrima, como ‘esterco’ face à sublimidade do conhecimento de Jesus Cristo (cf. Fl 3,8)” (Bento XVI, 19/11/2008). A justiça de Deus não é dar a cada um o seu merecimento, mas a acolhida, baseada em sua misericórdia, vivida na cruz, a todos nós. Nele, gratuitamente, temos a justificação. É, portanto, uma justiça baseada na fé em Cristo. No centro desta certeza, baseada na fé, está a humildade de reconhecer-se pecador e implorar o perdão de Deus. Deste modo, Paulo ensina que o regime da Lei está superado. Agora vale que “todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus, e são justificados gratuitamente, por sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus” (Rm 3,23-24). As obras, não são a causa da justificação perante Deus, mas sua consequência, seu agir coerente, uma vez que nossa fé é Jesus Cristo.

            “A fé é olhar Cristo, confiar-se a Cristo, apegar-se a Cristo, conformar-se com Cristo e com sua vida. E a forma, a vida de Cristo, é o amor; portanto, acreditar é conformar-se com Cristo e entrar no seu amor” (Bento XVI, 19/11/2008). A caridade é a realização da comunhão com Cristo e somos justos unidos a Ele. Recordemos o que nos ensina São Paulo, na carta aos Gálatas: “Em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor, mas a fé que atua pela caridade” (Gl 5,6). A tentação dos que se achavam já salvos, sem ter que viver a caridade é superada pela necessidade de vivermos o amor de Cristo pelo próximo. O amor é a grande virtude, que jamais passará (Cf. 1Cor 13,1-13).

            O amor é a síntese do que podemos afirmar de Deus, no seu filho Jesus Cristo, “amou-os até o fim” (Jo 13,1). Então, “o amor cristão é muito exigente, porque brota do amor total de Cristo por nós: aquele amor que nos reclama, acolhe, abraça, ampara, até nos atormentar, porque obriga cada um a não viver mais para si mesmo, fechado no próprio egoísmo, mas para ‘aquele que morreu e ressuscitou por nós’ (2Cor 5,15). O amor de Cristo faz-nos ser n´Ele aquela criatura nova (2Cor 5,17) que inicia a fazer parte do seu Corpo místico que é a Igreja” (Bento XVI, 26/11/2008). Toda a vida moral cristã nasce de nossa amizade, proximidade e discipulado de Jesus Cristo. Ser e viver como Ele. Amar como Ele amou, sobretudo os que mais precisavam. Enfim, somente no amor ao próximo a fé se torna material, visível, concreta. Se for verdadeira, encarna-se no amor ao próximo, sempre.

            Sempre, para Paulo, podemos retornar a Deus, depositar a fé nele e viver a caridade. Basta a humildade de reconhecer nossos erros. Como para Paulo, ele quer nos alcançar com seu amor gratuito. Por nossa fé, acolhemos a Ele e, pela ação do Espírito Santo, nos habilitamos para irmos ao encontro dos irmãos. Sim, quem salva é a fé e a fé age pela caridade.


Fonte: Noticias da CNBB

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