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Igrejas abertas e Igreja em saída

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo de Montes Claros (MG)

 

Dia 13 de março de 2013 o mundo acompanhou a eleição do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio como Papa, sucessor imediato de Bento XVI, que renunciara dias antes. Nas chamadas congregações gerais, encontros do Colégio Cardinalício antes do início do conclave, o cardeal jesuíta de Buenos Aires fez uma breve intervenção. Ele apresentou quatro pontos. Retomo o segundo: “Quando a Igreja não sai de si mesma para evangelizar, torna-se autorreferencial e então adoece (cf. a mulher encurvada sobre si mesma do Evangelho). Os males que, ao longo do tempo, se dão nas instituições eclesiais têm raiz na autorreferencialidade, um tipo de narcisismo teológico. No Apocalipse, Jesus diz que está à porta para entrar… Mas penso nas vezes em que Jesus bate do lado de dentro para que o deixemos sair. A Igreja autorreferencial quer Jesus dentro de si e não o deixa sair”.

As palavras acima, com certeza, serviram como uma forte interpelação àqueles que deveriam escolher um, entre seus pares, para servir a Igreja como sucessor do Apóstolo Pedro. Tendo sido eleito Papa e escolhido o nome de Francisco, o novo Pontífice inaugurou um jeito novo de falar da missão da Igreja. Trouxe imagens muito claras e fortes. Entre elas a imagem da “Igreja em saída”, com acentuação nitidamente missionária.

Passados oito anos do novo pontificado, em contexto de pandemia, com assustador número de mortos em todo o mundo, sendo somente no Brasil mais de 270 mil, considero muito importante retomar a palavra do então Cardeal Bergoglio: “Quando a Igreja não sai de si mesma torna-se autorreferencial e então adoece”. Pode-se perguntar: o que significa dizer que a Igreja deve sair de si mesma? Não é difícil responder. Antes de tudo é preciso olhar para Jesus Cristo e recordar-se de que entre os seus ensinamentos aos discípulos está não apenas o mandato missionário – Ide! (cf. Mt 28, 19), mas seu próprio estilo de vida como missionário itinerante, consciente de que era “… preciso ir às outras cidades e aldeias, pois foi para isso que eu saí” (Mc 1,38).

O risco de a Igreja voltar-se para si mesma (nas palavras de Bergoglio, “como a mulher encurvada do Evangelho”), é muito grande. Eu diria, é uma tentação permanente. E nesse tempo de pandemia, com os múltiplos desafios da sociedade para cuidar das pessoas, imunizá-las, cuidar da economia, do trabalho, da educação, da saúde… os católicos são chamados para a linha de frente, a cuidar dos mais frágeis, a socorrer os pobres, a evitar toda e qualquer situação que possa ser fonte de propagação do vírus.

Pode ser paradoxal, mas uma Igreja em saída tem, por vezes, de fechar as portas dos templos para que tão logo possamos ter as igrejas abertas para todos. Isso não deveria ser motivo de enfraquecimento da fé, mas expressão de uma fé amadurecida e comprometida com o cuidado com a vida de todos, caminho para a Vida definitiva. Sou o primeiro a querer nossas igrejas abertas e repletas dos fiéis, mas não no pico da pandemia. Para esse tempo, eu peço a compreensão de todos: fiquem em casa. Se estamos na chamada Onda Roxa, acolhamos as orientações sanitárias, dos gestores do Estado e dos municípios. Acolha, também, as orientações do arcebispo. Se a minha sede de Deus, da Palavra e da Eucaristia me faz exigir, mesmo no momento mais grave da pandemia, com os hospitais à beira do colapso, que haja missas com participação de maior número de fiéis, me pergunto se não estamos novamente pecando pela autorreferencialidade…

 


Fonte: Noticias da CNBB

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