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Subir ao monte, descer para a planície

Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo de Belém do Pará (PA)

De montes a Bíblia está repleta, passando pelo Monte Moriá, com Abraão e seu filho Isaac (Gn 22, 1-19), chegando ao Monte de Deus com Moisés, para receber a Lei, ou no alto do Carmelo, na contemplação com Elias, subindo e descendo por montes e planícies, passamos pelo deserto de Judá, onde as montanhas se sobressaem, vamos ao Tabor, onde nos conduz a Liturgia do segundo domingo da Quaresma, ou podemos vislumbrar as belezas do Mar da Galileia lá do alto do Sermão da Montanha. Enfim, o Monte Calvário, não muito alto, mas mais alto do que todos pelo Mistério que lá abriu uma face, para ver depois de três dias o outro lado, a Ressurreição. Um texto evangélico (Mt 26, 16) mostra Jesus se levantando de uma montanha para o Céu, na Ascensão. Mais do que o esforço físico de subir a algum monte, queremos recolher as lições que nos oferecem o Senhor e sua Igreja nesta quadra da Quaresma.

Amizade! Jesus leva consigo ao Monte para orar (Cf. Lc 9, 28) três amigos medrosos, Simão Pedro e os dois irmãos Tiago e João, aos quais havia chamado de Boanerges – Filhos do Trovão, por sinal, os únicos dos doze aos quais foram atribuídos nomes novos. Não eram perfeitos, mas foram escolhidos por amizade humana e por vocação para serem testemunhas qualificadas, tanto que estavam próximos dele em circunstâncias muito especiais. Testemunharam a restituição à vida da filha de Jairo (Mc 5, 21-43), constataram o medo e a angústia de Jesus no Getsemani (Mc 14, 33) e viram sua glória e divindade na Transfiguração (Mc 9, 2-10). Foram inclusive obrigados ao silêncio, durante certo tempo, até que ele chegasse à Ressurreição, pois tinham que provar a fidelidade nos cansaços da planície, quando a glória não resplandecia.

Havia muitas interrogações sobre Jesus: “Que é isto? Um ensinamento novo, e com autoridade: ele dá ordens até aos espíritos impuros, e eles lhe obedecem!” (Mc 1, 27). “Eles sentiram grande temor e comentavam uns com os outros: “Quem é este, a quem obedecem até o vento e o mar?” (Mc 4, 41). “No sábado, ele começou a ensinar na sinagoga, e muitos dos que o ouviam se admiravam. “De onde lhe vem isso?”, diziam. “Que sabedoria é esta que lhe foi dada? E esses milagres realizados por suas mãos?” (Mc 6, 2) Jesus os conduz ao Monte que a tradição localizou no Tabor, até hoje um lugar privilegiado de oração e contemplação. Subir uma montanha traz consigo o esforço, superação do acomodamento, com todas as interrogações que certamente traziam, pois eram homens simples, num processo que se revelou lento para chegarem à compreensão do mistério de Cristo. Pedro, quando professa em Jesus Cristo (Mc 8, 28), logo mostra sua fragilidade, ao censurar Jesus e pretender afastá-lo do caminho da cruz. Podemos imaginar o mundo de interrogações com os quais os discípulos subiram com Jesus, para depois experimentarem a surpreendente visão de sua glória (Cf Masini, Mario, Quaresima, Pasqua, Pentecoste, Ed. San Paolo, Milano, 2000).

No alto do monte, testemunhas especiais, Moisés e Elias, a lei e os profetas, indicam como Deus leva a sério a humanidade, oferecendo nada menos do que toda uma história de salvação e amor aos discípulos que ali se encontravam em nome da humanidade. Se duas testemunhas eram previstas pela lei, são cinco as que se manifestam no monte: o próprio Jesus, a voz do Pai, a nuvem que aponta para o Espírito, a lei e os profetas. Sinal de que Deus considera de forma surpreendente a humanidade, para que todos reconheçam seu Filho amado e nele a salvação!

Roupa branca, resplandecente, a luz. O apocalipse atribui ao Ressuscitado o rosto como o sol no seu brilho mais forte (Cf. Ap 1, 16). Uma nuvem os envolveu, como relata uma testemunha qualificada: “Ele recebeu honra e glória da parte de Deus Pai, quando do seio da esplêndida glória se fez ouvir aquela voz que dizia: ‘Este é o meu Filho bem-amado, no qual está o meu agrado’. Esta voz, nós a ouvimos, vinda do céu, quando estávamos com ele na montanha santa” (2 Pd 1, 17-18). Uma nuvem indica a proximidade de Deus. Depois, a voz que saiu da nuvem, chamando-os a ouvir a voz do Filho amado do Pai. Moisés e Elias depois desaparecem, pois a plenitude já chegou. A nuvem preconiza as palavras do Senhor Ressuscitado: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Começo e o Fim”.

Subindo ao monte e feitos espectadores da glória de Cristo, os discípulos querem até parar o tempo, ficar ali, mas são chamados a descer à planície. Se não o fizessem, não chegariam à plenitude da luz da Páscoa. Devem continuar a aventura, enfrentando obstáculos, pedras, rejeição, perseguições, com a certeza de que Deus vela pelos passos dos discípulos de todos os tempos, e nós aqui nos envolvemos na mesma aventura. Hoje Jesus está no Tabor, amanhã será o Calvário, maior do que os montes, aquele que é a sumidade de tudo o que é humano e divino, ele, o Senhor da vida, aquele que transforma as trevas em luz. Subir ao monte, destacar-se do cotidiano muitas vezes será necessário, para valorizá-lo quando voltamos às lides diárias. Assim será nossa participação na liturgia e em todas as ações da Igreja, para sairmos de novo, missionários corajosos e anunciar o que Deus fez em nós, na Igreja e no mundo.

Celebrar a Transfiguração, logo no início da Quaresma, pode antecipar-nos na compreensão do mistério de Cristo, superando, também em nossa vida, o escândalo da Cruz, pois ela é prelúdio e anúncio da transformação radical que tem seu ponto de partida na manhã de Páscoa.

Dali continuaremos o nosso caminho, pelas estradas da vida, pelos vales e colinas, para dar testemunho corajoso de Jesus Cristo, em quem acreditamos e descobrimos como Senhor de nossas vidas, caminho, verdade e vida. De fato, “todos nós, com o rosto descoberto, refletimos a glória do Senhor e, segundo esta imagem, somos transformados, de glória em glória, pelo Espírito do Senhor” (2 Cor 3,18).


Fonte: Noticias da CNBB

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