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Dom João Justino: “A conversão à Palavra de Deus precisa se traduzir em gestos de amor”

“O que me encanta na Igreja é a sua coragem de proclamar todo os dias o Evangelho que a condena”

Foi com essa expressão forte de um cardeal Belga do início do século passado, que o arcebispo de Montes Claros (MG) e presidente da Comissão Episcopal para Cultura e Educação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom João Justino de Medeiros, convidou os cristãos a refletirem sobre a palavra de Deus e a importância do diálogo como ferramenta de unidade durante a homilia da missa da quarta-feira de cinzas.

Dom João Justino foi enfático ao dizer da coragem e ousadia, de fato, de se proclamar todos os dias o Evangelho. Mas também da vergonha de não vivê-lo como se deveria viver. O bispo aponta que a Igreja vive da palavra e que a Igreja nasce na força da palavra de Deus.

“O essencial da nossa fé passa pela escuta da palavra e a modificação da nossa vida a partir do que o Senhor nos revela. É fácil nos distraímos da palavra de Deus e nos apegamos a outras práticas, muitas até religiosas e legitimas, mas que não podemos ocupar o lugar na palavra de Deus”, disse.

Nesse contexto, dom João Justino afirma que o grande apelo da palavra de Deus é a conversão e que não é possível existir verdadeiro amor se ele não se traduz por amor, respeito e cuidado pelos irmãos como relata o Evangelho de São João de forma clara.

“A verdade da fé cristã aparece exatamente naquele que, amando a Deus, descobre no dia a dia de sua vida expressões para amar, para viver na fraternidade, para respeitar, para querer e defender a vida dos irmãos”.

Reprodução: TV Catedral

E para viver essa fraternidade na vida cotidiana era preciso transformar as comunidades no espirito quaresmal, em lugares onde o apelo e a vivência da fraternidade se tornassem o empenho de todos, e é dessa intuição que nasce a Campanha da Fraternidade na década de 60, explicou o arcebispo de Montes Claros (MG), que ressaltou também que a Igreja no Brasil oferece para o mundo a bela experiência da Campanha da Fraternidade da qual já produziu frutos importantes não só para a Igreja, mas para o povo brasileiro.

“Basta lembrar a campanha de 2001 ‘Vida sim, drogas não’ quem é capaz de dizer que proclamar ‘Vida sim, drogas não’ estamos obscurecendo o sentido da Quaresma? Que a campanha atrapalha a Quaresma? Certamente só a insensibilidade de quem nunca tocou o drama da dependência química dentro de sua família para dizer um absurdo desses”, enfatizou.

O presidente da Comissão para a Cultura e Educação da CNBB ressaltou também a importância do diálogo, tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021 – “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor” – e os prejuízos que a falta dele gera na sociedade.

“Nós sabemos quanto desacordo, quantos conflitos, quanta violência nascem por causa da falta do diálogo! O que adianta eu rasgar as vestes ou cobrir minha cabeça de cinzas se não sou um operador do diálogo? Se não sou capaz de promover o diálogo pela escuta, pelo modo de dirigir respeitosamente a palavra ao outo?. Quando a Igreja do Brasil nos convida a escutar a palavra do apóstolo Paulo, ‘Cristo é a nossa paz do que era divido fez uma unidade’, insira-se no apóstolo que apresenta Cristo como aquele que constrói a unidade que derruba aquilo que divide as pessoas. Uma boa pergunta para o tempo da Quaresma é: ‘quais são os muros que nós criamos para nos dividir, para nos colocar em oposição aos outros?”, questionou.

E o bispo continua, “Nós criamos muitas paredes, muitos muros infelizmente e propor o diálogo é propor relações que estabelecem pontes para as pessoas se encontrarem e viverem a fraternidade. Como se trata de uma campanha ecumênica sabemos da importância que é buscar a unidade entre os que professam a fé em Jesus Cristo”, disse.

Reprodução: TV Catedral

Dom João Justino destacou ainda a falta de formação ecumênica de muitos membros da comunidade católica, da insensibilidade para o sentido de que a palavra de Deus proclamada nas outras Igrejas é a mesma proclamada na Igreja Católica, e o Espírito está nas Igrejas Cristãs como está na Igreja Católica, e que quem ainda não entendeu isto não está entendendo a palavra de Deus.

“Se não houver dialogo, nós estamos dando para o mundo pagão, vou dizer assim, para aqueles que não creem, um péssimo exemplo. E o que nós sabemos é que cresce cada dia mais o número daqueles que se declaram sem religião, e nós que cremos em Jesus Cristo estamos divididos, e o pior, com grande número que não tem e não quer dialogar”, apontou.

O arcebispo chama atenção ainda para o fato de que em muitas situações a falta do diálogo pode gerar a morte.

“Um lugar onde a falta do diálogo gera morte são as nossas casas, são os lares. Existe muita violência dentro das casas. Dentro das casas muitas crianças sofrem, inclusive, por abuso. Dentro das casas muitas mulheres apanham dos homes e muitas são mortas. O feminicídio cresce em nosso país! Sim, isso não é assunto para Quaresma, então, meu irmão me diga qual assunto para Quaresma? Nós precisamos nos converter de que? Se não dessas coisas absurdas que acontecem em lares que se dizem cristãos e católicos?”, ressaltou.

Ao concluir a homilia dom João Justino diz que os cristãos católicos estão diante de um desafio muito grande que é viver a Quaresma, viver a oração, a esmola, o jejum com os olhos fixos no apelo que a Igreja no Brasil faz, sendo estes a fraternidade e diálogo: compromisso de amor para que se aprofunde verdadeiramente no sentido da conversão nesta perspectiva do diálogo.

Veja a íntegra da homilia:


Fonte: Noticias da CNBB

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