CNBB

Uma reflexão pastoral no contexto da “post-verdade”

Dom Romualdo Matias Kujawski
Bispo de Porto Nacional (TO)

 

“Rasgai os vossos corações a não as vossas vestes. Voltai para o Senhor vosso Deus, pois ele é bom e cheio de misericórdia!” (Jl 2, 13)

Prezados Irmãos,

O tempo vai seguindo o seu curso e, mesmo vivendo os dramas da pandemia do novo coronavírus, somos convidados a entrar na mística do Tempo da Quaresma nesse ano de 2021. Percebemos, hoje, que nossa sociedade está repleta das características da pós-modernidade, quando encontramos em nosso quotidiano a velocidade das informações, variedade das ideias e a confusão dos paradigmas em referência ao comportamento moral das pessoas e das sociedades.

Toda essa realidade pode ser vista em nosso atendimento pastoral e no planejamento das várias ações e iniciativas da Igreja Católica.

Em primeiro lugar, gostaria de refletir sobre tantas polêmicas em torno da Campanha da Fraternidade desse ano. A Campanha da Fraternidade, criada há 57 anos, a cada ano convida o povo católico a refletir sobre algum problema social vivido no Brasil. Nesse ano, com o tema: “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” e lema: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2,14), com seu trabalho ecumênico (assumido a cada 5 anos), houve uma grande repercussão, especialmente nas mídias sociais. Às vezes tais polêmicas e, muitas vezes, simples “achismos”, têm gerado muitos pensamentos radicais e outros tanto relativistas. O Magistério da Igreja não mudou em nada e continuamos a ser convidados a viver a graça do amor e unidade, “examinando tudo e guardando o que for bom” (Cf. I Ts 5, 21).

Em seguida, gostaria de convidá-los à reflexão sobre os desafios que nos são apresentados em nosso caminho. O primeiro deles é um certo “passivismo”, vinculado ao consumismo exagerado, variedade das ganâncias, que encontramos em nossa sociedade urbana.

Depois podemos citar o frequente confronto entre as ideologias, onde domina o relativismo moral, uma certa “cibernetização” da sociedade, no sentido do anonimato nas realidades virtuais e impessoais. Percebe-se  uma enorme manipulação das mídias, através das interpretações tendenciosas dos fatos. Parece que as sociedades perderam as suas raízes históricas e as gloriosas e saudáveis identidades nacionais. Surgem também os novos modelos de família, ideologia de gênero, movimentos LGBTQI+ e vários outros, de orientação extremamente radical.

No Contexto do pluralismo religioso, observa-se a rivalidade entre as várias denominações cristãs e outras religiões.  Falta o diálogo e surge a chamada “nova ordem”, que quer eliminar o paradigma judeu-cristão como a referência moral do comportamento humano

Na dimensão social, os problemas continuam os mesmos: desigualdades, pobreza, exploração, tráfico das pessoas, grilagem de terras e o desrespeito aos direitos dos povos nativos. Pastoralmente, a questão social ainda tem sido reduzida a um trabalho na chamada dimensão sócio transformadora, usando as categorias de opressor e oprimido. Essa realidade é muito mais complexa. Neste contexto seria interessante explorar um pouco mais a Doutrina Social da Igreja.

A complexidade dos desafios dos nossos dias exige uma pastoral orgânica e objetiva, com enorme esforço de falar uma língua que todos entendem e sejam conduzidos a uma autêntica conversão a Jesus Cristo.

Nessa Quaresma somos convidados a nossa fé e identidade cristã, alicerçados nos princípios evangélicos, especialmente no jejum, caridade e oração.

Nossa Senhora das Mercês, rogai por nós! Com a minha benção,


Fonte: Noticias da CNBB

Artigos relacionados