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Para que todos sejam um

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo de Montes Claros (MG)

 

            O cristianismo, desde seus primórdios, foi marcado pela tentação da divisão. O evangelho relata como entre os próprios discípulos de Jesus houve pequenas dissenções que mereceram a correção do Mestre: “Entre vós não deve ser assim” (Mc 10, 43). A chamada oração sacerdotal, segundo o evangelho de São João, apresenta a súplica de Jesus ao Pai pela unidade: “a fim de que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” (Jo 17, 20-21). Essa oração diz do coração pequeno dos discípulos, ainda titubeantes no seguimento dos ensinamentos do Senhor. Os Atos dos Apóstolos atestam a diferença entre o atendimento das viúvas dos judeus e das viúvas dos helenistas. A decisão foi confiar a sete homens cheios do Espírito e de sabedoria o cuidado delas (cf. At 6, 1-3).

            Os primeiros séculos da era cristã foram marcados por muitos debates de ordem teológica e disciplinar, deixando fissuras entre os cristãos e dando origem a igrejas separadas da comunhão com o bispo de Roma. A maior fissura foi a separação entre Ocidente e Oriente, em 1054. Posteriormente, no século XVI, o movimento protestante acabou por impulsionar o nascimento de outras igrejas. Depois, já no século XX, um número incontável de igrejas evangélicas surge. Nesse mesmo século, o movimento ecumênico nasce como esperança de busca da unidade cristã. Com o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica entra nesse caminho, agora irreversível.

            A Igreja Católica tem muitos documentos sobre o ecumenismo. Dois deles não podem ser desconhecidos dos fiéis católicos. O primeiro é o decreto conciliar Unitatis Redintegratio, promulgado ao final da 3ª sessão do Concílio Vaticano II, em novembro de 1964. O outro é a Encíclica Ut Unum Sint, de São João Paulo II, sobre o empenho ecumênico, publicada em 1995. É inegável a importância do Catecismo da Igreja para a sólida formação dos católicos. Mas não pode ser única fonte. Fosse assim, São João Paulo II não teria escrito a Ut Unum Sint. Outros ensinamentos do magistério precisam ser conhecidos.

            A realização de uma Campanha da Fraternidade Ecumênica é um passo muito significativo para o caminho do ecumenismo. Quando o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC – abraça essa causa, testemunha que é possível a aproximação, o conhecimento da história das igrejas envolvidas, a oração comum, tendo por base a Palavra de Deus, as ações concretas a serviço da vida, da esperança, da justiça, da fraternidade. A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, realizada no Brasil na semana que antecede a Solenidade de Pentecostes, é, também, uma experiência fecunda de superação de alguns distanciamentos.

            É muito importante lembrar que o ecumenismo nunca pode ser visto como estratégia de encampar uma igreja à outra. Não é esse o seu sentido. O mais rico do ecumenismo é a espiritualidade de comunhão, único caminho capaz de conduzir ao encontro e ao desejo de ser um em Cristo. Sem conhecimento profundo da Palavra de Deus, sem a prática da escuta e do encontro com os irmãos batizados em outras confissões cristãs, sem a atitude de esvaziamento para acolher o outro, não é possível uma Campanha da Fraternidade Ecumênica, muito menos o ecumenismo. E quando “irmãos separados” se aproximam, é preciso todo cuidado e toda delicadeza para se reencontrar a unidade.

 


Fonte: Noticias da CNBB

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