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A paciência como a arte da esperança

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz
Bispo de Campos (RJ)

Um dos aprendizados, talvez inesperados para muitos desta pandemia que parece interminável, foi a redescoberta de uma virtude antiga: a paciência. A doença moderna da pressa e do imediatismo, tínha-nos precipitado numa ciranda, e numa carreira louca, para chegar a nenhum lugar. A pausa forçada do isolamento e da substituição das atividades presenciais, administrativas, laborais e acadêmicas, nos levaram a um ritmo lento e um tempo totalmente diferenciado em espaços domésticos e cenários uniformes e repetitivos.

Os dias e as semanas pareciam não passar e a retomada da normalidade anterior ficava, cada vez, mais imprevisível ou protelada por medidas sanitárias. Foi necessário adaptar nossa forma de viver, e conviver, a um estilo mais calmo, essencial e sóbrio, onde os relacionamentos passam a importar mais, e, por isso mesmo, a consideração, respeito e flexibilidade para com o outro se tornaram necessários e urgentes.

Isto trouxe conflitos e raiva, e o aumento das irritações cotidianas, mas também um novo olhar sobre o ser família, sobre acolher-se e suportar-se mutuamente, limando asperezas e dissonâncias. Houve uma volta e um retorno para a interioridade, antes só havia intimidades externas ou externadas, agora tivemos mais tempo para nós mesmos, para escutar-nos e tornar-nos um pouco mais amigos de nossas almas, tão esquecidas.

Alguns aprenderam a cozinhar e sentir sabores e temperos que nunca tinham experimentado. Não estamos tratando de dar uma versão, rosa ou romântica, de uma pandemia letal e perversa, mas apenas mostrando como as profecias do movimento, devagar, desacelere, slow, eram certas e corretas, pois a nossa civilização tinha se tornado frenética, uma verdadeira doideira, na qual tudo se tornava opaco, efêmero e líquido.

Se quisermos vencer a pandemia, além da vacina contra o COVID, precisamos da vacina contra a pressa arrogante e narcisista de querer viver sem limites e vínculos, de transitar passando por cima de tudo e de todos. Para isso, a paciência, como a arte de esperar e caminhar juntos, guardando a formação no vôo, como fazem os gansos para proteger-se e economizar forças, é a atitude certa e o estilo de vida saudável para todas as pessoas e criaturas da Terra. Que Deus nos permita ter compaixão conosco mesmo, para sermos pacientes e solidários com todos os irmãos e irmãs. Deus seja louvado!

 


Fonte: Noticias da CNBB

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