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Fundamentalismo

Dom Lindomar Rocha
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)

O fundamentalismo é corrosivo para a cooperação social e dano permanente para união dos povos.

Basicamente, o fundamentalismo tem início em uma ideia que se estreita até se tornar autorreferenciada!

Quando uma ideia referenda-se a si mesma é semelhante àquele palestrante que se cita corriqueiramente na formulação: “como eu costumo dizer”! essa afirmação não acrescenta nada de valor ao discurso, apenas comprova que o orador costuma dizer a mesma coisa sempre, mas soa aos ouvidos de quem diz como uma contribuição de valor.

A deia que se referencia apenas em si mesma torna-se ideologia. Ela é autofundante, e não tendo elementos exteriores que corroborem as suas crenças se desdobra em peripécias para se sustentar e parecer válida.

A este ponto todos os meios são utilizados para dar validade à ideia, a começar pelas lutas jurídicas, políticas, etc.

As ideias tratadas deste modo costumam ser muito atraentes, graças a sua simplicidade e facilidade de compreensão.

É muito fácil pensar que os problemas do mundo estão postos sobre um único pedestal; é atraente saber precisamente onde fincar a bandeira e declarar vitória, embora esta vitória nunca chegue.

A ideologia ainda não é fundamentalismo. Ela é mais uma estreiteza de ideias que afunila o caminho numa só direção. Entretanto, todo fundamentalismo começa com uma ideologia.

Como as ideologias não possuem limites partidários podem ser liberais, conservadoras e, tudo o mais, que possa existir entre esses dois extremos; as ideias podem se tornar fundamento de qualquer classe de pensamento, basta que o indivíduo ou grupo de indivíduos se coloquem de acordo, equivocadamente, de que o seu problema ou a sua solução esteja à base, como fundamento, de tudo mais o que há.

Como vimos acima, nenhuma ideia corresponde ao todo da realidade, razão pela qual toda ideologia é improdutiva. O fundamentalismo é, então, o recrudescimento desta ideia, que não tendo fundamento sólido, por não estar relacionada com o todo da realidade, tenta se impor com o uso de todo tipo de força, que ao limite se degenera em violência e caos.

O fundamentalismo reduz o mundo a um único ponto. O estreitamento da visão é inevitável, e todos que não compartilham este mesmo ponto de vista são considerados inimigos.

O fundamentalismo subverte o ensinamento de Jesus quando diz: “quem não é contra nós está a nosso favor” (Mc 9,40), e ver contra ele todos que não abarcam inteiramente a estreiteza do seu fundamento.

Por mais estranho que pareça, o nosso tempo parece propícia a todo tipo de fundamentalismo, já que, verdade se diga, não é fácil ajustar o raciocínio e aprumar constantemente os objetivos num mundo onde a complexidade exige um esforço hercúleo da inteligência e da fé.

Agarrado a coisas importantes mas, que nem de longe, servem como fundamento, o fundamentalismo amplia a importância desta mesma coisa até não admitir nada mais fora dela. O números de ideias que pleiteiam este status é excessivo neste tempo e exige um aprimoramento meticuloso da própria inteligência da fé para não estreitar os horizontes deixados pelo divino Mestre, Jesus.


Fonte: Noticias da CNBB

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