CNBB

Pedro tomou a palavra (At 10, 34)

Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira
Bispo da Prelazia de Itacoatiara  (AM)

 

Esta atitude de Pedro na casa de Cornélio é muito importante. Ele como liderança da Igreja nascente sentiu que aquela era a hora de falar, de orientar, de educar na fé e para o seguimento de Jesus.

Como Pedro, também nós, precisamos tomar a palavra, ter a iniciativa, não se pode esperar sempre pelos outros.  Perguntemo-nos: diante dos acontecimentos de nossa família, de nossa Igreja, de nossa sociedade, tomamos a palavra e falamos ou somos da turma do vamos deixar para lá para ver como é que fica?

Somos parecidos com o Samaritano (cf. Lc 10, 25-37) que ao ver alguém jogado à beira do caminho, semimorto, para a sua viagem, movido de compaixão, para prestar socorro e salvar uma vida? Ou somos parecidos com o sacerdote e o levita desta mesma parábola que Jesus conta, que ao ver quem caiu nas mãos dos assaltantes, não se sensibilizam e continuam o caminho, talvez para chegarem mais rápido na Sinagoga?

O Papa Francisco, na Fratelli Tutti, faz o seguinte comentário sobre esta situação que Jesus apresenta na Parábola do Bom Samaritano: “Com quem você se identifica? É uma pergunta sem rodeios, direta e determinante: a qual deles você se assemelha? Precisamos reconhecer a tentação que nos cerca de nos desinteressar pelos outros, especialmente pelos mais frágeis. Dizemos que crescemos em muitos aspectos, mas, somos analfabetos em acompanhar, cuidar e sustentar os mais frágeis e vulneráveis das nossas sociedades desenvolvidas. Habituamo-nos a olhar para o outro lado, a passar à margem a ignorar as situações até ela nos atingirem diretamente” (n. 64).

Pedro, com certeza, ouviu Jesus contar a parábola do Bom Samaritano para o Doutor da Lei, que queria saber quem era o seu próximo. Esta parábola de Jesus deve ter estimulado Pedro a tomar a inciativa. Que nós, também, sejamos estimulados pelo Bom Samaritano e sempre que a situação exigir, sejamos pessoas de inciativa, participativas, solidárias, compassivas, caridosas.

Tomar a iniciativa para combater a distinção entre as pessoas

Afirma Pedro: “Estou compreendendo que Deus não faz distinção entre as pessoas” (At 10, 34).

Podemos nos perguntar: se Deus não faz distinção, como nos ensina Pedro, por que nós fazemos? Por que existe tanta distinção, desigualdade no mundo? Por que de um lado 238 brasileiros e brasileiras acumulam aproximadamente R$ 1,3 bilhão, cerca de 18% do Produto Interno Bruto do Brasil PIB em 2019 (cf. https://www.jornalcontabil.com.br/conheca-os-bilionarios-brasileiros-de-2020/) e do outro lado os 10% mais pobres da população possuem apenas 1% do PIB (cf. https://exame.com/economia/brasil-e-nono-pais-mais-desigual-do-mundo-diz-ibge)?

Por isto as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) cantam profeticamente: “O mundo que a gente vive é cheio de divisão, mas Deus não quer isto não!”.

Que possamos fazer nossa esta convicção de Pedro: o Deus que eu creio não faz distinção entre as pessoas. Ele ama a todos e quer o bem de todos os seus filhos e de todas as suas filhas. Por isto não posso fazer distinção/discriminação e devo combater acirradamente toda e qualquer forma de distinção/discriminação em nossa família, em nossa Igreja e em nossa sociedade.

Que esta nossa convicção nos faça comprometidos com a prática da caridade social, que nos impulsiona a amar o bem comum e a buscar o bem de todas as pessoas (cf. Fratelli Tutti, n. 182).

Tomar a iniciativa para fazer o bem

Pedro, também, nos ensina que “Jesus andou por toda a parte fazendo o bem” (At 10, 38).

Mateus registra o recado de Jesus para João Batista, que queira saber se Ele era ou não o Messias (11, 2-3). Jesus não responde diretamente se ele era ou não o Messias, mas pede que os enviados de João Batista digam para ele o que estavam vendo e ouvindo (Mt 11, 4). No recado de Jesus está a explicação do que disse Pedro na casa de Cornélio: “Jesus andou por toda a parte fazendo o bem” (At 10, 34). Vejamos o bem que Jesus andava fazendo: cegos recuperavam a vista, paralíticos andavam, leprosos eram curados, surdos ouviam, mortos ressuscitavam e os pobres recebiam a boa notícia (cf. Mt 11, 5).

Este programa de vida de Jesus deve ser o nosso, como seguidores e seguidoras dEle. Devemos andar por toda a parte fazendo o bem: somente assim mereceremos ser chamados de cristãos e cristãs. O próprio Jesus nos provocou dizendo no contexto da última ceia, depois de lavar os pés dos Apóstolos: “Dei-vos o exemplo, para que façais assim como eu fiz a vós” (Jo 13, 15).

Perguntemo-nos: qual o bem que eu tenho feito? Qual o bem que nossa família tem feito? Qual o bem que a nossa Igreja tem feito? Qual o bem que temos feito a partir do exercício de nossa cidadania?

Podemos fazer o bem colaborando diretamente como voluntário ou indiretamente apoiando atividades de caridade/solidariedade existentes em nossa igreja e na sociedade, para socorrer e ajudar os empobrecidos e excluídos, como pôr exemplo a Caritas, a CPT – Comissão Pastoral da Terra, o CIMI – Conselho Indigenista Missionário, as Pastorais Sociais (Saúde, Criança, AIDS, Sobriedade, Pessoa Idosa, Carcerária), a Rede um Grito pela Vida (no combate ao tráfico de pessoas), a Fazenda da Esperança, alguma ONG (organização não-governamental).

No mundo que nós vivemos, fazer o bem como Jesus fez e ensinou, está totalmente interligado com o serviço aos pobres. Os bispos da América Latina e do Caribe em Aparecida (2007), ensinam que devemos dedicar “tempo aos pobres, prestar a eles amável atenção, escutá-los com interesse, acompanhá-los nos momentos difíceis, escolhê-los para compartilhar horas, semanas ou anos de nossa vida, e procurando, a partir deles, a transformação de sua situação” (nº 397).

O Papa Francisco, citando São João Paulo II, afirma na Evangelli Gaudium que “sem a opção preferencial pelos pobres, o ‘anúncio do evangelho corre o risco de não ser compreendido’” (n. 199). Para concluir sua reflexão nesta Exortação Apostólica sobre a necessária inclusão social dos pobres, o Papa Francisco nos provoca dizendo: “Ninguém deveria dizer que se mantém longe dos pobres, porque as suas opções de vida implicam prestar mais atenção a outras incumbências. Esta é uma desculpa frequente nos ambientes acadêmicos, empresariais ou profissionais e até mesmo eclesiais… Ninguém pode sentir-se exonerado da preocupação pelos pobres e pela justiça social” (n. 201).

São João Paulo II na Exortação Apostólica pós-Sinodal Vita Consecrata (1996), falando da predileção pelos pobres e a promoção da justiça que a Vida Consagrada deve viver, afirmou: “A opção pelos pobres inscreve-se na própria dinâmica do amor, vivido segundo Jesus Cristo. Assim estão obrigados a ela todos os seus discípulos” (n. 82b). Portanto, todos os cristãos e todas as cristãs devem fazer opção pelos pobres.

Quero, ainda, recordar as palavras do Papa Francisco na sua Mensagem de Natal/2020 para as pessoas que trabalham com ele na Cúria Romana: “Permiti, atodos vocês que me acompanham no serviço do Evangelho, que vos peça expressamente, este presente de Natal: a vossa colaboração generosa e apaixonada no anúncio da Boa Nova, sobretudo, aos pobres (cf. Mt 11, 5). Lembremo-nos que só conhece verdadeiramente a Deus quem acolhe o pobre que vem de baixo com a sua miséria; não podemos ver o rosto de Deus, mas podemos experimentá-lo ao olhar para nós quando honramos o rosto do próximo, do outro que nos ocupa com as suas necessidades. O rosto dos pobres. Os pobres são o centro do Evangelho. E recordo o que dizia aquele santo bispo brasileiro: “Quando ajudo os pobres, dizem que sou um santo, mas, quando pergunto ‘por que tanta pobreza?’, chamam-me de ‘comunista’”. Este santo bispo brasileiro a que se refere o Papa Francisco é Dom Helder Câmara (foi Arcebispo de Olinda e Recife de 1964 a 1985).

A opção pelos pobres é uma resposta concreta ao mandamento novo que Jesus nos deu (cf. Jo 13, 34). A opção pelos pobres é o caminho para a gente fazer o bem por toda parte, como fez Jesus (cf. At 10, 38). O serviço aos pobres é a senha de acesso ao Reino preparado para nós, como nos ensinou Jesus na parábola do julgamento final (cf. Mt 25, 31-46).

Esta caridade cristã deve ser praticada em três níveis complementares: o nível da caridade assistencial (dar o que a pessoa precisa de imediato para sobreviver), o nível da caridade promocional (oferecer condições para a pessoa obter por si mesma o que precisa para sobreviver) e o nível da caridade libertadora (atuar na sociedade para romper as causas da miséria, da exclusão).

Neste sentido é profundo o ensinamento do Concílio Vaticano I sobre a prática da caridade: “A fim de que este exercício da caridade esteja para além de toda a suspeita e como tal apareça, veja-se no próximo a imagem de Deus, segundo a qual foi criado, e a Cristo Senhor a quem verdadeiramente se oferece o que se dá ao necessitado, e respeite-se com a maior delicadeza, a liberdade e a dignidade da pessoa que recebe o auxílio; não se manche a pureza de intenção por qualquer proveito de utilidade própria ou pelo desejo de domínio; primeiro satisfaçam-se as exigências da justiça e não se ofereça como dádivas de caridade o que já se deve por título de justiça; suprimam-se não só os efeitos, mas as causas dos males; orientem-se os auxílios de tal modo que aqueles que os recebem, pouco a pouco se libertem da dependência externa e se bastem a si próprios” (Apostolicam Actuositatem, nº 8).

Sigamos o ensinamento de Pedro: não façamos distinção de pessoas e andemos por toda a parte fazendo o bem!


Fonte: Noticias da CNBB

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