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Fratelli Tutti: últimos capítulos mostram desejo do Papa por uma sociedade fraterna, solidária e pacífica

A terceira encíclica do papa Francisco, Fratelli Tutti (“todos irmãos”), é um chamado à redescoberta da fraternidade e da amizade social, presentes no subtítulo do texto assinado diante da tumba de São Francisco de Assis, e divulgado pelo Vaticano.

A grande crítica que Francisco faz na Fratelli tutti, e que será desmembrada em vários outros comentários ao longo do texto, se dirige ao individualismo exacerbado dos tempos atuais, que apagou a noção de bem comum como um objetivo a ser buscado por toda a humanidade.

Especialmente nos quatro últimos capítulos de seu texto, Francisco fala sobre as carências estruturais da sociedade mundial e sugere reajustes profundos e transformações importantes.

A POLÍTICA MELHOR

No capítulo 5 de sua encíclica, o Papa afirma que para se tornar possível o desenvolvimento duma comunidade mundial capaz de realizar a fraternidade a partir de povos e nações que vivam a amizade social, é necessária a política melhor, a política colocada ao serviço do verdadeiro bem comum. Mas hoje, infelizmente, de acordo com ele, muitas vezes a política assume formas que dificultam o caminho para um mundo diferente.

O Sumo Pontífice pontua que atualmente muitos possuem uma má noção da política, e não se pode ignorar que frequentemente, por trás deste fato, estão os erros, a corrupção e a ineficiência de alguns políticos. “A isto vêm juntar-se as estratégias que visam enfraquecê-la, substituí-la pela economia ou dominá-la por alguma ideologia. E contudo poderá o mundo funcionar sem política? Poderá encontrar um caminho eficaz para a fraternidade universal e a paz social sem uma boa política?”, questiona.

Ele insiste que a política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia. “Embora se deva rejeitar o mau uso do poder, a corrupção, a falta de respeito das leis e a ineficiência, não se pode justificar uma economia sem política, porque seria incapaz de promover outra lógica para governar os vários aspetos da crise atual”, salienta.

Para o Papa, é necessária uma política que pense com visão ampla e leve por diante uma reformulação integral, abrangendo num diálogo interdisciplinar os vários aspetos da crise. “Penso numa política salutar, capaz de reformar as instituições, coordená-las e dotá-las de bons procedimentos, que permitam superar pressões e inércias viciosas. Não se pode pedir isto à economia, nem aceitar que ela assuma o poder real do Estado”, reitera.

Ainda de acordo com ele, a sociedade mundial tem graves carências estruturais que não se resolvem com remendos ou soluções rápidas meramente ocasionais. Há coisas que devem ser mudadas com reajustamentos profundos e transformações importantes. E só uma política sã poderia conduzir o processo, envolvendo os mais diversos setores e os conhecimentos mais variados.

“Desta forma, uma economia integrada num projeto político, social, cultural e popular que vise o bem comum pode abrir caminho a oportunidades diferentes, que não implica frenar a criatividade humana nem o seu sonho de progresso, mas orientar esta energia por novos canais”, pontuou.

DIÁLOGO E AMIZADE SOCIAL

No capítulo 6, Papa Francisco fala que aproximar-se, expressar-se, ouvir-se, olhar-se, conhecer-se, esforçar-se por entender-se, procurar pontos de contato se resumem no verbo dialogar.

Ele afirma que para nos encontrar e ajudar mutuamente é preciso dialogar. “Não é necessário dizer para que serve o diálogo; é suficiente pensar como seria o mundo sem o diálogo paciente de tantas pessoas generosas, que mantiveram unidas famílias e comunidades”, disse. Para ele, o diálogo perseverante e corajoso não faz notícia como as desavenças e os conflitos; e contudo, de forma discreta mas muito mais do que possa-se notar, ajuda o mundo a viver melhor.

Ainda durante as próximas páginas, o Papa salienta que a falta de diálogo supõe que ninguém, nos diferentes setores, está preocupado com o bem comum, mas com obter as vantagens que o poder lhe proporciona ou, na melhor das hipóteses, com impor o seu próprio modo de pensar.

“Assim a conversação reduzir-se-á a meras negociações para que cada um possa agarrar todo o poder e as maiores vantagens possíveis, sem uma busca conjunta que gere bem comum”, disse. Os heróis do futuro, de acordo com ele, serão aqueles que souberem quebrar esta lógica morbosa e, ultrapassando as conveniências pessoais, decidam sustentar respeitosamente uma palavra densa de verdade. “Queira Deus que estes heróis se estejam gerando silenciosamente no coração da nossa sociedade”, afirma.

Para o Papa Francisco, o diálogo social autêntico pressupõe a capacidade de respeitar o ponto de vista do outro, aceitando como possível que contenha convicções ou interesses legítimos. “A partir da própria identidade, o outro tem algo para dar, e é desejável que aprofunde e exponha a sua posição para que o debate público seja ainda mais completo”, diz. Para ele, sem dúvida, quando uma pessoa ou um grupo é coerente com o que pensa, adere firmemente a valores e convicções e desenvolve um pensamento, isto irá de uma maneira ou outra beneficiar a sociedade; mas só se verifica realmente na medida em que o referido desenvolvimento se realizar em diálogo e na abertura aos outros.

PERCURSOS DUM NOVO ENCONTRO

Em muitas partes do mundo, Francisco no capítulo 7, afirma faltar percursos de paz que levem a cicatrizar as feridas. Para ele há necessidade de artesãos de paz prontos a gerar, com inventiva e ousadia, processos de cura e de um novo encontro.

O percurso para a paz, segundo Francisco, não implica homogeneizar a sociedade, mas permitir-nos trabalhar juntos. “Pode unir muitos nas pesquisas comuns, onde todos ganham. Perante um certo objetivo comum, poder-se-á contribuir com diferentes propostas técnicas, distintas experiências, e trabalhar em prol do bem comum”.

Para ele, é preciso procurar identificar bem os problemas que atravessa uma sociedade, para aceitar que existem diferentes maneiras de encarar as dificuldades e resolvê-las.

“O caminho para uma melhor convivência implica sempre reconhecer a possibilidade de que o outro contribua com uma perspectiva legítima, pelo menos em parte, algo que possa ser recuperado, mesmo que se tenha equivocado ou tenha agido mal. Porque o outro nunca há de ser circunscrito àquilo que pôde ter dito ou feito, mas deve ser considerado pela promessa que traz em si mesmo, uma promessa que deixa sempre um lampejo de esperança”, afirma.

Francisco também reitera que nunca está terminada a construção da paz social num país, e que isso é uma tarefa que não dá tréguas e exige o compromisso de todos. Uma obra que, de acordo com ele, nos pede para não esmorecermos no esforço por construir a unidade da nação e – apesar dos obstáculos, das diferenças e das diversas abordagens sobre o modo como conseguir a convivência pacífica – persistirmos na labuta por favorecer a cultura do encontro que exige que, no centro de toda a ação política, social e econômica, se coloque a pessoa humana, a sua sublime dignidade e o respeito pelo bem comum.

“Que este esforço nos faça esquivar de toda a tentação de vingança e busca de interesses apenas particulares e a curto prazo. As manifestações públicas violentas, de um lado ou do outro, não ajudam a encontrar vias de saída, sobretudo porque, quando se incentivam – como bem assinalaram os bispos da Colômbia – as mobilizações dos cidadãos, nem sempre aparecem claras as origens e objetivos das mesmas; não faltam formas de manipulação política e apropriações a favor de interesses particulares”, argumenta Francisco.

AS RELIGIÕES A SERVIÇO DA FRATERNIDADE NO MUNDO

As várias religiões, ao partir do reconhecimento do valor de cada pessoa humana como criatura chamada a ser filho ou filha de Deus, oferecem  – segundo o Papa – uma preciosa contribuição para a construção da fraternidade e a defesa da justiça na sociedade. No capítulo 8 e último de sua encíclica, o Papa salienta que o diálogo entre pessoas de diferentes religiões não se faz apenas por diplomacia, amabilidade ou tolerância. “Como ensinaram os bispos da Índia, o objetivo do diálogo é estabelecer amizade, paz, harmonia e partilhar valores e experiências morais e espirituais num espírito de verdade e amor”, garante.

“A partir da experiência de fé e da sabedoria que se vem acumulando ao longo dos séculos e aprendendo também das nossas inúmeras fraquezas e quedas, como crentes das diversas religiões sabemos que tornar Deus presente é um bem para as nossas sociedades”.

Conforme Francisco buscar a Deus com coração sincero, desde que não o ofusquemos com interesses ideológicos ou instrumentais, ajuda a reconhecer-nos como companheiros de estrada, verdadeiramente irmãos.

“Julgamos que, quando se pretende, em nome duma ideologia, expulsar Deus da sociedade, acaba-se adorando ídolos, e bem depressa o próprio homem se sente perdido, a sua dignidade é espezinhada, os seus direitos violados. Conheceis bem a brutalidade a que pode conduzir a privação da liberdade de consciência e da liberdade religiosa, e como desta ferida se gera uma humanidade radicalmente empobrecida, porque fica privada de esperança e de ideais”.

Para ele, a Igreja valoriza a ação de Deus nas outras religiões e nada rejeita do que, nessas religiões, existe de verdadeiro e santo. Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que refletem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens.

Como cristãos, o Papa pede que, nos países onde se é minoria, seja garantida a liberdade, tal como se é favorecida para aqueles que não são cristãos onde eles são minoria. “Existe um direito humano fundamental que não deve ser esquecido no caminho da fraternidade e da paz: é a liberdade religiosa para os crentes de todas as religiões”, afirma.

Esta liberdade, de acordo com ele, manifesta que podemos encontrar um bom acordo entre culturas e religiões diferentes; “testemunha que as coisas que temos em comum são tantas e tão importantes que é possível individuar uma estrada de convivência serena, ordenada e pacífica, na aceitação das diferenças e na alegria de sermos irmãos porque filhos de um único Deus”.

Por fim, o Papa afirma que os líderes religiosos, são chamados a ser verdadeiros “dialogantes”, a agir na construção da paz, e não como intermediários, mas como mediadores autênticos. “Os intermediários procuram contentar todas as partes, com a finalidade de obter um lucro para si mesmos. O mediador, ao contrário, é aquele que nada reserva para si próprio, mas que se dedica generosamente, até se consumir, consciente de que o único lucro é a paz”.

“Cada um de nós é chamado a ser um artífice da paz, unindo e não dividindo, extinguindo o ódio em vez de o conservar, abrindo caminhos de diálogo em vez de erguer novos muros”.

 

 

 

 

 


Fonte: Noticias da CNBB

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