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A Sagrada Família segundo alguns Padres da Igreja

Dom Vital Corbellini
Bispo de Marabá (PA)

Os Padres da Igreja tiveram uma grande consideração pela Sagrada Família, Jesus, Maria e José, porque a encarnação do Verbo de Deus ocorreu num contexto familiar. Deus quis habitar em uma família, de modo que Maria e José foram os pais adotivos de Jesus. Nós podemos dizer que a família é projeto de Deus, no qual quer a nossa vida e nos dará a graça da salvação. Neste tempo de pandemia rezemos pela unidade de nossas famílias, para que haja menos violência sobretudo contra as mulheres, contra as pessoas idosas e assim todas vivam o espírito de unidade e de amor como ocorreu na Sagrada Família de Nazaré. A seguir, nós veremos algumas considerações importantes dos primeiros escritores cristãos sobre a festa da Sagrada Família.

Orígenes, padre dos séculos II e III, afirmou que Simeão foi movido pelo Espírito Santo para acolher o Messias no templo. Devemos buscar um motivo digno do dom de Deus para explicar como Simeão, um homem justo e piedoso, agradável a Deus, esperando a consolação de Israel, obteve do Espírito Santo a asseguração que não morreria antes de ver o Cristo do Senhor (cfr. Lc 2,25-26). Quem lhe deu a alegria de ver o Cristo? Será que neste ver o Senhor escondeu um dom de Deus que o bem-aventurado Simeão era digno de merecê-lo como de fato o recebeu? O autor alexandrino afirmou que se uma mulher desejou tanto ser curada de sua doença de modo que se aproximou de Jesus por detrás e tocou o seu manto, e foi curada, o que se pensaria em relação a Simeão que acolheu entre os seus braços o menino Jesus, o Salvador e se alegrou, e assim ele teve ciência que aquele menino veio para libertar os prisioneiros de seus pecados, a curar muitas pessoas e a evangelizar? Ele mesmo estava para se afastar este mundo e sabia que nenhuma pessoa deixaria a humanidade na prisão do corpo, com a esperança da vida futura, senão Naquele que o tinha em seus braços. Desta forma ele pode dizer a Ele, que era para deixar partir em paz o seu servo (cfr. Lc 2,29). Se alguém sai deste mundo, libertou-se das coisas. O caso de Simeão é exultante porque ele tomou entre em suas mãos Jesus, o circundou entre os seus braços, de modo que então poderia andar exultante de alegria onde desejaria, a vida eterna. O Espírito o conduziu pois, ao templo. Assim toda pessoa que deseja estar livre de seus pecados, do egoísmo, do individualismo, deve dedicar um tempo para ser conduzido pelo Espírito Santo e ir ao templo de Deus. Ora cada fiel está no templo do Senhor Jesus, na sua Igreja. Este é de fato o templo construído de pedras vivas (cfr. 1 Pd 2,5). Ora se a pessoa irá ao templo movida pelo Espírito, encontrará o menino Jesus e assim dirá para deixá-lo partir em paz o seu servo conforme a sua palavra (cfr. Lc 2,29). A pessoa encontrará a verdadeira paz, o Senhor Jesus. Por isso Simeão disse de partir em paz o seu servo.

Orígenes levantou uma pergunta daquele que morre em paz senão aquele que a viveu neste mundo e a procurou guardá-la em seu coração? (cfr. Fl 4,7). Quem parte deste mundo em paz, se não aquele que compreende que Deus está em Cristo para reconciliar todo o mundo (cfr. 2 Cor 5,19), aquele que não nutre inimizade e rancor para com os outros e com Deus, mas alcançou com obras boas, a plenitude da paz, do amor, e vá em paz para alcançar os santos pais, em direção daqueles que foi também Abraão? Nós também estamos no templo para assegurar entre os braços o Senhor Jesus e realizar obras de caridade no mundo para habitar no templo eterno, a vida eterna com Ele para sempre[1].

Santo Ambrósio, bispo de Milão, final do século IV, colocou também na festa da Sagrada Família, Simeão, o ancião que esperou o Senhor. Ele afirmou que não somente os anjos, os profetas, os pastores e os pais, mas também os idosos e os justos receberam o testemunho do nascimento do Senhor. Todas as idades tornam presentes o testemunho que uma virgem deu à Luz, uma mulher estéril teve um filho, um mudo falou, Isabel profetizou, os magos adoraram, um menino pulou de alegria, uma viúva louvou a Deus, um justo esteve na espera. Simeão era de fato um homem justo, porque ele não esperou o seu interesse mas, aquele do povo. Pelo seu desejo, queria estar livre do corpo frágil, mas ele esperou ver o Messias prometido, sabendo que seriam bem-aventurados os olhos de quem o teriam visto (cfr. Lc 10,23). Aquele homem que desejou a libertação, foi em Jerusalém, no templo, esperou o Ungido do Senhor, recebeu em suas mãos o Verbo de Deus e o agarrou entre os seus braços da sua fé, de modo que não veria mais a morte, porque viu a vida. Assim se a profecia é negada aos incrédulos, mas não aos justos (cfr. ! Cor 14,22), eis que também Simeão profetizou que o Senhor Jesus veio para a ruína e para ressurreição de muitos, para fazer a divisão entre os justos e os injustos, segundo os merecimentos e para dar-nos como juiz verdadeiro e justo, seja a pena seja a graça da vida eterna segundo as ações de caridade e de amor[2].

São João Damasceno, monge, presbítero dos séculos VII e VIII teve presentes as dores de Maria. Ele especificou que aquela mulher, cheia de graças que superam toda medida natural, conheceria dores na paixão de seu Filho na cruz, ao ouvir de Simeão que uma espada traspassaria o seu coração, aquele que Ela conheceu como Filho de Deus que o gerou, de modo que uma espada de dor traspassaria a alma (cfr. Lc 2,35). No entanto a alegria da ressurreição, que cantou a divindade Daquele que morreu na carne, absorveu toda a dor[3].

A Sagrada Família colocou a presença do Filho de Deus na família humana. Este ponto valoriza as ações que a família faz e também da família que o Senhor deseja de cada um de nós. Ela é dom de Deus e é também missão. A Igreja é chamada a estar com todas as famílias, a rezar por elas, para que vivam na paz e no amor e um dia possam glorificar a Deus. A Sagrada Família acompanhe e abençoe a todas as famílias do mundo.

[1] Origene, In Evang. Luc., 15,1-5. In: I Padri vivi. Commenti Patristici al Vangelo dominicale, Anno B, a cura di Marek Starowleyski. Città nuova Editrice, Roma, 1984, pgs. 29-31.

[2] Cfr. Ambrogio, Exp. In Luc., 2,58-60. In: I padri vivi, idem, pg. 31.

[3] Cfr. Giovanni Damasceno, De fide Orthod., 4,14. In: I padri vivi, idem, pg. 32.


Fonte: Noticias da CNBB

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