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O banho do menino Jesus

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo Metropolitano de Montes Claros (MG)

Vi uma vez, numa paróquia da cidade de Colônia, Alemanha, um presépio que encheu meus olhos de brilho. A cada dia as figuras mudavam de gestos e novas cenas eram apresentadas. A que vi trazia Maria ao lado de uma tina. Ela segurava o menino Jesus, que estava sem nenhuma veste. Sustentava o recém-nascido sobre a tina enquanto José, de joelhos, derramava um balde de água. Era a cena de um dos banhos do menino Jesus. Ali me detive a contemplar, meditar e rezar o realismo da cena criada para comunicar a beleza do mistério da encarnação. Sim, o menino Jesus, Verbo de Deus humanado, precisava de cuidados maternos e paternos como qualquer criança. Assumindo a natureza humana, Deus se submetia aos processos culturais do cuidado com a vida nascente. Assim, seus pais, Maria e José, deveriam educá-lo. Impressionante esvaziamento do Onipotente, que se fez pequenino.

Uma outra cena, essa da lembrança de muitos, nós a encontramos no filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson. Quando Jesus, todo flagelado, caminha sob o peso da cruz e se encontra com sua mãe, o diretor introduz imagens de Jesus menino, correndo e caindo, esfolando os joelhos. Como toda mãe faria, Maria corre ao encontro de Jesus para socorrê-lo e abraçando-o diz-lhe: “Estou aqui”. Aquelas imagens vêm como lembrança de uma história de vida, naquele momento em que Jesus se depara com o sofrimento e a morte.

Recentemente, tornaram-se populares imagens interessantes que resgatam a humanidade da família de Nazaré. Pelo menos duas podem ser lembradas: a imagem de José dormindo e outra de Maria descansando no sono enquanto José embala o menino Jesus. Cenas muito reais para todo casal que deu à luz seu filho.

A Igreja, por meio da Constituição Pastoral Gaudium et spes, do Concílio Vaticano II, já dissera dessa verdade da fé cristã, qual seja, o mistério da encarnação com palavras muito claras: “‘Imagem de Deus invisível’ (Col. 1,15), Ele é o homem perfeito, que restitui aos filhos de Adão semelhança divina, deformada desde o primeiro pecado. Já que, n’Ele, a natureza humana foi assumida, e não destruída, por isso mesmo também em nós foi ela elevada a sublime dignidade. Porque, pela sua encarnação, Ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem. Trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado” (GS 22).

Celebrar o Natal implica reconhecer essa dimensão do Evangelho: a humanização de Deus em Jesus está a indicar o valor inestimável do ser humano, pois Deus quis ser como um de nós. Ele veio ao encontro da humanidade para conduzi-la até Ele. Deus se fez como nós para fazer-nos como Ele. Quanto mais nos identificamos com o humano de Jesus mais nos aproximamos do divino que n’Ele brilhou. O que Deus espera de nós é uma vida sempre mais integrada e verdadeira. Quando nos dá seu Filho, oferece-nos uma lição de amor e de proximidade, de ternura e de esperança, a sinalizar que não existe outro caminho para realizar-se como pessoa senão o de deixar-se inspirar em seu Filho Jesus, para amar como Ele amou, para viver como Ele viveu, para servir como Ele serviu, para perdoar como Ele perdoou. Neste Natal, em meio à pandemia, pense nisso.


Fonte: Noticias da CNBB

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