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Todos irmãos – Parte III

Dom Adelar Baruffi
Bispo Diocesano de Cruz Alta (RS)

Continuamos a comentar a Carta Encíclica Fratelli tutti (todos irmãos), do Papa Francisco, nos capítulos IV e V. Os migrantes devem ser acolhidos e integrados com um “coração aberto ao mundo inteiro”. O Papa afirma que “o ideal seria, sem dúvida, tornar desnecessárias as migrações e, para isso, o caminho é criar reais possibilidades de viver e crescer com dignidade nos países de origem, a fim de se poder encontrar lá as condições para o próprio desenvolvimento integral” (FT, n. 129). Porém, “é nosso dever respeitar o direito que todo o ser humano tem de encontrar um lugar onde possa não apenas satisfazer as necessidades básicas dele e da sua família, mas também realizar-se plenamente como pessoa” (FT, n. 129). Os esforços somados pelo pontífice, pelas congregações religiosas e pelas dioceses, na orientação do Papa, é o de acolher, proteger, promover e integrar.

Os migrantes são portadores de dons, pois são provenientes de um contexto cultural distinto. Querem um “desenvolvimento humano integral para todos” (FT, n. 133). O encontro das culturas não deve fazer desaparecer, mas ser salvaguardada para que o mundo não fique mais pobre, sem as mesmas. Sobre a gratuidade, “os nacionalismos fechados manifestam, em última análise, esta incapacidade da gratuidade, a errada  persuasão de que podem desenvolver-se à margem da ruína dos outros e que, fechando-se aos demais, estarão mais protegidos” (FT, n. 141). Cada pessoa que nasceu num determinado contexto sabe que pertence a uma família maior. Deve-se aceitar, “com alegria que nenhum povo, nenhuma cultura, nenhum indivíduo pode obter tudo de si mesmo” (FT, n. 150).

Para poder haver uma comunidade mundial, para uma amizade social, é necessário uma “política melhor”, “a política colocada ao serviço do verdadeiro bem comum” (FT, n. 154). A divisão entre “populista” e “não populista” não é benévola, pois “umas vezes o desacredita injustamente, outras para o exaltar desmedidamente” (FT, n. 156). Uma grande questão é o trabalho, pois quem é verdadeiramente popular, que promove o bem do povo, deve “garantir a todos a possibilidade de fazer germinar as sementes que Deus colocou em cada um, as suas capacidades, a sua iniciativa, as suas forças” (FT, n. 162). Sem dúvidas “esta é a melhor ajuda para um pobre” (FT, n. 162).

A questão do mercado é abordada pelo Papa mais uma vez, com clareza. “O mercado, por si só, não resolve tudo, embora às vezes nos queiram fazer crer neste dogma de fé neoliberal. Trata-se de um pensamento pobre, repetitivo, que propõe sempre as mesmas receitas perante qualquer desafio que surja” (FT, n. 168). Então, faz-se necessário uma política econômica ativa, visando promover a criatividade empresarial, que aumentem os postos de trabalho. A especulação financeira com a ganância do lucro fácil, faz muitos estragos. No tempo da pandemia ficou ainda mais claro que os sistemas mundiais não resolvem tudo com a liberdade de mercado e que se faz necessário “voltar a pôr a dignidade humana no centro” (TF, n. 168). Faz-se necessário pensar a participação social, política e econômica segundo as modalidades que incluam os movimentos populares, com “experiências de solidariedade que crescem de baixo” (FT, n. 169). Para que isso seja possível, convida “a revalorizar a política, que é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas de caridade, porque busca o bem comum” (FT, n. 180). O Papa convida ao “amor social”, para avançar na construção da civilização do amor e renovar profundamente as estruturas sociais. Enfim, o Papa convida que nos comprometamos a viver e ensinar o valor do respeito, o amor que aceita as várias diferenças e a dignidade de cada ser humano sempre (cf. FT, n. 191).


Fonte: Noticias da CNBB

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