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Dar a vida pela missão em Moçambique: bispo de Pemba celebra missa em Roma

Por Tony Neves *

Pequeno, franzino, Dom Luiz Fernando Lisboa, de 64 anos, engana-nos pela fragilidade da aparência. Basta começar a falar para, na humildade e serenidade das suas palavras, percebermos como é grande o missionário que ali se esconde. Brasileiro de nascença, Passionista de Congregação, Dom Luiz é missionário em Moçambique há quase 20 anos. Foi escolhido para ser o Bispo de uma das zonas mais ‘quentes ‘da África Oriental: a Diocese de Pemba que tem por geografia a Província de Cabo Delgado.

Por muitas razões (ainda pouco claras), esta região do norte de Moçambique está a ferro e fogo, sobretudo desde 2017. Grupos armados invadem povoações, matam (mais de 2 mil), destroem, semeiam o pânico e põem as pessoas em fuga. São já muitos milhares os deslocados (mais de 600 mil), muitos abandonados à sua pobreza, apenas ajudados pelas famílias, pelo bom povo da região e por instituições como a Caritas da Diocese de Pemba.

Os cânticos foram entoados pelo coro dos Moçambicanos Católicos na Itália (MOCATI).
O rosto mais notável da denúncia desta situação e da tragédia que este povo sofre é o do seu Pastor, Dom Luiz Lisboa, que tem a cabeça a prêmio. Os seus gritos ao mundo têm ecoado e irritado muita gente, mas também aberto muitos caminhos de solidariedade. O Papa Francisco fez da tragédia de Cabo Delgado tema da sua intervenção e bênção ‘Urbe et Orbe’ de Páscoa, em Roma. Depois, telefonou-lhe a 19 de agosto: ‘um grande susto porque nunca esperei um telefonema do Papa’ – confessa. Agora mandou apoio financeiro de 100 mil euros, ‘para construir dois hospitais de campanha para os deslocados’. Esta sexta-feira, 18, recebeu-o no Vaticano, ‘nuns longos e inesperados 45 minutos em portunhol’. Diz que este Papa vindo de uma periferia, ao se interessar pela dramática situação de Cabo Delgado traz as periferias para o centro: ‘isto tem tudo a ver com a Encarnação, com o Natal’. Mas, para o Bispo de Pemba, ‘não é possível viver o Natal sem pensar nas crianças que estão a viver nas tendas dos deslocados’.

 

MISSA COM MOÇAMBICANOS EM ROMA
Dom Luiz Lisboa com grupo de moçambicanos em Roma.

Tudo isto e muito mais partilhou Dom Luiz na homilia da Eucaristia que presidiu na Igreja de Santa Maria ai Monti, em Roma, neste domingo, 20, com a participação de representantes da comunidade moçambicana, brasileira e amigos. Concelebraram cerca de 20 padres de Moçambique, Brasil e Itália. Os cânticos foram entoados pelo coro dos Moçambicanos Católicos na Itália (MOCATI). A celebração lembrou as vítimas da violência que arrasa o norte do país, bem como as pessoas atingidas pela pandemia e suas muitas consequências. No momento penitencial, o Bispo pediu perdão pelos pecados de cada um, ‘pelos que não pedem perdão e por aquelas empresas que não olham a meios para ter lucro e apenas zelar pelos seus interesses’.

Dom Luiz voltou a ser claro, durante a homilia, na denúncia da gravidade da situação que atinge as populações de Cabo Delgado. Insistiu na ideia de que a violência não tem motivações essencialmente religiosas, mas claramente econômicas: há jogos de interesses que têm a ver com a riqueza da região e a necessidade de expulsar as pessoas da área. O fato dos bandos armados se confessarem muçulmanos não é o mais relevante, segundo o Bispo, pois eles também matam crentes islâmicos.

Tenta explicar que não é mais possível silenciar a situação que ali se vive, mas, sobretudo, quer indicar-nos caminhos para apoiar as populações martirizadas e acabar com a tragédia. Pede três coisas: oração, denúncia das barbaridades para se combater a indiferença do mundo e solidariedade com ajuda financeira para apoiar as vítimas. É muito claro ao afirmar que reconstruir Igrejas não é a prioridade atual. Agora há que investir na reconstrução de vidas que é urgente salvar.

O Bispo fala em nome das pessoas que gritam por ajuda, mas a sua voz é fraca e não se ouve ao longe: ‘a voz da Igreja é a voz dos sem voz!’. A Igreja em Pemba é samaritana e as populações locais estão a dar ao mundo um exemplo enorme de hospitalidade: ‘há famílias que acolheram nas suas casas e quintais duas ou três famílias de deslocados!’.

Padres concelebram com Dom Luiz em Roma

No fim, Dom Luiz voltou a exprimir a sua grande convicção: ‘Deus não nos abandonou; Ele caminha conosco e sofre conosco’. E – citando a Fratelli Tutti do Papa Francisco – concluiu: ‘Somos todos irmãos e irmãs, responsáveis uns pelos outros’.

* Padre Tony Neves, missionário Espiritano em Roma

Fonte: Consolata América

 

SOS MOÇAMBIQUE

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Cáritas Brasileira lançaram, dia 11 de dezembro a campanha “SOS Moçambique: Cabo Delgado quer paz”.  A  articulação em rede, em todo país, tem o objetivo de sensibilizar a sociedade brasileira, especialmente a comunidade cristã, a se engajar nesta campanha.

O valor arrecadado chegará à província de Cabo Delgado e vai se transformar em ajuda para milhares de famílias, que fugiram de suas aldeias em busca de abrigo e comida, e que estão sendo assistidas pela Cáritas Diocesana de Pemba.

“Somos todos irmãos, parte de uma família de muitos, toda humanidade. Por isso mesmo, as distâncias, os costumes, as diferenças não podem ser justificativas para indiferenças. Somos sempre convidados a ajudar nossos irmãos e irmãs que sofrem”, convoca arcebispo de Belo Horizonte (MG) e presidente da CNBB, dom Walmor Oliveira de Azevedo, frente à sequência de ataques terroristas que devastaram vidas em Moçambique.

As doações poderão ser depositadas na seguinte conta do Banco do Brasil gerida pela Cáritas Brasileira:
Banco do Brasil
Agência 0452-9
Conta Corrente: 202.000-9
Para DOC e TED, o CNPJ da Cáritas Brasileira é: 33.654.419/0001-16

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