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A caminho da CFE 2021: o contexto social em que se propõe o diálogo

Em 2021, a Igreja Católica une-se novamente às demais Igrejas-membro do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs para mais uma Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE). “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” é o tema que conduzirá as reflexões, à luz do lema bíblico “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef. 2.14).

E qual o contexto da CFE 2021?
Em qual realidade será proposto o diálogo como ferramenta
para convidar comunidades de fé e pessoas de boa vontade
para pensar, avaliar e identificar caminhos para a superação
das polarizações e das violências que marcam o mundo atual
?

Durante o Seminário Nacional de Formação da campanha, realizado no início deste mês de dezembro de forma virtual, o assessor político da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), padre Paulo Renato Campos, conduziu uma reflexão para ajudar os animadores da CF em todo o Brasil a entenderem o contexto social em que se terá a proposta de falar de diálogo.

Para o padre Paulo Renato, a CFE 2021 é “oportuna no seu conteúdo e na sua forma” e vai “aterrissar numa sociedade doente e enferma, desigual e iníqua, polarizada e violenta, e negacionista e alienada”. Esses quatro pontos lançam desafios, principalmente ligados à questão do diálogo.

 

 

 

Sociedade doente e enferma

A partir da etimologia dos termos, padre Paulo relacionou a doença com a dor da pandemia, com a dor daqueles que partiram, dos que estão enfermos nos hospitais. A enfermidade, por sua vez, refere-se à ausência de firmeza, à instabilidade, uma “sociedade muito marcada pela pandemia da covid-19”.

“Infelizmente a enfermidade acaba ocorrendo pela ineficiência de cuidar da dor. Muitas vezes deixando de fazer esse trabalho de cuidado com o doente, a enfermidade se agrava”, analisou padre Paulo, que também pontou o desafio grande de falar de diálogo numa sociedade que traz essa marca da doença e da enfermidade junto com o cansaço e o desencanto.

Sociedade desigual e iníqua

No fundamento da sociedade desigual e iníqua está a crise global do sistema liberal. Segundo padre Paulo, citando o que o Papa Francisco destacou na encíclica Fratelli Tutti, a pandemia da covid-19 foi apenas um fenômeno catalizador do falimento do sistema.

“A pandemia não gera a crise econômica, ela explicita a falta de estrutura de políticas publicas para enfrentar essa pandemia. Ela mostrou isso, ela não tem equidade, é só olhar os gráficos: as pessoas sofreram muito mais onde o sistema era debilitado”, afirmou.

Para o presbítero, o Brasil, desigual e complexo, já chegou nesse momento com profundas questões sociais sem resposta, como os 54 milhões de pessoas entre desempregados, trabalhadores informais, subutilizados e desalentados já em 2019, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (IBGE/Pnad 2019), e a diferença de 33 vezes no rendimento médio mensal real do trabalho entre o 1% mais rico e 50% da população empregada (R$28.659,00 x R$850,00).

Sociedade polarizada e violenta

Há na sociedade brasileira um dualismo do bom e do mal, do fiel e do infiel, segundo padre Paulo, uma “colisão do inimigo e não do adversário”.

“O adversário, eu disputo com ele, eu articulo ideias, eu não concordo com sua versão. O inimigo, não. ‘O inimigo eu tenho que destruir, eu tenho que matar, eu tenho que eliminar’. Esta é a sociedade que nós vamos falar de diálogo. A lógica do ódio e não da disputa sadia, da pluralidade a partir de ideias”, contextualizou.

Outra faceta da sociedade polarizada e violenta é que também se apresenta “Religiosamente instrumentalizada”, a partir de uma lógica “apocalíptica” e fundamentalista da purificação. Diante dos considerados cruéis, ruins, que não estão perto de Deus, a atitude tem sido a busca pela eliminação, da não convivência. Padre Paulo ressalta que essa “violência ‘irracional’  é contra a própria vida, contra o ambiente, contra o outro.

“Uma violência barata, uma violência puramente porque o outro não é bom como eu; não tem a mesma cor de pele que eu tenho; porque não tem a mesma ideologia que eu tenho; não tem o mesmo sentimento que eu tenho. Então eu entro com o outro num atentado contra a própria vida, a própria existência”, explicou.

A polarização e a violência constituem uma situação delicada para poder reagir com a Campanha da Fraternidade, que é uma evangelização num aspecto contundente dentro da sociedade.

Voltando à Fratelli Tutti, no parágrafo 282, a reflexão do Papa Francisco: “A verdade é que a violência não encontra fundamento algum nas convicções religiosas fundamentais, mas nas suas deformações”.

Sociedade negacionista e alienada

Após a realidade das fake News, observa-se a autoverdade: o valor não está na verdade em si, nem na mentira em si, mas no que é dito, simplesmente no dizer. “É não ter preocupação nem de inventar uma mentira, é dizer algo que, por mais absurdo que seja, quando diz, fica valendo, fica registrado e não se tem nenhum respaldo para dizer aquilo. É a autoverdade. O pior, com todo o respeito, quando isso vem de autoridades, quando isso surge de quem deveria cuidar, ter atenção, prezar por esta verdade”, explicou padre Paulo.

Na sociedade negacionista e alienada, há a desconsideração com a ciência e, segundo contextualizou padre Paulo, o ano de 2021 será um ano em que nós vamos precisar ouvir muito as ciências da saúde, econômicas, as ciências sociais. “Não podemos viver de um mundo obscurantista, não podemos agir como se vivêssemos fora desse campo da ciência”, ressaltou.

Boa-nova da CFE 2021

O diálogo é a boa notícia que a CFE 2021 tem a apresentar. “Nós estamos propondo que a sociedade dialogue. Mais do que uma campanha sobre o ecumenismo, que é importantíssimo, essa é uma campanha ecumênica que traz o testemunho da fraternidade”, pontou padre Paulo Renato.

“Somente a lógica da fraternidade vai fazer com que a gente rompa essa lógica apocalíptica de destruição daquilo que é inimigo de Deus, como se nós estivéssemos do lado que é perfeito”, disse o padre convidando para o aprofundamento dessa compreensão no texto-base da CFE 2021.

Padre Paulo Renato Campos

Pacto pela Vida e pelo Brasil

Diante dessa grave crise, é proposto o Pacto pela Vida e pelo Brasil, um exemplo da promoção do diálogo. “Algumas entidades e instituições da sociedade civil propuseram este amplo diálogo com autoridades, sociedade, um coro que seja o coro dos lúcidos, que valorize uma opção preferencial pelos pobres, para sanar essa crise mais profunda e esse ônus que os pobres pagam nesse momento, buscando políticas públicas na saúde, na economia, na transparência, na ciência, na dignidade, sempre através de um amplo diálogo para que tudo isso, diante dessa grave crise, gere um pacto pela vida e pelo Brasil”, partilhou padre Paulo.

“O diálogo é fundamento para que nós consigamos pactuar vida, pactuar unidade pelo Brasil nesse mundo que nós estamos vivendo. Sozinhos nós não chegamos a lugar nenhum e nos tornamos presas fáceis, tanto da doença que é a covid-19, quanto da enfermidade que são as consequências desse vírus na vida das pessoas”, reforçou.

A partilha do assessor político da CNBB terminou com a citação do antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin: “Tentamos nos cercar com o máximo de certezas, mas viver é navegar em um mar de incertezas, através de ilhotas e arquipélagos de certezas nos quais nos reabastecemos”.

“A CFE 2021 é chamada a ser essa ilhota ou esse arquipélago de certeza no qual as pessoas, navegando em mares incertos, encontram abrigo para se reabastecer. O diálogo é uma característica desse reabastecimento nesse mundo polarizado, tão distante dessa realidade, um mundo doente, enfermo, desigual e iníquo, polarizado e violento, negacionista e alienado”.

Confira os slides sobre o contexto e outros materiais da CFE 2021


Fonte: Noticias da CNBB

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