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Espiritualidade do Advento (3)

Dom Antonio de Assis Ribeiro
Bispo Auxiliar de Belém do Pará (PA)

 

 

ESPIRITUALIDADE DO ADVENTO: Chamados a ser ministros da Esperança

 

Introdução

O tema da esperança é provocante e profundo. Por isso vamos estender um pouco mais esta nossa reflexão. Num mundo profundamente marcado pela desilusão, incerteza, desânimo, crise, pessimismo e presentismo, os discípulos de Jesus Cristo são chamados a assimilar o dinamismo da esperança.

Isso não é possível sem a íntima experiência de Deus, que é o onipotente, o onisciente, o onipresente, a fonte do Amor. Por isso a esperança com “E” maiúsculo não é uma realidade que brota dos recursos humanos. É dom de Deus! Nessa perspectiva a esperança é atração por Deus que nos dinamiza na busca da vivência do Amor com todas as suas consequências.

Sendo dom de Deus, então a esperança não está sozinha, é filha da Fé e se expressa a através do amor. Quem ama espera, diz a Palavra de Deus. Logo o dinamismo da esperança se traduz na prática do amor.

Sendo uma virtude teologal, ou seja, que brota do dinamismo de Deus, a esperança só pode ser alimentada essencialmente através da oração. O objeto da esperança é a Salvação eterna que significa o nosso pleno encontro com o próprio Deus. Por isso, a esperança dá sentido para tudo aquilo que é pesaroso neste mundo, o sofrimento, a doença, a frustração, os prejuízos, a morte!

O dinamismo da esperança

Há uma profunda relação entre a esperança, o sentido da vida e o enfrentamento dos problemas pessoais e sociais. Quem tem esperança nunca se desespera! Isso significa que a esperança não é sinônimo de previsão e nem de cálculo.

São Paulo escrevendo aos Romanos afirma que Abraão creu “esperando contra toda esperança” (Rm 4,18). Isso significa que ele não se baseou nos recursos e possibilidades humanas, mas confiou na promessa de Deus. Esperamos verdadeiramente contra toda esperança quando admitimos que além dos recursos humanos, está Deus o onipotente, para quem “nada é impossível” (Lc 1,37).

Dessa forma a esperança liberta a razão, muitas vezes aprisionada aos recursos humanos e das ciências. É por isso que os milagres nos geram espanto, confirmando a existência de Alguém superior e que tudo rege. É bem verdade que nem sempre isso acontece porque Deus é mistério de gratuidade.

No seu dinamismo positivamente impactante, a esperança nos cura do pessimismo e derrotismo, restabelece a serenidade da alma, traz ânimo para a luta, sereniza as emoções, nos compromete na qualidade de vida moral (sede de bem), nos fortalece na experiência da resiliência nos proporcionando a manutenção da nossa integridade.

A escola da esperança

Essa expressão “escola da esperança” é do papa Bento XVI, presente na Encíclica “Spes Salve” (N. 32). A esperança é dom, mas precisa ser alimentada através da oração. A esperança é relação com Deus. Aquele ao qual nós esperamos é Deus e o diálogo com ele é a oração. Por isso a oração é a “escola da esperança”; significa que quem ora, por Deus é educado, confortado, direcionado, transformado, fortalecido e projetado.

A oração como “escola da esperança” nos fala da força propositiva, preventiva e performativa da oração (ou seja, que nos dá forma). Entre um desesperançado e um motivado pela esperança há um abismo de diferença em suas atitudes, gestos, palavras, iniciativas, modo de pensar e sentir a vida. É que a “esperança da glória” (Cl 1,27), da vitória e superação, tudo dinamiza naquele que tem fé. O advento é tempo para estarmos matriculados na “escola da esperança”.

Alimentada pela oração, a esperança, enquanto escola nos capacita para o enfrentamento dos males e tempestades da Vida, nos alerta para os desafios, nos dá parâmetros para a interpretação dos sinais dos tempos e critérios para sabermos discernir com sabedoria e segurança aquilo que “é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso, ou que de algum modo mereça louvor” (Fl 4,6).

Assim como as escolas tem a missão de contribuir para o desenvolvimento humano, quem está matriculado na “escola da esperança” está comprometido com o desenvolvimento da vida espiritual, crescendo na paixão pelo bem, exercitando-se na prática de boas obras, perseverando no caminho da santidade.

O Catecismo da Igreja Católica apresentando a virtude da Esperança diz que ela é a “âncora da alma”, “arma que nos protege no combate da salvação”, que nos traz alegria mesmo na provação e se exprime e se alimenta na oração, especialmente no Pai-Nosso resumo de tudo o que a esperança nos faz desejar (cf. CIC, 1820-1821).

Um mundo sem esperança

Os mais graves sinais de morte que encontramos na sociedade contemporânea são evidências da perda da esperança. O desejo de morte tem uma profunda relação com o esvaziamento da visão de futuro. No livro “Em Busca de Sentido. Um psicólogo no Campo de Concentração”, o médico Viktor E. Frankl constatou que todos os prisioneiros que deixavam de lutar e definhavam até à morte era porque tinham perdido a esperança. Com a perda da esperança vinha o vazio existencial, a falta de sentido, a carência de perspectiva de futuro, a depressão, o isolamento e a morte precoce.

O mundo sem esperança jaz na necrofilia e na paralisia. A esperança é messiânica, prometeica, futurista, projetual, inquieta! É por isso que quem tem esperança sempre luta!  O mundo sem esperança fica sem religião, e o ateísmo é dramático porque nega a fonte de todo autêntico dinamismo que é o amor divino.

O mundo sem esperança nega a vocação da própria humanidade que é a vida eterna. E com isso se rejeita também a beleza do anúncio, da promessa, da profecia; o mundo sem esperança fica sem força para justificar os compromissos éticos, o dever do discernimento, a paixão pela verdade, o pacto com a justiça etc.

Chamados a ser ministros da esperança

Numa sociedade tentada pelas ameaças da cultura de morte, nós enquanto discípulos de Jesus Cristo, o Senhor da Vida, somos chamados a ser “ministros da esperança para os outros” (cf. Bento XVI. Spes Salve, N.34). Trata-se do serviço de animar pessoas!

Nesse desafio o profeta Isaías nos estimula na promoção do ministério da esperança no mundo do cansaço, do desencanto, da melancolia, do desânimo. Ele nos diz: “Alegre-se a terra que era deserta e intransitável, exulte a solidão e floresça como um lírio. Germine e exulte de alegria e louvores… Fortalecei as mãos enfraquecidas e firmai os joelhos debilitados. Dizei às pessoas deprimidas: “Criai ânimo, não tenhais medo!” (Is 35,1-24).

PARA REFLEXÃO PESSOAL:

  1. O que significa a expressão “escola da esperança”?
  2. Como se manifesta em nossos dias a cultura de morte?
  3. Como podemos ser “ministros da esperança”?


Fonte: Noticias da CNBB

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