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Admirável graça

Dom Adelar Baruffi
Bispo de Cruz Alta

 

            A admiração está na origem dos principais momentos de nossa vida. Até a Filosofia tem nela sua origem, segundo Aristóteles. Admiração é um sentimento de assombro, surpresa, espanto ou afeto diante de algo. Uma imensa admiração é a síntese do sentido do Natal. Nele, no Natal, torna-se visível e palpável o sentido de nossa vida. O Filho de Deus veio a nós, nasceu da Virgem Maria, se fez conhecer, sobretudo, porque nos mostra, de maneira gratuita, o amor de Deus e o sentido de nossa vida. Então, o sentimento do Natal é a admiração diante dele, que tenha vindo até nós!

            Nossa admiração é porque Ele, o Deus vivo, veio até nós. Viveu como nós. Compartilhou nossa humildade. Experimentou o que temos de melhor e, como humano, ficou dependente de nossa acolhida, nossa liberdade. Também experimentou o amor como um grande princípio que anima todas as realidades. Fez-se pequeno e humilde, o que nos faz termos maior admiração. Ele nos ama infinitamente, nos ama sempre. Mostrou-nos, em todas as circunstâncias, que o caminho cristão é o amor, unicamente. Viveu “amando até o fim” (Jo 13,1), até a morte na cruz. Foi ressuscitado pelo Pai, indo ao encontro dos seus discípulos que o haviam abandonado. Como não se admirar com esta graça?

            Mas, a humanidade de nosso tempo ainda espera um Messias, um Salvador? Pergunta intrigante. “Tem-se a impressão de que muitos consideram Deus fora dos seus interesses. Aparentemente não precisam d´Ele; vivem como se Ele não existisse e, ainda pior, como se fosse um ‘obstáculo’ a superar para se realizarem a si mesmos” (Bento XVI, 20/12/2006). São Paulo, na Carta aos Filipenses, afirma “que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus. No entanto, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo e tornando-se igual aos homens” (Fl 2,6-7). Na forma humana manifestou-se, para assim estar próximo de todos e manifestar a todos a misericórdia. Com certeza, o olhar da bondade de Deus no seu Filho leva-nos, às vezes com uma inquietude interior, a estender nosso olhar a todas as realidades de sofrimento humano. E são tantas que existem. Tantos sofrimentos e tantos pecados.

            O principal sentimento da admiração que nos vem no Natal é o amor. Não por nada é que São João ao resumir quem é Deus o classifica como aquele que manifesta-se como amor, no sentido do verbo, da ação de amar. “No Natal ressoa ao mundo inteiro o anúncio simples e perturbador: ‘Deus ama-nos’” (Bento XVI, 03/01/2007). Este amor, acolhido, move-nos para dentro de nós mesmos e para fora, para as pessoas, para o mundo. Como disse Simeão, ele será “sinal de contradição para que sejam revelados os pensamentos de muitos corações” (cf. Lc 2,32). Por isso, como disse São João da Cruz, “Deus, ao dar-nos tudo, isto é, o seu Filho, n´Ele disse tudo” (Subida ao monte Carmelo, Ep. 22,4-5).

            Enfim, retomando a expressão de São João, “o Verbo fez-se carne” (Jo 1,14). Qual seria o grande motivo de que Deus, na sua infinita grandeza tenha vindo até nós, no mistério da Encarnação? O Filho de Deus assumiu a natureza humana, para nela levar a efeito a nossa salvação. O Catecismo da Igreja Católica nos responde: “O Verbo fez-Se carne para nos salvar, reconciliando-nos com Deus” (n.457). “O Verbo fez-Se carne, para que assim conhecêssemos o amor de Deus” (n.458). “O Verbo fez-Se carne, para ser o nosso modelo de santidade” (n.459). “O Verbo fez-Se carne, para nos tornar «participantes da natureza divina» (2Pd 1,4)” (n. 460). A liturgia deste tempo resume: vivemos uma expectativa vigilante.

 


Fonte: Noticias da CNBB

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