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Santa Gertrudes de Helfta ontem e hoje

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

 

         Dia 16 de novembro, celebramos Santa Gertrudes de Helfta (1256-1301/2) ou Santa Gertrudes, “a Grande”, como a intitulou o Papa Bento XVI, em sua Catequese de 06/10/2010. Eis porque – num tempo em que três grandes Ordens religiosas, a Beneditina, a Cisterciense e a Trapista, pleiteiam a ela o título de “Doutora da Igreja” – desejo tratar de alguns aspectos da sua vida, talvez desconhecidos do grande público.

         De início, faz-se oportuno aclarar um mal-entendido sobre o mosteiro de Helfta: era beneditino ou cisterciense? – Deixemos claro, antes do mais, que Helfta não é o sobrenome da nossa grande santa, mas, sim, o nome do mosteiro no qual ela viveu na Alemanha do século XIII. Essa comunidade – muito perseguida, mas que, ao mesmo tempo, deu à Igreja grandes místicas como Gertrudes e as duas Matildes: a de Hackeborn e a de Magdeburgo – era uma fundação de 1229, época em que Bucardo, conde de Mansfeld, e sua esposa reuniram próximo ao seu castelo um grupo de monjas vindas do mosteiro de Halberstadt. “Juridicamente Helfta era uma casa autônoma, sob a jurisdição do bispo diocesano de Halberstadt. As religiosas consideravam-se simultaneamente beneditinas e cistercienses: no início do século a vida monástica havia recobrado um novo entusiasmo graças ao impulso cisterciense” (Vida e exercícios espirituais. 2ª ed. Juiz de Fora: Subiaco, 2013, p. 13).

Já a Ir. Ana Laura Forastieri, OCSO, estudiosa de Santa Gertrudes, assegura: “O mosteiro beneditino de Helfta no século XIII aderiu à observância cisterciense sem, contudo, pertencer juridicamente à Ordem de Cister. No fim do século XIX e início do século XX, beneditinos e cistercienses disputaram a pertença de Santa Gertrudes às suas respectivas Ordens. Uma disputa anacrônica porque aplicava ao século XIII um conceito moderno de ‘Ordem’: na Idade Média a expressão ‘Ordem de São Bento’ não se entendia em um sentido excludente ou oposto à ‘Ordem Cisterciense’, mas, ao contrário, abrangia todas as casas que seguiam a Regra de São Bento” (Santa Gertrudis: Doctora de la Iglesia? Cistercium, 258 (2012) 36, apud Mensagem da Divina Misericórdia, 2012, p. 13). Isso é o que, bem antes, também afirmava Dom Veremundo A. Tóth, OSB, ao constatar que “as monjas de Helfta no séc. XIII se consideravam cistercienses, ainda que o convento não pertencesse à jurisdição da Ordem, pois estava submetido ao Bispo de Halberstadt e em termos gerais (no seu dia a dia) procuravam se ajustar à liturgia da diocese” (Por sinais ao invisível: o simbolismo de Santa Mectildes e Santa Gertrudes. Juiz de Fora: Subiaco, 2003, p. 47). Eis como, por esses importantes testemunhos, se resolve a questão sobre o afamado mosteiro de Helfta: era uma fundação diocesana alicerçada na tradição beneditina, mas que, com o tempo, abraçou a espiritualidade cisterciense sem pertencer, ao menos naquele momento, no plano canônico, à Ordem de Cister.

         Para tentar resumir, ainda que não sem dificuldades, a essência da vida monástica da nossa Ordem Cisterciense, recorramos a Dom Luís Alberto Ruas Santos, O. Cist., ao dizer que “o ritmo do mosteiro cisterciense está organizado em função do encontro pessoal do monge com Deus. O silêncio exterior é apenas uma face tangível de uma realidade oposta: a intensidade e a riqueza do diálogo interior com Deus. Alimentados pela palavra de Deus ouvida na liturgia ou ruminada na lectio privada, os cistercienses cultivavam ao longo do dia a memoria Dei ou lembrança de Deus. São Bento pede ao monge que fuja ao esquecimento de Deus, o que, positivamente, implica em ter Deus sempre presente ao pensamento, porém de forma pessoal, não apenas como uma ideia ou abstração. O desejo de estar unido a Deus em todo o tempo é precisamente a vida da caridade. Ora, é impossível abrir-se para Deus sem abrir-se ao mesmo tempo para os irmãos e aqui achamos a dimensão da caridade fraterna dos mosteiros cistercienses” (Os cistercienses: uma espiritualidade abrangente e criativa. Itatinga: Abadia de Nossa Senhora da Assunção de Hardehausen-Itatinga, 1998, p. 16-17).

         Santa Gertrudes é, nesse contexto cisterciense, uma das grandes místicas da Igreja, inclusive com fenômenos extraordinários ou graças especiais. Sim, o Catecismo da Igreja Católica ensina que “o progresso espiritual tende à união sempre mais íntima com Cristo. Esta união recebe o nome de ‘mística’, pois ela participa no mistério de Cristo pelos sacramentos – ‘os santos mistérios’ – e, nele, no mistério da Santíssima Trindade. Deus nos chama a todos a essa íntima união com Ele, mesmo que graças especiais ou sinais extraordinários desta vida mística sejam concedidos apenas a alguns, em vista de manifestar o dom gratuito a todos” (n. 2014). Vejamos, a seguiu, o matrimônio espiritual ou a íntima união de Cristo (o Esposo) à alma humana (a esposa) a Ele entregue sem reservas.

         Certa vez, Nosso Senhor, apresentando a Gertrudes uma joia como um trevo de três folhas sobre seu peito sagrado, disse-lhe: “Eu usarei sempre esta joia em honra de minha esposa [Gertrudes] e, nessas três folhas, será mostrado claramente a toda a corte celeste: na primeira, que ela está verdadeiramente proxima mea; com efeito, nenhum mortal está mais chegado a Mim que esta esposa dileta; na segunda, que não há sobre a terra criatura alguma pela qual Me incline com tanto deleite; enfim, pelo brilho da terceira, será mostrado que ninguém no mundo a iguala em fidelidade porque, depois de desfrutar de meus dons, sempre com eles Me louva e glorifica” (Mensagem do amor de Deus. Livro I. São Paulo: Artpress, 2003, p. 20). A santa sempre correspondia ao grande amor do divino Esposo, como, por exemplo, nesta passagem: “Esposo cheio de encantos, honra e glória dos anjos, Vós vos dignastes escolher-me por esposa, a mim, a última de todas as criaturas. Minha alma e meu coração somente têm sede de vossa honra e de vossa glória e eu considero como meus próximos os vossos mais caros amigos. Peço-Vos, pois, amantíssimo Senhor, que nesta hora, para honrar vossa alegre ressurreição, vos digneis absolver as almas de todos aqueles que vos são particularmente caros. Para obter essa graça, ofereço-vos em união com vossa inocentíssima Paixão, tudo quanto meu coração e meu corpo sofreram em suas contínuas enfermidades” (Mensagens do amor de Deus. Livro IV. São Paulo: Artpress, 2016, p. 150-151). E o Senhor a atendeu.

         Ante seu santo anseio de passar desta vida às núpcias eternas, Jesus, o celeste Esposo, lhe perguntou: “Qual verdadeira esposa poderá ter tão grande desejo de chegar a um lugar em que sabe que seu esposo não acrescentará mais nada a seus adornos e onde ela não poderá oferecer presentes a seu bem-amado? […] Com efeito, após a morte, a alma não cresce em merecimento e não trabalha mais para Deus” (Mensagens do amor de Deus. Livro V. São Paulo: Artpress, 2019, p. 125). Em outra ocasião, nossa santa, ainda a propósito da morte – passagem para a verdadeira vida –, indaga: “E quando vos dignareis, ó Deus fidelíssimo, conduzir-me da prisão do exílio ao repouso da beatitude? O Senhor respondeu: – Que esposa real se apressou para ouvir as aclamações e os votos de boa vinda do povo e, por isso, queixou-se de uma demora porque seu esposo a encantava com as carícias e os beijos de seu amor? – Senhor, disse ela, que delícias encontrais em mim, refugo de toda criatura, para compará-las com demonstrações de afeto recíproco do esposo e da esposa? – O Senhor respondeu: Encontro essas delícias, dando-me a ti pelo sacramento do altar, nessa união que não existirá mais depois desta vida. Para mim, ela tem encantos infinitos, do que as demonstrações do amor humano não podem dar a menor ideia. As afeições terrenas passam com os tempos. Mas a doçura dessa união pela qual Eu me dou a ti no sacramento do altar não pode se debilitar. Ao contrário, quanto mais ela se renova, mais aumenta seu vigor e eficácia” (Idem, p. 142).

         Dessa íntima união com o divino Esposo, Gertrudes vivenciou ainda – entre outros vários fenômenos – a transverberação e a “troca de corações”. Sobre a transverberação (impressão interna das chagas de Cristo), lemos que nossa mística assim rezava: “Ó misericordioso Senhor! Gravai em meu coração vossas chagas divinas por meio do vosso precioso sangue, para que eu veja nele, ao mesmo tempo, vossas dores e vosso amor” (Revelações de Santa Gertrudes. Livro II. São Paulo: Artpress, 2011, p. 20). Seu pedido foi atendido como ela mesma relata: “Foi-me dado conhecer espiritualmente que acabáveis de imprimir os estigmas adoráveis de vossas santíssimas chagas em alguns lugares do meu coração. (…) Acabaste por dar à minha alma o que Vos pedia aquela oração, isto é, a graça de conhecer vossas dores e vosso amor, em vossos preciosos estigmas” (Idem, p. 21-23). Quanto à troca de corações (mística, mas não física), Gertrudes declara: “Além desses favores, me admitistes ainda à incomparável familiaridade de vossa ternura, oferecendo-me a arca nobilíssima de vossa divindade, quer dizer, vosso Coração Sagrado, para que nele me deleite. Vós o destes a mim gratuitamente ou o trocastes pelo meu, como prova ainda mais evidente de vossa terna intimidade. Por esse Coração divino conheci vossos secretos juízos. Por ele me destes tão numerosos e doces testemunhos de vosso amor, que se não conhecesse vossa inefável condescendência, eu ficaria surpreendida ao ver-vos prodigalizá-los até mesmo à vossa amada Mãe, se bem que Ela seja a mais excelente criatura e reine convosco no Céu” (Ibidem, p. 83). Cada um desses fenômenos bem demostram a beleza – interior e exterior – da íntima união com Deus à qual todos somos chamados. Afinal, o convite à santidade não exclui ninguém (cf. Mt 5,48).

         Percorrido, ainda que brevemente, esses grandes acontecimentos místicos da vida de nossa grande santa, não posso deixar de convidar a cada irmão ou irmã que leu até aqui a conhecer melhor a vida dessa esposa de Cristo – a “única mulher da Alemanha que recebeu o apelativo ‘Grande’, pela estatura cultural e evangélica: com a sua vida e pensamento, ela incidiu de modo singular sobre a espiritualidade cristã” (Bento XVI. Catequese de 06/10/2010) – por meio de suas obras que, com a graça de Deus, estão publicadas, na íntegra, no Brasil. Há Mensagem do amor de Deus, em cinco pequenos volumes (São Paulo: Artpress), e Santa Gertrudes de Helfta: vida e exercícios espirituais (Juiz de Fora: Subiaco). A título de oportuna introdução, foi lançado recentemente Recorramos a Santa Gertrudes de Helfta (Cultor de Livros) que, a seu modo, resume a vida de nossa santa e traz explicações teológicas bem fundamentadas, mas em linguagem popular, sobre alguns pontos específicos: em particular, no que diz respeito à mística, à devoção ao Sagrado Coração de Jesus e à Divina Misericórdia.

         Finalizando, faço votos de que Santa Gertrudes volte a ser melhor conhecida e divulgada em todo o mundo, mas, em especial, nas Américas Central e do Sul como foi no século XVI. Também desejo muito vivamente que a causa visando declará-la Doutora da Igreja, ao lado de outras grandes mulheres, tenha êxito, se assim for da vontade de Deus por meio do sábio e prudente juízo da Mãe Igreja.

         Santa Gertrudes de Helfta, grande discípula do Coração de Jesus e Apóstola da Divina Misericórdia, rogai por nós!

 

 


Fonte: Noticias da CNBB

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