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Dom Eugênio de Araújo Cardeal Sales

Dom João Bosco Óliver de Faria
Arcebispo Emérito de Diamantina

Dom Eugênio de Araújo Sales sempre significou, para mim, a personificação do “Amor à Igreja” e, consequentemente, de um profundo respeito e amor ao Papa, como Vigário de Jesus Cristo na terra, fosse quem fosse o Papa.

Disse-me uma vez: “Leio todos os escritos do Papa, seus documentos e discursos e acompanho fielmente seus ensinamentos”.

Veja-se, nesta mesma direção, os “Cursos de atualização teológica para Bispos”, que promovia no início do mês de fevereiro de cada ano, convidando conferencistas alinhados com os ensinamentos pontifícios. Cito, entre esses mestres, personalidades, como Cardeal Joseph Ratzinger, Cardeal  Bernardin Gantin, Cardeal Dario Castrillion Dom Elio Sgreccia, mais tarde Cardeal.

Promovia outros cursos abertos a sacerdotes e a leigos, como o que aconteceu para o estudo do Novo Código de Direito Canônico,  para o estudo da Encíclica “Laborem Exercens”, quando convidou como conferencista principal o sociólogo e cientista político italiano Rocco Butiglione, logo após suas respectivas publicações.

Penso que Dom Eugênio capitalizou um grande respeito para com sua pessoa, quer dentro dos ambientes eclesiais, quer fora deles. Durante o tempo da Revolução de 1964, nenhum sacerdote da Arquidiocese do Rio de Janeiro ficou preso. E, quando um foi preso, ao sabê-lo, Dom Eugênio foi ao Quartel, pessoalmente, buscá-lo.

Em seus últimos anos à frente da Arquidiocese, promoveu, em cujo ano não me recordo, Hora Santa de adoração ao Santíssimo Sacramento pela santificação do Clero, na festa do Sagrado Coração de Jesus. Agendou seu horário de adoração para as 23h. Ao descer do Sumaré, foi interceptado por um grupo armado. Não reconheceram seu carro. Vidro abaixado, viram que era Dom Eugênio; abaixaram os fuzis e disseram sorrindo: “Somo Nói, somo nói”! Dom Eugênio sorria ao lembrar o episódio.

Numa de minhas visitas, mandou seu carro buscar-me no aeroporto. Ao subirmos para o Sumaré, havia um grupo armado. Ao verem o carro de Dom Eugênio, abaixaram os fuzis. Disse-me o seu secretário: “abaixe a cabeça e não olhe para eles.”

Dom Eugênio e Dom Helder eram amigos de se tratarem por apelidos carinhosos. Walter Billman, em seu livro publicado em 1974, “La Terza Chiesa alle Porte”, ao falar do protagonismo da Igreja na América Latina, descreveu: “graças a Dom Helder, Dom Eugênio pôde fazer um belo trabalho no Rio de Janeiro e, graças a Dom Eugênio, Dom Helder nunca foi preso”.

Era, sempre, muito discreto. Falava pouco e com grande sabedoria. Tinha sempre uma postura de equilíbrio em questões polêmicas com um grande respeito por quem tivesse um pensamento divergente do seu. Soube fazer-se presente nos momentos difíceis da Nação, sem chamar atenção sobre si mesmo. Era um farol seguro em mar borrascoso. Considero-o um dos grandes vultos da história recente da Igreja no Brasil.

Podemos cantar, hoje: “Euge serve bone et fidelis, intra in gaudium Domini tui” (Mt 25,21).

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Fonte: Noticias da CNBB

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