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Convite para nos preparar para o pós-pandemia

Dom João Carlos Petrini
Bispo da Diocese de Camaçari (BA)

As forças que podem mudar o mundo são as mesmas que podem mudar a pessoa

É comum ouvir que o mundo não será mais como era antes do corona vírus. Certamente, foram acumuladas experiências que deixam marcas profundas. Mas não está garantido que essa mudança será positiva, criando para nós um mundo melhor. Afinal, o pecado original continua.

Estamos caminhando para uma convivência mais humana, de maior respeito entre as pessoas? Viveremos um tempo em que as pessoas estarão menos aceleradas para correr atrás de seus objetivos e de suas fantasias buscando alguma vantagem ou satisfação, mesmo atropelando quem por acaso ficasse pelo caminho? Ou está por vir um tempo de maior cinismo e de acentuação dos interesses individuais já que “a farinha” é pouca?

A realidade humana e social não se constrói mecanicamente. As circunstâncias produzidas pelo corona vírus não podem definir como será nossa maneira de viver e de conviver depois dessa pandemia sem a participação de cada pessoa que avalia, discerne, decide, toma atitudes, de acordo com a recomendação de Paulo em 1Tes 5, 21: “Discerni tudo, ficai com o que é bom”. É necessário avaliar o que deve ser preservado deste tempo marcado pelo isolamento social e o que deve ser mudado ou substituído.

Passamos muito tempo em silêncio, sem ver pessoas, sem manifestações de afeto e carinho com amigos e familiares. Às vezes, a solidão pareceu excessivamente amarga. O medo de ser contagiado e de morrer solitariamente tirou o sono de muitos. Todos perderam recursos: mercados e lojas fechadas, horários de trabalho e salários reduzidos. Sobrou mais tempo para conviver: inicialmente uma alegria mas, muitas vezes, uma decepção com motivos para conflitos.

Nenhuma dessas situações, por si só, irá mudar comportamentos e criar novas atitudes para viver melhor depois da pandemia. Este é o tempo de usar o coração (a inteligência, mais a afetividade, mais a vontade) para avaliar, para discernir o que vislumbramos de positivo e o que reconhecemos como negativo no tempo da pandemia e deve entrar em jogo a liberdade de cada um para escolher, decidir.  A liberdade é movida pela atração, pela visualização de um bem que desperta a curiosidade, que nos atrai, que pode tornar-se bem para nós.

Indico três aspectos da nossa humanidade que estavam um pouco perdidos antes da pandemia e que podem ser resgatados depois que o vírus deixar de ser tão ameaçador.

Durante o isolamento social continuamos e até intensificamos as conexões virtuais. Mas sentimos falta de outras conexões que as circunstâncias nos ajudaram a pensar como relevantes e decisivas e, quem sabe, pouco cultivadas.

A conexão presencial com os familiares pode ser menos apressada, cultivadas melhor, reservando horários para elas, decidindo nunca mais passar pelas pessoas como se fossem sacos de batatas. Vamos recuperar e valorizar:

A conexão com Deus Pai. Ele tomou a iniciativa de trazer-nos a este mundo e ainda nos quer por aqui com um plano para cada um que desejamos conhecer. Através desta conexão originária, podemos recuperar a conexão mais profunda com pai e com mãe, que foram os instrumentos deste Amor maior que nos quis e nos quer, e com outros familiares, mesmo quando não são tão maravilhosos como gostaríamos.

A conexão com aquelas duas ou três pessoas que foram e continuam sendo decisivas para descortinar horizontes que sequer imaginávamos, para crescer na capacidade de pensar, discernir, avaliar, decidir. A conexão com o nosso destino, com a meta última de nossa caminhada terrena. Muitas vezes, durante a pandemia pensamos na possibilidade de morrer. Que vida quero levar até o momento de morrer, para que a existência tenha sentido e valor? Que vida terei depois desse momento? Haverá uma tarefa especial, a mim reservada e que realiza o desígnio do Pai Criador para mim? Se é assim, preciso repensar como crescer para dar conta dela, como reorganizar o uso do tempo, a ordem das escolhas pessoais.

A conexão com Jesus e com o seu Evangelho, portanto a conexão com a Igreja, não apenas o Papa e os Bispos, mas com a comunidade, a Missa dominical, os sacramentos, bem como a conexão com figuras gloriosas dessa história que nos inspiram: com São Bento, com São Francisco, com Santa Dulce, com Santa Terezinha, mas também com Churchill, com Einstein…  Essas conexões alimentam, sustentam, orientam, fortalecem cada passo. Pensávamos de ser super conectados com tecnologias atualizadas, mas as conexões mais decisivas presenciais correm perigo de ficarem para trás.

Recuperar uma dimensão de vida interior, como capacidade de pensar e avaliar e de tomar atitudes. A vida interior ajuda a identificar os traços constitutivos do próprio “Eu” e conviver bem consigo mesmo. São Bento dizia que um homem de Deus gosta habitare secum (de morar consigo mesmo), sem se escandalizar com seus limites e contradições, porque cultiva a esperança de poder crescer, superando alguns e aprendendo a conviver com outros, contando com a Misericórdia e com a potência divina que vence o mal e a morte, admirando a obra que Deus está realizando. “Eu vos peço: não deixeis inacabada esta obra que fizeram vossas mãos! Ó senhor, vossa bondade é para sempre! completai em mim a obra começada!” (Sl 137, 8).

Quando dizemos “Eu”, falamos de um Amor que nos constitui, de um Desígnio que nos guia, de uma Misericórdia que nos acolhe, de um Batismo que nos resgata. É importante aprender a dizer o nosso nome como nossa mãe o pronunciava quando éramos bebês, sempre com uma ponta de ternura ou, melhor ainda, como Jesus, olhando para nós do alto da cruz. Este olhar de compaixão cheia de esperança para conosco nasce da certeza de que somos feitos por um Outro que nos quer e nos ama. Quanto mais capacitados para dizer “Eu” com simpatia e estima, mais seremos capazes de dizer “Tu” com uma simpatia e uma estima semelhantes, conscientes que uma mesma origem e um mesmo destino definem a nossa humanidade.

A vida interior é necessária para que cada um possa elaborar, em etapas, seu projeto de vida, enquanto busca realizar o Desígnio maior. E é indispensável também para estabelecer relações de amizade, cooperação, solidariedade, serviço, amor, construindo comunhão fraterna. É importante distinguir os fatos e os acontecimentos das opiniões e emoções, das fantasias, tanto na vida pessoal como no contexto social. Vale a pena comparar os fatos com os desejos mais profundos (de viver com significado e com beleza, de que nossa existência tenha utilidade, de amar e de ser amado, de que possamos realizar nossas potencialidades). Isto exige momentos de silêncio.

Redefinir as relações. As pessoas vivem muitas relações e interagem com muitos ambientes, participam de uma densa rede de comunicações. As relações são produzidas, consumidas, modificadas e postas de lado num incessante movimento de construção e desconstrução, que faz pensar à espuma produzida pelas ondas quando quebram na praia. Muitas relações aparecem fluidas ou líquidas, ou flutuantes. Elas geram personalidades que se assemelham a uma massa gelatinosa, ambiente ideal para o poder agir a seu bel prazer.

É necessário discernir as relações que têm essas características e dar menos atenção daquelas que são consistentes e comunicam consistência à nossa pessoa, que vale a pena valorizar, preferir.  Algumas nos constituem biologicamente. Outras nos constituem como personalidades fortes, através delas adquirimos recursos intelectuais, psicológicos, espirituais, que nos proporcionam uma existência que não é fluida e nem líquida. Algumas delas duram para sempre, para além da nossa existência terrena, como ser mãe, ou pai, ou filho. Outras marcam decisivamente a nossa personalidade e o nosso modo de estar neste mundo. Essas relações dão fortaleza à nossa pessoa, que se torna tanto mais consistente quanto mais afunda suas raízes na Rocha sobre a qual a nossa construção pode crescer com solidez.  “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeit.” (Rm 12, 2).

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Fonte: Noticias da CNBB

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