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Uma reflexão sobre a Doutrina Social da Igreja

Dom Romualdo Matias Kujawski
Bispo de Porto Nacional

 

Irmãos e Irmãs,

A Igreja Católica, denominada “Corpo Místico de Cristo” pelo Papa Pio XII, sempre nos orienta como viver o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os tempos passam, mas Jesus é o mesmo e nos convida a segui-lO. Essa Igreja, fundada por Ele, transmite este convite divino a todos, individualmente, às sociedades e às nações. Olhando para a história, pode-se  observar que todos os avanços e regressos das pessoas influenciam tanto nas sociedades  como em nossa Igreja.

Então, como nós, Igreja, Povo de Deus, Corpo Místico de Cristo, podemos enxergar nossa identidade eclesial e social nos dias de hoje?

Para responder essa questão, com certeza, a reflexão histórica nos ajudará a fazer esse caminho sobre a Doutrina Social da Igreja.

Vejamos: Os Papas, no passado, percebendo a pluralidade do mundo começaram a refletir sobre a conduta do cristão e da sociedade cristã no contexto dos desafios e clamores sociais das épocas. Notamos que, sendo assim, o grande influenciador da visão social do Papa Leão XIII, o Bispo alemão de Mainz, Dom Wilhelm Emmanuel Von Ketteler (1811-1877), em 1848, começou a usar a expressão: “ensinamento social da Igreja”. O Papa Leão XIII , chamou este Bispo de “seu grande predecessor”, na reflexão sobre os assuntos que formalmente iniciam a reflexão social da Igreja.

Façamos agora um breve resumo das principais encíclicas e outros documentos com temas sociais, que direcionam a vida da Igreja no campo da Doutrina Social:

  1. Papa Leão XIII, Encíclica “Rerum Novarum” (1891): O Papa lamenta, nesta Encíclica, a difícil situação dos trabalhadores. Enxerga os problemas da classe trabalhadora, mas também radicalmente rejeita a visão marxista-socialista e capitalista liberal da sociedade, colocando como contraponto a visão cristã. Falando sobre o salário justo, defende a propriedade privada, estabilidade do emprego, o descanso no domingo e destaca as obrigações sociais dos patrões e operários.
  2. Papa Pio XI, Encíclica “Quadragesimo Anno” (1931): Quarenta anos depois, o Papa Pio XI preocupa-se com as pessoas que vivem do seu trabalho, denunciando a injusta divisão dos frutos do trabalho. Pio XI opõe-se ao liberalismo e socialismo, porque estes sistemas dividem injustamente os frutos do trabalho. Ele conclui o seguinte: “é impossível que o bom católico seja, ao mesmo tempo, verdadeiro socialista”.
  3. Papa João XXIII, Encíclica “Mater et Magistra” (1961): Esta Encíclica reflete sobre as transformações sociais da época. No pensamento central, o Papa João XXIII fala sobre o humanismo cristão, que é universal. O Papa preocupa-se também com os países menos desenvolvidos economicamente e reflete sobre o bem comum na perspectiva global. Destaca, ainda, que o operário deveria participar ativamente em seu trabalho, como protagonista.
  4. Papa Paulo VI, Encíclica “Populorum Progressio” (1967): O assunto da paz e da justiça é destacado. O Papa Paulo VI apela ao direito do desenvolvimento dos países pobres. A palavra destaque nesta Encíclica é “desenvolvimento”! Isso significa a necessidade de uma maior participação das pessoas na educação, na vida social e política, e também na promoção dos próprios países menos favorecidos.
  5. Papa João Paulo II, “Laborem Exercens” (1981): O Papa João Paulo II coloca em evidência o valor do trabalho humano, tentando encontrar um “terceiro caminho”, entre o capitalismo e o comunismo. A respeito dos sistemas sociais em decadência, João Paulo II destaca a prioridade do trabalho, perante o capital. No contexto do movimento “Solidarnosc” na Polônia, a Encíclica confirma o direito de organização dos sindicatos, para assegurar os insubstituíveis e básicos direitos humanos.
  6. Papa João Paulo II, Encíclica “Solicitudo Rei Socialis” (1987): No vigésimo aniversário da “Populorum Progressio”, o Papa está apelando à solidariedade humana no contexto da limitação da liberdade, alimentada pelos sistemas políticos. É necessário superar as divergências entre Leste e Oeste, e também entre o Norte e Sul. Os países ricos do Norte deveriam ajudar efetivamente aos países em desenvolvimento.
  7. Papa João Paulo II, Encíclica “Centesimus Annus” (1991): No centenário da “Rerum Novarum”, dois anos após a queda do muro do Berlim e da queda do comunismo na Europa Oriental, o Papa polonês critica não somente o comunismo, mas também o capitalismo selvagem. Destaca, ainda, a saudável tarefa de qualquer iniciativa particular para o bom funcionamento da economia, incluindo a economia de mercado.
  8. Papa Bento XVI, Encíclica “Caritas in Veritate” (2009): Esta Encíclica foi publicada um ano após a crise mundial econômica e financeira. Bento XVI aborda as consequências da globalização e constata que o amor “caridade” é o instrumento mais importante para a justiça e para o bem comum, assim como para o desenvolvimento da pessoa e da humanidade.
  9. Papa Francisco, Encíclica “Laudato Si” (2015): Esta Encíclica é considerada como a “encíclica ecológica”, ou a “encíclica social verde”. Nela, o Papa Francisco aborda a “ecologia integral”, do ponto de vista dos mais pobres: “Não se pode refletir sobre a preservação do meio ambiente, omitindo a justiça social, sistema econômico global, os direitos humanos e o problema dos refugiados”, destaca o Papa.
  10. Papa Francisco, Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Querida Amazônia” (02.02.2020): Esta Exortação não foi chamada de Encíclica, por abraçar somente uma região do nosso Globo: região dos “pulmões do mundo” – a Amazônia. Os quatro sonhos do Papa apresentados na “Querida Amazônia” antecipam as preocupações expostas no documento posterior “Fratelli Tutti”. Um sonho social denuncia os crimes sociais, convidando para o diálogo e perdão. Um sonho cultural, incentiva a voltar às raízes e à proteção dos povos em risco, promovendo encontros interculturais, sempre muito respeitosos. Um sonho ecológico deveria levar a pessoa à contemplação de Deus, através da natureza. A destruição de nossa natureza ameaça este objetivo. Por fim, um sonho eclesial, que se pode verificar na enculturação social e espiritual. Neste contexto, reconhece-se a força e o dom das mulheres no projeto de evangelização na Amazônia, bem como o dialogo ecumênico. O Papa nos ensina: “Exorto todos a avançar por caminhos concretos que permitam transformar as realidades da Amazônia e libertá-las dos males, que a afligem” (nº 111)
  11. Papa Francisco, Encíclica “Fratelli Tutti” (03.10.2020): A mais nova Encíclica do Papa Francisco. Nela são abordados os problemas do mundo de hoje. É um grito do Papa em defesa dos pobres. Ele está apelando para que o mundo seja aberto e cheio do amor e que os cristãos devem se envolver neste processo. Não se podem minimizar os problemas das crianças, das pessoas idosas, das mulheres (incluindo os abortos forçados), dos migrantes, dos marginalizados, os problemas ecológicos e da COVID-19. Outro aspecto abordado foi a grande onda de “Fake News”, desinformação, ódio e manipulação, que também fazem parte deste cenário. Neste contexto citado pelo Papa, São Francisco está ultrapassando as barreiras e, junto com a parábola de Bom Samaritano, servem como exemplos à nossa humanização. Deve-se entender, salienta o Papa Francisco, que o amor na política não é de forma alguma uma ingenuidade. Pelo contrário, o amor na política nos tempos de hoje pode ser sumamente eficaz e pode transformar as pessoas e as sociedades na bela unidade: “Fratelli Tutti”.

Então, a pergunta “como nós, Igreja, Povo de Deus, Corpo Místico de Cristo, podemos enxergar nossa identidade eclesial e social nos dias de hoje?” continua em aberto. Percebemos que a realidade social muda muito rápido, e os desafios não faltam. Repete-se sempre a mesma dinâmica: a Igreja não foge do mundo, mas se encarna nas realidades terrestres procurando transformá-las naquelas universais divinas. Várias metodologias, neste esforço evangelizador, já foram adotadas. Surge, agora, uma nova luz: fala-se sobre o caminho sinodal! Que ele seja frutuoso para a verdadeira transformação das pessoas, sociedades, povos e nações, especialmente na realidade da nossa Amazônia.

Nesse contexto, somente não se pode esquecer que a pedra angular neste caminho é sempre Jesus Cristo, Filho de Deus e nós, somos a Igreja fundada no alicerce dos Apóstolos e de seus legítimos sucessores. Esta verdade nos identifica e nos realiza em cada circunstância da vida pessoal, eclesial e política.

Nossa Senhora das Mercês, rogai por nós!

Em Cristo Jesus,

 

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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