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Por que um Círio diferente?

Dom Antonio de Assis Ribeiro
Bispo Auxiliar de Belém do Pará

 

Introdução

O ano 2020 nunca será esquecido. Ficará registrado na história da humanidade como um ano marcado por um profundo sofrimento de proporção mundial, com milhões de mortes, impacto econômico, abalos políticos, crise sanitária, perplexidade científica…

Tais fenômenos causaram grande impacto na vida das pessoas, mudando por completo a forma de relacionamento interpessoal, a gestão das atividades do cotidiano, o direito de ir e vir, o trabalho e o lazer. Tudo foi alterado! A nova realidade exigiu a promulgação de novas leis e decretos para disciplinar a sociedade, orientar profissionais, exigir serviços, apresentar aos cidadãos novos parâmetros de comportamento.

A causa de toda essa transformação foi a pandemia da COVID-19. É dentro desse contexto de total mudança do dinamismo da vida da sociedade e da Igreja em que somos chamados a celebrar o 228º. Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Por tudo isso, não poderia ser um Círio como os outros com todas as suas manifestações afetivas, religiosas, culturais e lúdicas.

A decisão pela celebração de um Círio com uma programação diferente não dependeu da decisão de uma só pessoa, mas foi consequência de um processo de discernimento coletivo considerando as contingências impostas pela realidade. Se tudo teve que tomar uma nova forma, também com o Círio não poderia ser diferente. Vamos aprofundar essa questão.

Fé e razão

Há uma profunda relação entre fé e razão. A fé sem a razão é cega; e a razão sem a fé fica com seu horizonte muito limitado. A fé é um dom divino que não nos foi dado para negarmos perigos e nem os problemas da natureza, mas para darmos o justo sentido para a nossa vida de acordo com o contexto em que estamos inseridos.

A fé não é um telhado de proteção contra os males biofísicos! Aqueles que tem fé também podem ser contaminados, adoecem, sofrem e morrem. A fé está para a promoção da vida; é por isso que, muitas vezes, Jesus dizia, “vai em paz a tua fé te salvou”. Portanto, a fé nos exige que tenhamos o devido cuidado para com a saúde física, mental e moral. Trata-se de duas realidades de natureza completamente diferentes. Recordamos o que Jesus Cristo disse a Nicodemos: “da carne nasce carne, do espírito nasce espírito” (Jo 3,6). Portanto, em nome da fé, não podemos desafiar as leis da natureza. O próprio Filho de Deus, ao vir ao mundo, encarnou-se assumindo as limitações impostas pela natureza.

Na parábola das dez virgens (cf. Mt 25,1-13) Jesus falou da necessidade da atitude preventiva diante daquilo que é imprevisível. A fé deve nos colocar numa atitude de alerta. A ideia de caminhar com as lâmpadas acesas, nos fala exatamente dos desafios do justo agir dos discípulos de Jesus neste mundo; é necessário estarmos numa atitude de contínuo discernimento. Na parábola a atitude de negligência das virgens imprevidentes nos alerta para a importância de não nos deixarmos vencer pela ingenuidade religiosa.

Na Primeira Carta aos Coríntios São Paulo alerta seus interlocutores sobre a questão da liberdade responsável na comunidade cristã. Assim afirma o apóstolo: «Posso fazer tudo o que quero. Sim, mas nem tudo me convém” (1Cor 6,12). A liberdade pessoal deve ser limitada pelo bem-estar da comunidade. Em outra passagem o mesmo apóstolo alerta: “Cuidem, porém, que a liberdade de vocês não se torne ocasião de queda para os fracos” (1Cor 8,9). A liberdade deve ser orientada pela caridade.

A mãe quer vida e saúde

Outra reflexão muito significativa que podemos desenvolver, é o fato de que a mãe deseja sempre assegurar a saúde e o bem estar para os seus filhos. Por outro lado, todas as vezes que os filhos colocam-se em situação de risco, o cuidado da verdadeira mãe sempre vai encontro deles para afastá-los da situação de perigo.

Assim como Maria fez tudo o que era possível para dar a devida segurança para o menino Jesus quando foi perseguido por Herodes, da mesma forma, como mãe amável e protetora, não estaria contente vendo seus filhos expostos aos riscos de doença, sofrimento e morte por causa da imprudência estando, como crianças, ingenuamente à deriva de riscos de uma pandemia mortal.

O cuidado materno tem sempre uma profunda sensibilidade preventiva. A mãe que ama não expõe em riscos o bem estar de seus filhos e nem deseja vê-los passando vergonha, vexame e sofrimento. Foi exatamente isso que aconteceu em Caná da Galileia quando numa festa de casamento veio a faltar o vinho e a mãe de Jesus logo percebeu a delicada situação e interveio estimulando seu Filho a dar uma resposta para que a situação fosse resolvida e assim aconteceu (cf. Jo 2,1-11).

Fé e cidadania

A fé tem uma profunda relação com a cidadania! Jesus pediu a seus discípulos que fossem “o sal da terra e luz do mundo” (cf. Mt 13,15-16). A fé abraça a totalidade das dimensões da vida da sociedade e das relações humanas. Por isso, naturalmente, também acolhe e dá sentido para as exigências da cidadania. “O bom cristão é um honesto cidadão”.

Quando falamos de cidadania nos referimos ao dinamismo das relações da sociedade baseada na prática dos direitos e deveres entre indivíduos e instituições. Essas relações são regidas por autoridades, instituições de controle social, leis, decretos, normas e procedimentos para harmonia da relação entre os sujeitos.

Apesar do Filho de Deus encarnado manter sua soberania divina, também assumiu a condição de servo, cidadão e foi capaz de obediência às exigências do Estado em que viveu. E nessa perspectiva que afirma São Paulo aos Gálatas: “ele nasceu de uma mulher submetido à lei, para resgatar aqueles que estavam submetidos à lei, a fim de que fôssemos adotados como filhos” (Gl 4,4).

Visto que os cristãos e devotos de Nossa Senhora fazem parte da mesma sociedade em que vivem os demais homens e mulheres, então somos chamados a acolher as legítimas autoridades, a cumprir as leis e seguir as autênticas exigências das mesmas.

A fé é o essencial

O Círio de Nossa Senhora de Nazaré é uma realidade que vai muito além de uma romaria e de uma carreata; vai muito além de um rito e de uma espetacular procissão. O Círio ultrapassa os limites de uma celebração e transcende ritos; o Círio não está confinado numa atividade religiosa e nem se reduz a comida e bebida.

A celebração do Círio tem muitas dimensões; é multiforme nas suas expressões e plural no seu conteúdo. O essencial do Círio é invisível, porque é uma celebração que acontece no coração de cada fiel; o Círio não está preso a uma corda, não depende de fogos de artifício e nem do espetáculo artístico.

O Círio é, sobretudo, manifestação de fé e amor, e isso é mistério do Espírito de Deus que alimenta a nossa esperança, nos anima a viver com alegria, nos reúne em família, nos convoca a continuar com Jesus e Maria no Coração e a amar a Igreja promovendo o Reino de Deus. A forma pode mudar, mas o essencial é sempre o mesmo. O Círio é a celebração do mistério da fé e esta, nem sempre, tem as mesmas manifestações. Bom Círio para todos!

PARA REFLEXÃO PESSOAL:

  1. Em que a razão ajuda na vivência da fé?
  2. É possível uma fé imprudente? Por quê?
  3. O que significa: «Tudo é permitido. Mas nem tudo convém. Tudo é permitido. Mas nem tudo edifica”?

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Fonte: Noticias da CNBB

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