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Tempo de aceleração

Dom Lindomar Rocha
Bispo de São Luís de Montes Belo

Quando o tempo acelera somos tentados a encontrar uma palavra rápida e decisiva, e, deste modo, experimentar a sensação de que os fatos se adequam perfeitamente ao discurso, mas, bem disse Aristóteles: a palavra é que deve se adaptar aos fatos, e não o contrário.

Um trabalho mais árduo é descrever os fatos, independente se são como queríamos ou não. A autonomia de juízo nos permite concordar ou discordar, mas jamais fará com que sejam aquilo que não são.

A velocidade que atingimos no vigésimo ano deste novo milênio foi assombrosa. Na educação, no trabalho, na Igreja e nas celebrações, aprendemos o significado de reunião online, trabalho virtual, celebração nas redes e, lives a perder de vista, invadiram o nosso ambiente e o nosso pastoreio.

Já estávamos prontos e o pressentimento se fez notar na primeira Encíclica do Papa Francisco ao afirmar que, “A contínua aceleração das mudanças na humanidade e no planeta junta-se, hoje, à intensificação dos ritmos de vida e trabalho, que alguns, em espanhol, designam por «rapidación». Embora a mudança faça parte da dinâmica dos sistemas complexos, a velocidade que hoje lhe impõem as ações humanas contrasta com a lentidão natural da evolução biológica” (LS 18).

Fomos acelerados ainda mais pela pandemia, e, a partir do isolamento, entramos nos ambientes digitais e reconhecemos a realidade.

Entretanto, esta parte visível, ora experimentada, já foi gestada alhures sem que nem mesmo nos rendêssemos conta.

O mundo do trabalho é o que mais se ressente desta aceleração. Industrialização e mecanização têm tornado descartável inúmeros trabalhadores, e as profissões tradicionais desaparecem de maneira acelerada. Já não mais se pensa na figura clássica do empregado disposto hierarquicamente, mas somente naquele trabalhador que seja capaz de fazer uma pequena parte de algo maior. O seu valor será determinado pela relevância da parte que produz e da inovação de suas ideias. É por isso que certas reflexões sobre o trabalho já não parecem mais condizentes com o mundo.

O trabalho sem relevância e inovação mostra-se tão cansativo que é terceirizado a países inteiros, sem que renda frutos benéficos ou aumente a riqueza daquele povo.

A educação também sofre.  As nossas instituições, acostumadas a formar bons empregados, não conseguem ser suficientemente inovadoras, e temem ser engolidas por Instituições Internacionais e diplomas transnacionais, tão logo se resolva o problema da língua e das traduções, algo pretendido já na próxima década através da inteligência artificial.

Em países em que este processo já está adiantado, quarenta por cento das pessoas já não possuem um emprego formal, mas dirigem um processo de inovação que é agregado a algo maior, um gadget.

Assim, sentimos como a aceleração já estava em via de desenvolvimento desde o início deste milênio, uma aceleração que nos envolveu a todos nos últimos meses.

Seria equivocado, portanto, perdermos os ganhos deste aprendizado pretendendo voltar para o ponto de ruptura iniciado em janeiro próximo passado. Há um sentimento difuso entre nós, que devemos refazer tudo o que fizemos até agora de maneira presencial, acelerando para trás aquilo que está acelerando para frente.

É oportuno acelerarmos juntos. Esticando em toda parte, até o seu limite, para alcançarmos e nos juntarmos numa reflexão contemporânea e relevante sobre o mundo atual.

As palavras deverão procurar os fatos, pois sem os fatos não há relevância e sem relevância se é deixado para trás pelo mundo que acelera, pois, como bem nos ensinou o Senhor de tudo, estejamos sempre prontos e com as lâmpadas acesas.

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Fonte: Noticias da CNBB

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