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Fé, bom senso, vontade política

Dom Pedro Carlos Cipollini
Bispo de Santo André

 

O Papa Francisco publicará uma nova Encíclica, dia quatro de outubro, festa de São Francisco de Assis, santo escolhido “homem do milênio”, ao apagar das luzes de 2000. O que dirá o Papa? Há expectativa! Seus pronunciamentos trazem uma contribuição positiva, mesmo que não obtendo unanimidade absoluta, mas um consenso significativo, num mundo no qual a falta de lideranças é fato histórico pouco comum.

Uma encíclica é um documento que se destina a circular (do latim circulus), dar a volta no mundo. Era usado no Império Romano para distribuir decretos imperiais. Posteriormente, entrou no âmbito da Igreja para fazer circular no mundo cristão as cartas papais. Geralmente, levam o nome das suas duas primeiras letras. Assim a nova encíclica, já sabemos, se intitula “Fratelli tutti”, não em latim desta vez, mas em italiano, homenageando São Francisco, santo italiano. Traduzido seria: “Todos irmãos”. Seu tema é a fraternidade e amizade social, aprofundando os temas de suas encíclicas, exortações, documentos e mensagens anteriores.

Frequentemente, se recordam divergências da Igreja com a ciência ao longo da história, esquecendo-se, na maioria das vezes, que foi a Igreja que fundou as Universidades. Porém, neste momento histórico há uma grande convergência entre a ciência e o que ensina o Papa Francisco, como liderança maior da Igreja Católica.

Foi um momento histórico a visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos, em fevereiro de 2019, durante a qual assinou o Documento sobre a Fraternidade Humana, juntamente com o Imã muçulmano, Ahmad Al-Tayyeb. Documento que assim se inicia: “A fé leva o crente a ver no outro um irmão que se deve apoiar e amar. Da fé em Deus, que criou o universo, as criaturas e todos os seres humanos – iguais pela sua Misericórdia, o crente é chamado a expressar esta fraternidade humana, salvaguardando a criação e todo universo e apoiando todas as pessoas, especialmente as mais necessitadas e pobres”.

O papa convida a “cuidar da casa comum”, mudar o estilo de vida, transformar os relacionamentos com a natureza, o trabalho humano e entre os povos e culturas. Porque? Porque os progressos científicos mais extraordinários, as invenções técnicas mais assombrosas, o desenvolvimento econômico mais prodigioso, se Não estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se necessariamente contra o homem (cf. LS 4).

O papa faz eco ao anúncio primordial do Reinado de Deus proclamado por Jesus “Completou-se o tempo e está próximo o Reino de Deus. Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Este clamor de Cristo e do Papa Francisco repercute na ciência, como podemos conferir na pequena síntese de uma entrevista do astrofísico Fritjof Capra (cf. Folha SP 10/8/20 p. A14), a seguir.

A obsessão com o crescimento econômico e corporativo gera ganância ilimitada com base na crença de um progresso ilimitado em um planeta finito. O aprofundamento das desigualdades é próprio do “mercado global” cujo princípio é ganhar dinheiro a qualquer custo. A pandemia que vivemos, emergiu de um desequilíbrio ecológico e tem consequências dramáticas, devido à desigualdade econômica. A pandemia é resposta biológica da terra como organismo vivo, diante das emergências sociais e ecológicas amplamente negligenciadas. Assim, a justiça social se torna questão de vida ou morte e somente será efetivada por meio de ações coletivas e corporativas.

Pois bem, Ciência e Fé convergem quanto ao tema da fraternidade universal capaz de salvar a humanidade e a natureza. E agora? Nós já temos o conhecimento e a tecnologia para executar iniciativas concretas, para mudar o destino da humanidade para melhor. Teremos a fé, o bom senso e a vontade política que faltam para isso?

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Fonte: Noticias da CNBB

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