CNBB

A maravilha da natureza criada por Deus nos padres da Igreja

Dom Vital Corbellini
Bispo de Marabá (PA)

 

            Os padres da Igreja, os primeiros escritores cristãos, tiveram uma palavra muito importante sobre a natureza. Além da expressão da maravilha das coisas criadas por Deus, estimulavam as pessoas de suas comunidades para a sua preservação. Nós estamos passando por um período de crise, de queimadas, de desmatamentos de nossas florestas permeados por interesses econômicos e políticos de modo que é preciso olhar os padres da Igreja para que possamos agir bem hoje na vida natural, comunitária e social. É preciso a conversão ecológica, do qual o Papa Francisco insistiu muito na Laudato Sì. As coisas de Deus merecem o nosso respeito e amor.

            Nas catequeses batismais de São Cirilo, bispo de Jerusalém, no século IV, afirmou da alegria em contemplar a primavera e todo o gênero de flores, tão diversas. Tudo se transforma na natureza em vista da produção de frutos e frutas para o ser humano em geral. Das parreiras, por exemplo, vem a uva e mesmo os nós, a cana, o como fez muito bem o Criador[1]. O bispo afirmou que de uma só terra provêem a floresta, os alimentos comestíveis, o ferro, as pedras. Em relação à água ele dizia que provêem a raça dos peixes e dos pássaros; os primeiros para nadar nas águas e os segundos para voar no céu. É preciso também contemplar o mar que com a arrogância de suas ondas não pôde invadir a terra, agindo dentro do seu próprio limite, conforme as ordens do Senhor[2]. O ser humano deve seguir a Palavra de Deus na qual o Criador falou que a terra produzisse seres vivos nas suas espécies, animais domésticos, animais rasteiros e animais selvagens, segundo suas espécies[3]. Foi desta forma que as diversas raças de animais com uma só ordem, por uma só origem, o Criador, vieram à luz. Assim o Criador é glorificado pelos seres criados. As criaturas não podem ser consideradas inúteis, mas úteis à vida do ser humano. O bispo falou da grandiosidade de Deus em suas criaturas de modo que é impossível conhecer as qualidades de todas as plantas. Ou como se poderiam conhecer os benefícios de cada animal? Do veneno da víbora se preparam antídotos para a saúde, dos seres humanos. Desta forma é possível ver segundo o bispo de Jerusalém da variedade da criação a grandeza do Criador[4].

            Santo Agostinho, bispo de Hipona, no século IV, exaltou a harmonia de todas as coisas. Ele tinha presentes as palavras do salmista que afirma que são maravilhosos os testemunhos do Senhor, de modo que a alma humana os perscruta[5]. A pessoa é levada a contemplar os testemunhos de Deus. Porque o céu, a terra, as suas obras visíveis e invisíveis mostram de certa maneira os testemunhos da bondade e grandeza de Deus. É possível ver em tudo isso, a grandeza do Criador no que se refere ao tempo de vida de todas as espécies de seres, embora temporais e mortais, ainda que sejam despercebidas devido ao costume, dão testemunho ao Criador. Tudo é digno de admiração seja pela razão, seja pelo habito, de modo que quanto mais ocultas as causas dos seres criados por Deus, tanto mais admiráveis se tornam os fatos[6].

            Santo Ambrósio, bispo de Milão, no século IV, tinha presente o organicidade da criação dada por Deus, que fez o céu e a terra e a separação entre luz e trevas. Quem não admiraria o fato de que membros dessemelhantes surjam um só corpo num mundo impar nas quais estes membros tão diferentes entre sim se juntem em sociedade e união, por uma lei de concórdia e de caridade? Como é possível que elementos diferentes por natureza se unam em vínculo de unidade e paz, tendo também uma atração irresistível? Todas essas coisas foram criadas pela força divina, incompreensível para as mentes humanas e inefável para as nossas palavras, que entrelaçou pela autoridade de sua vontade. Desta forma, Deus como autor, fez o céu e a terra e prescreveu que passassem a existir, não foi como inventor de uma configuração, mas como o artífice verdadeiro da natureza[7].

            São Basílio Magno, bispo de Cesaréia, no século IV, falou da grandiosidade e da beleza da luz. Deus disse: “seja a luz”[8]. A primeira palavra de Deus criou a luz, dissipou as trevas afastou a tristeza, iluminou o universo, revestindo toda a coisa de uma aspecto agradável e alegre. Apareceu o céu, antes escondido nas trevas; apareceu a sua beleza tão grande como também agora os olhos possam testemunhar. A atmosfera acolhe em tudo os raios da luz e as águas são mais límpidas. A palavra divina doou a toda coisa um aspecto belíssimo e agradabilíssimo. Deus não só falou para que houvesse a luz, mas também a criou e ela se fez no mundo de modo que a mente humana não pode imaginar nada mais de agradável e de mais bonito. E Deus viu que a luz era bonita[9]. Quais louvores poderão nós pronunciar, que sejam dignos da luz, no momento que o Criador mesmo a reconheceu bonita desde o principio?[10] Por isso São Basílio teve presente a necessidade de louvar a Deus pela criação da luz.

            Santo Efrém, o Sírio, diácono, no século IV, afirmou que a ordem da criação demonstra o poder do Criador. Nenhuma pessoa pode compreender como seja grande o poder do Criador e nem mesmo pode medir aquilo que ele criou e aquilo que é em grau de criar. As criaturas que Ele fez e as suas obras que criou, não manifestam de fato todo o seu poder. O fato é que a sua vontade é infinita. Ele quis que as suas obras tivessem uma dada grandeza, por isso as criou na medida e naquilo que fosse conveniente à sua vontade. Assim como Ele iniciou a criar para atuar as criaturas: ao mesmo tempo cessa de criar para realizar a ordem. Da mesma forma como Ele pode criar em toda hora, não cria continuamente novas realidades, porque quis estabelecer a ordem nas criaturas mesmas que criou. Aquilo que criou é de fato incomensurável, não tendo medida porque Deus é infinito e sem medidas e as criaturas estão numa realidade limitada. Tudo aquilo que ele produz com seu aceno, veio do nada[11]. Assim a ordem das criaturas manifesta o poder do Criador.

Estes padres da Igreja colocam a maravilha da natureza criada por Deus, de modo que o ser humano é convidado a amar o seu Criador, louvá-lo e assim preservando-a possa viver em companhia com a mesma para o louvor de Deus Uno e Trino.

[1] Cfr. Cirillo di Gerusalemme, Catechesi battesimali, 9, 10. In: La teologia dei Padri, 01. Città Nuova editrice, Roma, 1981, pg. 92.

[2] Cfr. , 38,11.

[3] Cfr. Gn, 1,24.

[4] Cfr. Cirillo de Gerusalemme, 9, 15. In: Idem, pg. 93.

[5] Cfr. Sl 118,129. In: Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos) Salmos 101-150. Paulus, SP, 1998, pg. 506.

[6] Cfr. Idem, pg, 506.

[7] Cfr. Santo Ambrósio, Examerão, 1,1. Paulus, SP, 2009, pg. 57.

[8] Gn 1,13.

[9] Gn 1,4.

[10] Cfr. Basílio Il Grande, Esamerone, 2,7. In: La Teologia dei Padri, idem, pgs. 95-96.

[11] Cfr. Efrem Siro, La Fede, 2,4-5. Idem, pgs. 94-95.

O post A maravilha da natureza criada por Deus nos padres da Igreja apareceu primeiro em CNBB.


Fonte: Noticias da CNBB

Artigos relacionados