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O Carpinteiro da Cruz

Dom Messias dos Reis Silveira
Bispo de Teófilo Otoni

 

O trabalho é extremamente necessário para a vida humana. Quando alguém, no âmbito familiar, faz algum trabalho sabendo quem vai ser beneficiado com o que se está produzindo como por exemplo: uma  refeição, a limpeza de algum  local, ou outra coisa útil, o trabalho ganha um  sentido mais profundo. A atividade feita no ambiente familiar tem um valor muito grande, mas há um risco de não  se valorizar   a pessoa que trabalhou gastando  tempo e amor na execução do que se esperava produzir. Quando o  olhar fica focado no objeto se esquece que por traz dele há um ser humano que o produziu. Muitas vezes nós fazemos compras nas lojas, nos mercados, nas farmácias e nem sequer sabemos quem  produziu o que estamos comprando. Nem sempre conhecemos o padeiro que faz o pão que nos alimenta todos os dias.

 Buscamos o que necessitamos.  A pessoa que  produziu o que buscamos, enquanto exercia a sua missão, necessitava prestar aquele trabalho para sua subsistência, para ter o seu ganho, para sobreviver, ou para sustentar a sua família. Não tinha nenhum conhecimento  de quem faria o uso daquilo que estava sendo produzido. Assim há um anonimato atrás de muitos bens que utilizamos.

Fico pensando que são muitos os objetos produzidos para o bem da humanidade, para o bem estar, para a paz, para a alegria, para a satisfação das pessoas,  para recuperação da saúde,  para alimentação,  para a proteção do corpo, para o agasalho e para tantas outras necessidades humanas.

Há  pessoas que produzem algo que poderá ser utilizado para o mal. Penso naquelas pessoas que produzem armas ou munições e elas não sabem como serão usadas as armas produzidas.  Teríamos coragem de produzir algo sabendo que aquele produto poderia ser usado para tirar a vida de alguém? Penso por exemplo naquele que faz a bala de um revólver que pode no futuro  pôr fim à vida de uma pessoa. O que fazemos deixa marcas nas histórias humanas, na natureza e em nós mesmos. Nem sempre percebemos as pegadas das nossas ações.

Num   passado, muito distante do nosso tempo, um carpinteiro produzia  instrumentos de morte. Ele fabricava cruzes. Com suas habilidosas  mãos ia talhando a madeira para fazer o que queria, ou o que lhe era solicitado. Certamente ele produzia muitas cruzes, mas não sabia quem seria cruficado nelas. Suas  mãos   talhavam a madeira e seu objetivo era  alcançado.  Aquele carpinteiro anônimo,  num certo momento entre tantas, fez uma cruz,  mas como sempre, ele não sabia quem iria doar a vida naquela cruz. Estou me referindo ao carpinteiro da cruz de Jesus. Ele foi trabalhando a madeira para que chegasse ao que se desejava, mas não sabia que aquele instrumento que ele estava produzindo seria utilizado para crucificar o Filho de Deus. O carpinteiro fez vários instrumentos de morte e um deles foi pego no depósito para nele ser pregado o salvador da vida. O sangue do Salvador que escorreu de seu corpo e ungiu a humanidade, a partir da árvore do calvário, também foi derramado por quem produziu aquela inesquecível cruz.

Pensar nesta realidade me faz entrar no sentido das coisas que nós fazemos.  Todos os dias estamos trabalhando. É preciso olhar não apenas para o trabalho, ou  para o que conseguimos produzir, mas é importante  que olhemos para frente,  pois lá no futuro alguém que não conhecemos vai fazer uso do que produzimos. Se a luz das palavras de Cristo tivesse entrado no coração do carpinteiro da Cruz, talvez ele certamente teria dificuldades de produzir aquele instrumento de morte. Teremos nós coragem de fazer alguma coisa que vai causar mal a alguém, ou vai servir para que o mal seja feito para outras pessoas?

É sonho, é ousadia,  é utopia, mas rezo a Deus para que os instrumentos de morte não sejam construídos. Sonho com a sociedade do amor, onde os maus entendidos serão solucionados, onde o desejo do mal será substituído por projetos de paz, onde o ódio será amenizado pelo amor, onde os corações endurecidos  se tornarão ternos.  O profeta Isaías, lá no passado, antes de Jesus, falou de um sonho semelhante onde as contrários se uniriam e um sonho de paz chegaria  à terra (cf Is 11,6-9). Com a chegada do Filho de Deus este sonho adquiriu rosto, mas a sua realização depende da iluminação de Jesus no coração da humanidade. O carpinteiro da Cruz de Jesus era mandado por  alguém que lhe pedia que fizesse cruzes. Peçamos a Deus a graça de  nossas mãos não ser manchem de maneira alguma com  o mal, mesmo que alguém nos peça para fazê-lo. A decisão pelo bem parte de nós mesmos.

 

 

 

 

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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