CNBB

Setembro, Mês da Bíblia: os jovens na Bíblia (II parte)

Dom Antonio de Assis Ribeiro
Bispo Auxiliar de Belém do Pará

Introdução

A Bíblia não é uma enciclopédia de temas na qual cada realidade é descrita organicamente. A Bíblia é o livro da história do dinamismo na fé de um povo e também da história de um povo de fé. Nessa história encontramos a totalidade das dimensões humanas vividas no cotidiano, bem como uma diversidade de sujeitos de todas as fases: crianças, adolescentes, jovens adultos e idosos.

O dinamismo da fé do antigo povo israelita presente na Sagrada Escritura não estava isolado, mas abraçava a totalidade das dimensões da vida, ou seja, a dimensão religiosa, política, econômica, afetiva, sexual, cultural, moral, etc.

É dentro dessa moldura existencial ampla que encontramos os jovens na Sagrada Escritura. Eles estão profundamente integrados na vida da sociedade em que viveram. Por outro lado, falar dos jovens na Bíblia significa também reconhecer a diversidade de famílias, povos, contextos culturais, mentalidades e períodos históricos.

Enriquecer a pastoral juvenil

Nesta reflexão queremos ressaltar simplesmente o impacto da fé na vida do jovem israelita. Apesar de terem vivido numa “cultura adultocêntrica”, os jovens israelitas deram brilhantes testemunhos do protagonismo na vivência da própria fé e assim contribuíram para o enriquecimento da sociedade do seu tempo e da própria religião.

Também os jovens de hoje estão envolvidos por tantos desafios. O confronto com os jovens da Bíblia poderá infundir neles, mais vigor, otimismo, conforto, fortaleza de ânimo e boas inspirações.

A releitura desses dados da Sagrada Escritura, em relação aos jovens, pode muito contribuir para enriquecer a pastoral juvenil em nossos dias em diversos e importantes aspectos: na experiência de Deus, no protagonismo juvenil, na vida familiar, na inquietude diante dos desafios da religião, nas pressões da sociedade, na experiência da profecia, na relação de interação, sabedoria e respeito para com os mais velhos, na gestão dos conflitos e problemas pessoais, na capacidade de discernir e decidir o próprio projeto de vida, no testemunho da própria fé até mesmo chegando à experiência do martírio.

Deus conta com os jovens

Na Bíblia os jovens estão presentes desde o livro do Gênesis até o Apocalipse. Não há simplesmente a categoria jovem enquanto faixa etária, mas sujeitos concretos que se destacaram assumindo diversas formas de serviços na comunidade em que viveram.

Ao longo da Bíblia podemos encontrar jovens com muitas ocupações, por exemplo, servos, auxiliares, líderes, juízes, profetas, militares, guerreiros, sacerdotes, governadores, reis, profissionais liberais, pastores, videntes, apóstolos e também diversos colaboradores dos apóstolos, sobretudo de Paulo e de Pedro.

A Sagrada Escritura também ressalta com muita clareza as virtudes e as potencialidades dos jovens; fala da saúde juvenil, da beleza, do vigor, coragem, sagacidade, perspectiva de vida, a importância da aprendizagem, etc. Há em geral uma atenção muito positiva para com os jovens.

Chamados a testemunhar a sabedoria

A Sagrada Escritura apresentando os jovens em pleno dinamismo como sujeitos, também é rica de indicações e estímulos. Eles são visto como sujeitos em processo de formação humana e religiosa. Por isso devem acolher, ler e praticar a Palavra de Deus para terem uma justa conduta (cf. Sl 119,9).

Os jovens são chamados a louvar e exaltar a Deus acima de tudo (cf. Sl 148,12-13); são solicitados a serem educados, sábios, prudentes e temperantes (cf. Pv 23,19-22). Reconhecendo a autoridade paterna e materna, os jovens são chamados a nunca perderem a consciência de serem filhos, por isso, devem crescer na obediência ao quarto mandamento honrar pai e mãe (cf. Eclo 3,2-17).

Essa mesma perspectiva também se faz presente no novo testamento onde os mesmos são chamados a aprender a respeitar os mais velhos, a obedecerem a seus pais, e serem humildes reconhecendo a grandeza poderosa de Deus (cf 1Pd 5,5-6; Ef 6,1-2).

Cheios de recursos os jovens também são convidados com prudência e sabedoria a aproveitar dos recursos da vida, como diz o Eclesiastes: “Jovem, alegre-se na sua juventude e seja feliz nos dias da mocidade. Siga os impulsos do seu coração e os desejos dos olhos. Contudo, saiba que Deus vai pedir contas a você de todas essas coisas. Expulse a melancolia do seu coração e afaste do seu corpo a dor, porque a juventude e os cabelos negros são fugazes” (Ecle 11,9-11).

A juventude é tempo de responsabilidade

 A fase juvenil não é somente tempo de aprendizagem e de obediência, mas também já é tempo do chamado a grandes responsabilidades. Os jovens são os primeiros nominados no projeto de libertação e celebração da Páscoa no deserto (cf. Ex 10,9); Davi foi chamado a ser Rei ainda muito jovem, assumindo assim uma grande responsabilidade e sem medo (cf. 1Sam 17,42).

Apesar de não haver dados sobre sua idade, mas pelo contexto podemos imaginar que Deus contou com a disponibilidade de Moisés quando ainda era jovem cheio de sensibilidade social e indignação (cf. Ex 2-3), convocando-o para um enorme projeto libertário, o principal da história da Salvação no Antigo Testamento.

Uma é certa! Deus conta com os jovens para grandes páscoas, superação, renovação, restauração da sociedade. Por outro lado, também eram jovens os profetas Jeremias, Isaías, Samuel, Daniel, etc. Todos eles passaram pela experiência do medo e da incerteza, todavia, a fé venceu o medo e abraçaram o chamado de Deus.

Josué era um jovem auxiliar de Moisés que acompanhou o povo no processo de libertação da escravidão do Egito. Com a morte de Moisés ele foi chamado a assumir a liderança do povo e entrar na terra prometida. Quanta responsabilidade lhe coube! Apesar do processo de formação e de toda a experiência que teve com o grande Moisés, também Josué teve medo, mas Deus lhe disse: “ninguém poderá resistir a você durante toda a sua vida. Assim como estive com Moisés, estarei também com você: nunca o abandonarei nem o deixarei desamparado. Seja firme e corajoso… Não se desvie… você terá sucesso em todos os seus empreendimentos” (Js 1,5-7).

Daniel era ainda adolescente quando foi chamado a profetizar sendo promotor da justiça; jovem sábio, firme, corajoso, vidente, sonhador e intérprete. Apesar de perseguido e rechaçado pelas autoridades do seu tempo manteve-se firme e fiel em sua fé e em seu ministério. Do Novo Testamento, além de Jesus e discípulos de Jesus, podemos dar uma especial atenção ao jovem Timóteo; acompanhado e formado por Paulo tornou-se seu grande colaborador e assumindo responsabilidades de liderança comunitária servindo com autoridade (cf. 1Tm 4,12). Sabedor de desafios pelos quais passava Paulo lhe diz: “Que ninguém o despreze por ser jovem. Quanto a você mesmo, seja para os fiéis um modelo na palavra, na conduta, no amor, na fé, na pureza” (1Tim 4,12).

PARA REFLEXÃO PESSOAL:

  1. Em que os jovens da Bíblia enriquecem a Pastoral Juvenil?
  2. Quais são as virtudes dos jovens ressaltadas na Bíblia?
  3. Segundo o Salmo 119,9, como os jovens podem conservar uma vida sábia?

O post Setembro, Mês da Bíblia: os jovens na Bíblia (II parte) apareceu primeiro em CNBB.


Fonte: Noticias da CNBB

Artigos relacionados