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Superar a apatia

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo de Montes Claros

 

         O grau de complexidade da sociedade contemporânea é um fator com potencial para anestesiar as consciências. Mesmo diante das belezas da vida, de tantas conquistas da humanidade, de incontáveis iniciativas de solidariedade humana em todos os cantos da Terra, não se pode negar o volume incomensurável de graves problemas de natureza social e política que afligem os povos. Esses, associados ao individualismo, deixam a maioria das pessoas atônitas frente aos descompassos de governantes denunciados a cada instante. Como escreveu alguém nas redes sociais: pensou-se que a crise gerada pela pandemia faria os pobres saquearem os mercados, mas não imaginou-se que gestores públicos desviariam recursos para a saúde em plena pandemia. Só no Brasil há mais de 12 mil denúncias de abusos e de desvios desses recursos. Mais uma vez se confirma que a raiz de todos esses descompassos está na crise ética.

Cientistas e pesquisadores descobrem e criam recursos incríveis e inimagináveis para salvar vidas, aumentar a produção de alimentos e produtos, facilitar sempre mais a comunicação e os transportes. Esses exemplos podem ser seguidos de uma lista incalculável de maravilhas produzidas pela razão humana. Ainda assim, a humanidade perde todas as vezes que alguém cede à corrupção e à violência, ao descaso com as pessoas e à monetarização das relações, terríveis males que se alastram e consomem vidas.

O desejo humano de tudo poder e de tudo usufruir dinamiza a história, mas precisa ser confrontado com o referencial ético paulino: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém” (1Cor 6,12). O processo de socialização do ser humano passa por essa assimilação de fundamental importância, cujo auge é o respeito incondicional pela vida do outro – Não matarás! No entanto, o frenesi do mercado, a luta cotidiana pela sobrevivência, a frágil consciência cidadã e a ambição desmedida de uma pequena parcela que muito detém em suas mãos enfraquecem o altruísmo, ensurdecem a muitos e calam vozes. Os gritos dos pobres, das vítimas de tantas formas de violência, dos sem-teto, dos sem-terra, dos desempregados… da própria mãe-terra, explorada e espoliada em seus recursos de modo irresponsável, parecem perdidos no ar.

Urge que todas e quaisquer instituições, nessa hora grave da história, se interpelem: estamos a serviço de quem e de quê? Somos promotores da vida e da liberdade? Escutamos os clamores das pessoas? Compreendemos suas lutas? De que modo o escopo de nossa instituição contribui para o desenvolvimento de nossa nação? Não é menos urgente que cada pessoa tenha a coragem de fazer a si mesmo algumas indagações. Pessoalmente, contribuo para uma melhor qualidade de vida das outras pessoas? Deixo-me sensibilizar pelo sofrimento dos outros? Qual é minha participação na política para melhorias na cidade em que vivo? Há alguma causa de lastro social à qual devoto minha vida?

Diante de tantos preconceitos e julgamentos, de polêmicas e acusações desvairadas, um exercício faz bem a todos: aproxime-se de um pobre, de uma família sem-teto, de uma pessoa em situação de rua, de um trabalhador informal, de um catador de papel, de um desempregado, de um encarcerado… Ouça suas histórias. Se você os escutar, eles não precisarão gritar. E lembre-se, a escuta é também um ato ético. Dela decorrem compromissos, um novo agir. É um caminho para superar a apatia que nos enfraquece.

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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