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Três “vírus” que podem destruir uma família

Dom João Bosco Óliver de Faria
Arcebispo Emérito de Diamantina (MG)

 

Conhecemos tantos casais que começaram seu casamento cheios de alegria e de esperança e que, depois, foi muito difícil para eles levar até o fim a missão que receberam. São muitos os perigos que o mundo oferece, hoje, à união, à felicidade e à paz de uma família.

O que comumente destrói uma família são doenças espirituais e sociais que são contagiadas, sem que o casal perceba que está acontecendo o contágio, como acontece com a Covid 19. Quando vê, já era! E, ainda assim, sente as dores, mas sem ter certeza do tipo da febre. Assim como a Covid 19, a dengue hemorrágica, ou a gripe suína  que matam, há doenças espirituais que matam a vida de um casal, quando ele não recorre a um bom médico espiritual, um sacerdote e a um bom tratamento!

O pernilongo é tão pequenino tão fraquinho, mas carrega consigo o poder e a força da doença e da morte! Um toque de mão, uma saudação de paz, um abraço, um beijo, um espirro ou tosse e lá vem algum vírus! Esses vírus não são um míssil, nem um avião de guerra, nem tiro de canhão, mas fazem um estrago grande na vida das pessoas, com o perigo da morte. Quando a pessoa percebe, já é tarde! Ou se trata, ou morre!

Os vírus das doenças espirituais e sociais são assim também: parecem pequeninos, invisíveis, inocentes, sem importância, comuns, às vezes, até parecem ser agradáveis. A pessoa é contaminada sem o perceber e, na maioria dos casos, não percebe que está contaminada. É como o mau hálito, quem o tem não percebe!

Encontramos uma luz para fugir desses vírus na Exortação de São João Paulo II, sobre a Família. Lemos na sua introdução:

Num momento histórico em que a família é alvo de numerosas forças que a procuram destruir ou de qualquer modo deformar, a Igreja, sabedora de que o bem da sociedade e de si mesma está profundamente ligado ao bem da família, sente de modo mais vivo e veemente a sua missão de proclamar a todos o desígnio de Deus sobre o matrimônio e sobre a família (3).

Não raramente ao homem e à mulher de hoje, em sincera e profunda procura de uma resposta aos graves e diários problemas da sua vida matrimonial e familiar, são oferecidas visões e propostas mesmo sedutoras, mas que comprometem em medida diversa a verdade, a dignidade da pessoa humana (4).

 

O matrimônio é uma instituição divina, do próprio Senhor Deus, que, ao criar o homem, o criou homem e mulher. E o Senhor Deus disse: `Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda`.  […] Por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá  a sua mulher, e eles serão uma só carne (Gn 2, 18 e 24).

Não foi a Igreja quem instituiu a família, o matrimônio. O matrimônio tem uma força que vem de Deus; ele segue uma lei que é de Deus. A Igreja é seguidora e a guardiã da lei de Deus, que ela, Igreja, não pode mudar.

Jesus eleva o casamento a um nível de mistério, de sacramento, por meio do qual Deus, de modo verdadeiro, mas invisível, sela, com Seu Amor, o amor entre um homem e uma mulher. Disse Jesus: Nunca lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e disse: Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá a sua mulher, e os dois formarão uma só carne? De modo que eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe (Mt 19 4-5) .

Já escrevi que que amar é diferente de gostar. Quando gostamos de uma coisa, a queremos para nós, para nosso bem, para nosso proveito, vantagem e bem-estar. Gostamos de um sapato folgado, de um chinelo, de uma roupa, de uma comida ou bebida. Mas acabamos destruindo as coisas de que gostamos: o sorvete, o chocolate, a roupa, o chinelo, o doce, a cerveja. Queremos as coisas para nós. Colocamo-nos no centro das pessoas, das coisas e dos acontecimentos.

No amor, o sentido é o contrário. Colocamo-nos de lado ou ao redor dos outros e colocamos a pessoa que amamos no centro da vida e dos acontecimentos. A pessoa que ama sacrifica-se por quem ela ama. Não queremos ver sofrer a pessoa que amamos, como os pais diante de um filho doente. Ao contrário, somos capazes de sofrer pelo bem dela. Assim, os pais se sacrificam pelos filhos, porque os amam e, mesmo fazendo algum sacrifício, sentem-se felizes pela felicidade dos filhos.

Não se pode amar um animal ou um objeto. Eles não são mais importantes que uma pessoa, que um filho de Deus. Eles não podem estar no centro de nossas vidas. Eles não merecem o sacrifício de um ser humano. Pode-se amar apenas uma pessoa ou a Deus, a Seus Anjos e a Seus Santos. Podemos gostar das plantas, dos animais e das coisas que são sacrificadas para o nosso bem.

Quando, no casamento, o casal apenas se gosta, mas não se ama, um usa o outro para o próprio bem, como se fosse coisa. Cada um dos esposos coloca-se no centro e o esposo(a) de lado, na periferia! Quando a pessoa ama a si própria e usa o outro para o seu bem-estar, prazer e comodidade, vem a separação. É como um vírus ou como o caruncho na madeira, corroendo o amor daquele casal, corroendo a pessoa por dentro, tirando-lhe a capacidade de amar. Ela quer o outro, mas como uma coisa a ser sacrificada para o seu bem estar. Chega a um ponto que um se cansa primeiro e se separa. Ou então, muda de esposo (a) como se muda de refrigerante, de cerveja ou de vinho! Não há compromisso nem interesse pelo bem do  outro. Sei de uma pessoa que está no seu sétimo companheiro! Já usou seis! A pessoa só pensa em si própria.

O primeiro “vírus” – caruncho – é o individualismo. A pessoa só pensa em si, no seu próprio bem. Quer que todos da família façam o que ela gosta, do jeito que ela gosta, não importando os sacrifícios ou as renúncias que os outros de sua família tenham que fazer. Mais importante que a família são a roda de amigos ou de amigas, o jogo, o esporte, o carro, os passeios, as viagens. A família fica quase como algo descartável. No uso do dinheiro da família, ela só pensa em si mesma e nos seus interesses. Danem-se os outros.

Outro “vírus” é o consumismo. A competição comercial leva as indústrias a renovarem sempre seus produtos, com novos recursos e melhorias. O consumista quer ter tudo, e tudo “de última geração”. Chega a comprar sem precisar. Compra o que já tem em casa. Ou, então, para ostentação ou para sua própria satisfação, chega a comprar sem poder. Compra para não ficar diferente se seus amigos e amigas. Conheci um grupo de famílias amigas (doze), que quando uma comprava um novo modelo de carro, todas as outras se sentiam na necessidade de trocar o próprio carro, para “não ficar por baixo”! A pessoa contrai dívidas que não pode pagar e, às vezes, sacrifica toda a família em suas verdadeiras necessidades. É importante na educação dos filhos orientá-los para que não se deixem levar pelo vírus do consumismo.

Há, ainda, um terceiro “vírus” que está entre os mais violentos: a busca desenfreada pelo prazer. A fuga de todo e qualquer sacrifício ou renúncia. A pessoa só pensa em gozar a vida, em se satisfazer: comida, bebida, sexo, esporte. Entra aqui, também, o culto exagerado do próprio corpo. Todos nós devemos nos cuidar, cuidar da nossa saúde, cuidar do nosso corpo, cuidar da nossa apresentação. Mas tudo deve ser feito com equilíbrio e segundo a ordem que Deus colocou em nossa natureza humana.

A pessoa precisa, para isso, conhecer os próprios limites. Ensina São Paulo, na sua primeira carta aos Coríntios: A mim tudo é permitido, mas nem tudo me convém. A mim tudo é permitido, mas não me deixarei dominar por coisa alguma. Os alimentos são para o estômago, e o estômago para os alimentos. Mas Deus destruirá um e outros. O corpo, porém, não é para a prostituição, ele é para o Senhor, e o Senhor é para o corpo; e Deus, que ressuscitou o Senhor, ressuscitará também a nós, pelo seu poder (6, 1214).

Ensinou o Papa São João Paulo II na sua Exortação Apostólica sobre a Família: O sentido sobrenatural da fé não consiste, porém, somente ou necessariamente no consenso dos fiéis. A Igreja, seguindo a Cristo, procura a verdade, que nem sempre coincide com a opinião da maioria. Escuta a consciência e não o poder e nisto defende os pobres e desprezados (5).

Nem tudo que é comum é normal. O câncer ou a Aids podem ser comuns. Mas não são normais. O “comum”  e,  “o que está na moda” não podem ser regras de vida para um cristão. Sidney Sheldon escreve em seu livro Depois da meia-noite: As coisas não nos parecem tão más depois que nós as fazemos! Ensinou-nos Bento XVI, quando era Cardeal: a espiritualidade do cristão está na coragem de ser diferente! Perdemos o sentido de que os cristãos não podem viver como vive um outro qualquer.[1]

Pode até acontecer que as pessoas cheguem a ter vergonha de ser boas, de dar um verdadeiro testemunho de quem quer  seguir Jesus Cristo: Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (Mc 8, 34)!

Deus nunca permite a uma pessoa o peso de uma cruz superior à sua força. Se Ele permite as provações em nossa vida, Ele nos dá, também, a força para superá-las. Na oração cada um encontra luz e força para as decisões em sua vida. Se os santos e o próprio Jesus passaram por sofrimentos e angústias, nós, também, podemos experimentá-las sem perder a nossa paz interior e a nossa confiança em Deus.

 

 

[1] RATZINGER/V.MESSSORI, A fé em Crise, E.P.U. São Paulo, 1985, Pag. 84.

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Fonte: Noticias da CNBB

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