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Mais alto ainda!

Dom Jacinto Bergmann
Arcebispo de Pelotas

             Na época dos “Yamim Noraim” – “dias terríveis”, entre “Rosh Hashaná” – “dia do ano novo” e “Yom Kipur” – “dia do perdão” (datas da cultura judaica), o célebre “rabi” – “mestre” de Nemirov, Ucrânia, costumava desaparecer. Não era visto em parte alguma. Originou-se daí a lenda, entre os habitantes do lugar, que ele subia aos céus. Um “litvak” (judeu lituano), recém-chegado a Nemirov, ouviu a história e resolveu investigá-la. Sem ser visto, seguiu o rabi; constatou que ele, disfarçado de lenhador russo, ia até a casa de uma camponesa, que era gentia, e ajudava esta pobre mulher acendendo o fogo, cozinhando, arrumando a casa. Quando perguntaram ao litvak, se era verdade que o rabi subia aos céus, ele respondeu: – “E talvez mais alto ainda!”

            Tendo presente esta estória, pergunto-me se o tempo da pandemia da COVID19 não é um tempo de “MAIS ALTO AINDA”? Mas como? Não estamos isolados, não estamos confinados, não estamos aprisionados nas nossas casas? Não estamos sendo “obrigados” a acender o fogo, a cozinhar e a arrumar a casa? Estamos cansados desta tibieza forçada!

            Como seria bom aprendermos de novo a ver e a viver a grandeza de acender o fogo, de cozinhar e de arrumar a casa! Como fazer disso uma “subida aos céus”, ou até uma subida “MAIS ALTO AINDA!”

            Aprender de novo a “acender o fogo”… Afirmamos que os nossos lares são a centelha de luz de nossas vidas e histórias. Aí, no aconchego do lar, tudo é calor humano, e, por ser humano é calor divino. O lar é o fogo do amor concreto: aí tem acolhida, aí tem transparência, aí tem perdão, aí tem paz. Sim, tendo tudo isso e até mais, então, no nosso lar tem Deus. Podemos e devemos acreditar que “acender o fogo” nos nossos lares é “subir aos céus” – é subir “MAIS ALTO AINDA!”

           Aprender de novo a “cozinhar”… Sabemos que necessitamos não só do alimento, mas especialmente do seu sabor. No sabor do alimento nós nos aproximamos, nos identificamos, nos saboreamos. Mais, com o sabor do alimento, chegamos a experimentar o quanto o próprio Deus é o “sabor por excelência” de nossa existência e história. Podemos e devemos acreditar que “cozinhar” nos nossos lares é “subir aos céus” – é subir “MAIS ALTO AINDA!”

           Aprender de novo a “arrumar a casa”… Estamos tendo tempo, com o coronavírus solto, para colocarmos em ordem nossos lares, nossas coisas e nossos projetos. Estamos tendo tempo também para arrumarmos as nossas vidas e as nossas histórias: quantos questionamentos, quantas reflexões, quantas orações – essas até meio esquecidas! O Deus-Pai Criador, Deus-Filho Redentor, Deus-Espírito Santo Santificador (de quem acredita no Deus revelado na Bíblia), talvez, reencontrou o seu devido espaço em nossas vidas e histórias. Sim, Ele, que é o “alfa” e o “ômega” – o começo e fim de tudo e de todos, nós arrumando a casa de nossa vida, torna-se presente e nos dá sentido maior. Podemos e devemos acreditar que “arrumar a casa” nos nossos lares e de nossa vida e história é “subir aos céus” – é subir “MAIS ALTO AINDA!”

          Então: bendita pandemia que nos está fazendo a reaprender a “acender o fogo”, a “cozinhar” e a “arrumar a casa”, e, assim, “subir aos céus” – “MAIS ALTO AINDA”!

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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