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Lembranças de meu pai

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo de Montes Claros

 

            A comemoração do dia dos pais faz cada um olhar para o seu pai. Os que vivem na mesma casa poderão celebrar com mais segurança esse segundo domingo de agosto. Os que não habitam juntos vão encontrar alguma forma para se congratularem. Aqueles cujos pais já faleceram buscarão as lembranças. Eu estou entre esses. Meu pai faleceu em fevereiro de 2016. Se ele estivesse aqui completaria, em dezembro próximo, seus 90 anos. Ao escrever sobre ele quero homenageá-lo, bem assim, a todos os pais, mas, especialmente, aqueles que já nos deixaram.

            Quando meu pai morreu eu tinha um pouco mais de 49 anos. Posso dizer que aproveitei muito de sua presença. Na verdade, bem mais que isso. Sua vida marcou minha vida definitivamente. Primeiro porque sou seu filho. Depois, foi ele quem escolheu e definiu meu nome, praticamente, sem consultar minha mãe. Diferentemente de Zacarias que confirmou o nome apresentado por Isabel, foi ele quem disse primeiro: Vai se chamar João Justino. João em homenagem a outro pai, o meu avô materno. Justino em homenagem ao meu avô paterno. Mas esse era, também, seu primeiro nome. Meu pai chamava-se Justino Emílio.

            Ele se casou com minha mãe, Maria de Lourdes, aos 24 anos. Geraram cinco filhos. Eu sou o quarto. Viveram 61 anos juntos, até que ele fechasse para sempre seus belos olhos azuis. Era um homem de humor muito leve. Gostava de conversar com as pessoas, acompanhava os debates políticos, sua presença enchia a casa de alegria. Era romântico, adorava presentear sua esposa e trazia sempre flores para ela. E quando já limitado pelo Alzheimer saía aos arredores de casa, ao voltar costumava quebrar um ramo de flores do jardim de uma casa vizinha para levar à minha mãe.

            Tenho lembranças muito vivas de sua ternura. As mais fortes são da infância. Como das vezes em que, de dentro da piscina, ele me mandava pular em seus braços. Eu o fazia com toda a confiança de um menino de cinco anos. Sentia orgulho de ver que meu pai nadava muito bem. Outra cena vem como lembrança: Eu tinha seis anos e meus pais me matricularam numa escola infantil que se chamava Gato de Botas. A escola era muito simples. Veio uma tempestade de granizo, os vidros e as telhas de amianto se partiam. Recordo-me ver meu pai entrando às pressas na sala onde já estávamos abrigados debaixo das mesinhas. Ele me abraçou e me levou para casa. Lembro-me de algumas despedidas, como em 2002, nos abraçamos no aeroporto do Galeão. Nos despedimos com um longo abraço. Ele saiu chorando e eu entrei para o embarque com o coração partido rumo a um ano de estudos em Roma. Quanta alegria ao regressar no dia de natal do ano de 2003. Ele me esperava ansioso na calçada de casa.

            Meu pai sempre se orgulhou de cada um de seus filhos. Trabalhou pela nossa formação. Corrigiu-nos muitas vezes. Celebrou nossas vitórias. Viveu uma alegria contagiante pela chegada dos cinco netos. Foi sempre muito generoso e parcimonioso. Tinha muitas habilidades. Fazia um pouco de tudo para a manutenção de uma casa. Consertava os aparelhos domésticos, reparava solas dos sapatos, pintava paredes e portas, arrumava fechaduras e torneiras. Quando não sabia fazer, queria logo aprender. Dentro de mim eu sei que ele plantou em cada um de nós um pouco de seu humor, de seu empenho no trabalho, de sua criatividade para as soluções. Em nossas vidas suas lembranças se tornam modos de ser. Obrigado, pai.

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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