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Saciais os vossos filhos

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro

Estamos celebrando o 18º Domingo do Tempo Comum e iniciando o mês de agosto, que é conhecido como o mês vocacional, que neste ano de 2020 tem como tema: “Amados e Chamados por Deus” e como lema a passagem do profeta Isaías: “És precioso aos meus olhos. Eu te amo”(Is 43,1-5), onde somos chamados a refletir sobre a realidade da vocação como uma realidade de Amor: Amor de Deus que nos concede a graça e a honra de trabalharmos em seu Reino e a vocação como uma resposta de amor ao Deus que nos chama. Neste mês rezaremos de forma especial pelas vocações na vida da Igreja e a cada semana rezaremos por uma vocação específica: na primeira semana rezaremos pelos ministérios ordenados, na segunda semana pela vocação à  vida familiar, comemorando o dia dos pais no domingo e iniciando a semana nacional da família, que neste ano tempo como tema: “Eu e minha casa serviremos ao Senhor” (Josué 24, 15). Na terceira semana rezaremos pelas vocações à vida consagrada, sejam as tradicionais ou as novas formas de consagração na vida da Igreja. Na quarta semana pelos os ministérios e serviços nas comunidades, formados em grande parte por leigos. No último Domingo celebraremos o dia nacional do catequista. Agosto é um mês temático que se apresenta como mês de graça especial para a vida da Igreja.

Nesta primeira semana do mês, vamos rezar pelos ministérios ordenados: diáconos, padres e bispos, já que no dia 04 celebraremos a memória de São João Maria Vianney, o Cura D’Ars, padroeiro dos párocos e no dia 10 celebraremos a memória de S. Lourenço, padroeiro dos diáconos. Os ministérios ordenados são aqueles que, no seio da Igreja, são chamados a exercer de forma especial a missão, o serviço, já que são configurados a Cristo que veio para servir e não ser servido. Nestes tempos de exceções que estamos vivendo, quantos dos nossos padres, diáconos permanentes e bispos se destacaram pela criatividade no anúncio do Evangelho, buscando estar mais próximos do povo de Deus. Agradeçamos a Deus pelo dom dos ministérios ordenados e peçamos ao Senhor da Messe que continue enviando operários para a colheita. Em nossa Arquidiocese temos um motivo a mais para dar graças a Deus neste mês: no dia 22 de agosto teremos a ordenação episcopal do Mons. Célio Calixto Filho, nomeado Bispo Auxiliar de nossa arquidiocese. Rezemos por sua vida, pelo seu ministério e por todos os pastores da nossa Igreja Particular. Que o mês vocacional nos encontre com corações abertos para ouvir o chamado de Deus e para rezarmos pelas vocações.

Neste 18º Domingo do Tempo Comum, a Palavra de Deus vai nos levar a refletir sobre a abundância da Graça de Deus em nossas vidas, abundância que se manifesta na missão da Igreja de cuidar do espírito, mas também do corpo. O Evangelho deste Domingo (Mt 14, 13-21) vai nos relatar o milagre da multiplicação dos pães, símbolo da Eucaristia onde Cristo se dá a nós como alimento e também pela preocupação social e marcou e deve marcar a vida da Igreja, não deixando faltar o pão de cada dia pelo ideal da partilha e pelo trabalho profético da transformação social. Quando nos colocamos inteiramente nas mãos de Deus, o pouco que temos torna-se muito, pois embora sejamos vasos de barro, trazemos em nós o maior dos tesouros.

As multidões saiam de suas iam atrás de Jesus enquanto Ele atravessava o mar da Galileia para ir ao deserto. Quando saiu do barco e viu aquela multidão que o seguia, sentiu compaixão dela pois estavam cansados e não mediram esforços para ir ao Seu encontro. Jesus cura os doentes que ali estavam. No final da tarde, os discípulos pedem a Jesus que despeça a multidão porque já é tarde e estão no deserto, lugar onde não tem nada, correndo grande risco de estarem expostos a fome e outros perigos. A resposta de Jesus surpreende os discípulos: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!” os discípulos se assustam com o pedido, pois só tinham cinco pães e dois peixes e comunicam isso a Jesus, que pede que tragam o que eles têm à sua presença. Jesus toma o alimento ora e dá aos discípulos para que o distribuam. E o milagre acontece! Surpreendentemente foram saciados cinco mil homens, sem contar as mulheres e as crianças e todos ficam satisfeitos e, ainda, os discípulos recolheram doze cestos cheios com os pedaços que sobraram! Jesus tem compaixão, cura e alimenta aqueles que tinham fome da verdadeira vida, mas também a fome no corpo.

Temos tão pouco ante as inúmeras necessidades das quais somos testemunhas, mas não podemos duvidar nunca da Providência Divina que rege a história dos homens. Quando nos colocamos ao serviço do Reino como instrumentos, Deus faz maravilhas por meio de nós. Dar o que temos para que Deus realize maravilhas em meio ao seu povo. Tal relato é muito importante neste mês vocacional, onde pedimos a Deus que possamos em meio às multidões sempre encontrar corações generosos que possam dar tudo.

Essa abundância da Graça de Deus vai também ser manifesta na Liturgia por meio da primeira leitura, tirada do livro do profeta Isaías (IS 55, 1-3), onde o Senhor faz um convite a todos os povos, convite para participar de um rico banquete abundante: Assim diz o Senhor: “Ó vós todos que estais com sede, vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga. Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa? Ouvi-me com atenção, e alimentai-vos bem, para deleite e revigoramento do vosso corpo. Inclinai vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida; farei convosco um pacto eterno, manterei fielmente as graças concedidas a Davi”. Abundância, gratuidade e fidelidade marcam o convite feito por Deus ao seu povo e que continua ecoando na história a todos os homens. Nós somos convidados a participar deste banquete abundante e a sermos também servidores deste banquete aos homens, colocando-nos como colaboradores dos mistérios de Deus e jamais deixando de lado a ação social da Igreja, que tem a opção preferencial pelos pobres e olhar atento às necessidades dos mais pobres.

Em ação de graças a esta realidade é que o salmo responsorial, salmo 144, que assim proclama: Misericórdia e piedade é o Senhor, ele é amor, é paciência, é compaixão. O Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda criatura. Que ao receber de Deus a abundância destes dons partilhemos deles com os irmãos e irmãos.

A segunda leitura, da carta de São Paulo ao Romanos (Rm 8,35.37-39), temos aquele grande grito de proclamação do amor de Deus: “Irmãos: Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada? Em tudo isso, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou! Tenho a certeza de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os poderes celestiais, nem o presente, nem o futuro, nem as forças cósmicas, nem a altura, nem a profundeza, nem outra criatura qualquer será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor.” As consoladoras palavras de Paulo evocando as maravilhas do amor de Deus devem nos fazer desejosos de espalhar essas maravilhas a todos os homens. E não nos esqueçamos de que quanto mais lutamos, mais vemos a ação de Deus que vem ao nosso encontro.

Rezemos, irmãos, pelas vocações. Não nos esqueçamos da missão da Igreja que é cuidar do espírito, mas também cuidar do corpo, visando a integralidade do ser humano. Que quanto mais nos damos conta do tanto que recebemos de Deus, mais sejamos generosos em partilhar esses bens com nossos irmãos.

 

 

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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