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Dai-lhes vós mesmos de comer

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

         Celebramos neste início de agosto, mês vocacional, décimo oitavo (18º) domingo do Tempo Comum. Domingo este que também comemoramos a vocação para o ministério ordenado (diáconos, padres e bispos). Na liturgia deste domingo, a questão do Reino permanece, mas agora em gestos e imagens que revelam o Reinado de Deus. Uma das imagens mais fortes da realidade do Reino é a abundância de alimentos, por isso o Evangelho (cf. Mt 14,13-21) e a primeira leitura (cf. Is 55,1-3) trazem a imagem de um “banquete”, e a segunda leitura (cf. Rm 8,35.37-39) assegura a união amorosa de Deus, por meio de Jesus Cristo, com aqueles a quem chamou para fazer parte de seu Reino. Por isso tudo, o salmista pode cantar: “Vós abris a vossa mão e saciais os vossos filhos” (Sl 144).

         Na primeira leitura (cf. Is 55,1-3) – o profeta Isaías não pensa apenas no aspecto material da promessa, mas imagina o Reino de Deus onde a ambição e a insaciável fome de bens materiais serão excluídas do imaginário dos discípulos de Jesus! É a chegada do Reino de Deus. É preciso sonhar com Deus esperando o mundo novo! A primeira leitura está intimamente conectada com o Evangelho (cf. Mt 14,13-21). As multidões devem estar atentas ao convite divino expresso pelo profeta Isaías: “Inclinai vosso ouvido e vinde a mim” (v. 3). O Senhor, no texto de Isaías, convida a vir e a ouvir. O chamado está marcado em “vinde às águas”, “vinde e comei”, “vinde comprar” e, no final, “vinde a mim”. Em seguida, vem o convite a ouvir: “ouvi-me com atenção” e “inclinai vosso ouvido”.

         Na segunda leitura (cf. Rm 8,35-39) – o Apóstolo Paulo já entrou na posse do mundo novo – mundo de Jesus – e nada poderá afastá-lo desta promessa, melhor, da certeza do mundo melhor com Jesus Cristo! E Jesus tem o poder para transformar o sonho de Paulo em realidade e, por que não, o mundo que esperamos de Jesus e com Jesus!  O autor da carta expõe os aspectos terrenos e transcendentes de modo diferente. As questões pertencentes ao âmbito do terreno são expostas por meio de perguntas, sendo a primeira a orientadora de todas as outras: quem nos separará do amor de Cristo? Todas as outras são desdobramentos desta: tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada? Ao final, o autor mesmo responde que, graças àquele que nos amou, já somos vencedores sobre todas as dificuldades que possam se levantar contra nós.

         No Evangelho (cf. Mt 14,13-21) – Jesus não recusou sua palavra a ninguém, mas preferiu falar aos pobres e doentes de seu tempo! Sabemos do simbolismo do tema do pão que está muito ligado também à vida e a Eucaristia. Porém, Jesus não se limitou à pregação; preocupou-se com a fome de seus ouvintes; Estes precisavam da Palavra e do Pão!

         Para São Mateus, o afastamento de Jesus para um lugar deserto é motivado pelo conhecimento da morte de João Batista. Ao tomar conhecimento da triste notícia, Jesus se afasta para um lugar deserto de barco. A referência ao barco indica que o deserto aqui não significa apenas o deserto físico, mas a condição de pouco movimento ou habitação. Chegando ao local, Jesus é recebido pelas multidões, que foram a pé. Diante de uma multidão que o procura, todo seu ser se move: “Encheu-se de compaixão e curou os que estavam doentes” (v. 14).

         Diante do final do dia seria necessário alimento, por isso pedem a Jesus         que envie aquelas pessoas para que possam ir em busca de alimento nas aldeias ao redor. Jesus, no entanto, passa aos discípulos a responsabilidade de alimentar aquele povo: dai-lhes vós mesmos de comer! Tudo o que eles têm são cinco pães e dois peixes, a comida habitual do povo daquela região. Jesus pede que levem a ele o que têm e, após pronunciar a bênção sobre os alimentos, entrega-os aos discípulos para que distribuam. O resultado dessa partilha generosa é uma sobra impressionante: 12 cestos cheios. Alimentar 5 mil homens, sem contar mulheres e crianças, indica que, na verdade, se alimentou muito mais do que é possível calcular.

         A grande notícia, a Boa-Nova para o mundo atual é esta: o amor terno e próximo de Deus, manifestado em Jesus Cristo! Mas, atenção: somente poderemos ser testemunhas de tal amor se nós mesmos nos deixarmos tocar e envolver pela ternura do Cristo! Atendamos, portanto, ao seu convite de ir gratuitamente a Ele, apesar de nossas pobrezas! Deixemos que ele nos alimente e sacie de vida e de paz! O pouco que temos nas mãos de Jesus se torna infinitamente maior.

Saúdo, com afeto, a todos os presbíteros na comemoração de seu dia, na próxima festa do Cura d’Ars e tenho certeza de que são artífices da generosa e cativante ação pastoral em favor dos fiéis, particularmente, dos que sofrem, dos que estão doentes, dos que precisam sepultar seus entes queridos e em favor daqueles que estão empenhados, como médicos, operadores de saúde, enfermeiros, administradores hospitalares, desdobrando-se em favor dos doentes da COVID-19.

Que vivamos, intensamente, este mês temático, agosto-vocacional, que se inicia com o coração sintonizado no tema proposto pela Igreja no Brasil: “Amados e chamados por Deus” e com o Lema: “És precioso a meus olhos… Eu te amo” (cf Is 43,4).

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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