CNBB

A importância da questão vocacional

Dom Antonio de Assis Ribeiro
Bispo Auxiliar de Belém do Pará

 

Introdução

Iniciamos o mês de agosto e, com ele, temos todos os anos um permanente convite à reflexão sobre a importância do tema “vocação”. Trata-se de um assunto de fundamental importância; mas para que alguém o reconheça se pressupõe que tenha fé em Deus.

Fé e vocação caminham juntas que Deus é a fonte e o Senhor de todas as vocações. Naturalmente esse conceito teológico muito se distancia da ideia de vocação do senso comum. Para a maioria das pessoas quando se pensa em vocação logo a relacionam à ideia de profissão. É verdade que toda vocação tem uma dimensão prática, mas não é justo reduzirmos ou equipar o conceito de vocação ao de profissão.

A questão vocacional é profunda; pressupõe a acolhida da vida como Dom de Deus e responsabilidade humana, portanto, significa considerar as nossas origens, o sentido da vida, os caminhos da felicidade e sua plenitude. Infelizmente uma concepção utilitarista da vida humana está seduzindo as pessoas a confundir vocação com profissão, o ser com o fazer.

Considerar as nossas origens

O conceito de vocação nos convida a mergulhar nas nossas origens. Nelas está o sentido do nossa vida. O primeiro valor e base sobre a qual se assenta todos os outros é a vida. No grande universo biológico, a vida humana ocupa um lugar especial à causa da sua indiscutível e peculiar qualidade em relação às outras formas de ser.

A vida humana, como as demais formas de vida, traz consigo uma grande superioridade que se manifesta no concreto do agir humano através da sua inteligência, liberdade, vontade, consciência de si mesmo, capacidade de amar e de buscar nossas origens e nosso fim. Esse é o diferencial da existência humana.

Também a Sagrada Escritura contempla a maravilha da vida humana. Diz o salmista: “O que é o homem, Senhor, para dele te lembrares? O que é o ser humano para que o visites? Tu o fizeste pouco menos do que um deus e o coroaste de glória e esplendor” (Sl 108,5-6). O livro do gênesis reconhece que em nossa fonte há um mistério; Deus é a fonte da vida. Fomos criados à imagem e semelhança do próprio Deus, Senhor da Vida (cf. Gn 1,26-27). É do reconhecimento dessa fonte que depende a consciência vocacional de uma pessoa, o seja, o fato de não estar neste mundo por acaso.

Da consideração das nossas origens brota a consciência da nossa identidade: quem nós somos?! Somos criaturas inteligentes, conscientes, capazes de amar, somos filhos que, geneticamente trazem no próprio ser as mais evidentes e profundas marcas do nosso criador e Pai. Na questão vocacional reconhecemos um vínculo indestrutível, a nossa criaturalidade.

A criaturalidade é o reconhecimento do vínculo com o nosso criador, nossa fonte. Portanto, na questão vocacional, está presente a questão da consciência da nossa condição de dependência de Deus como criaturas e filhos. Por isso a fé é imprescindível para o aprofundamento do tema vocacional.

Questionar-se sobre como viver

Da questão vocacional brota também outro importantíssimo tema, que é o sentido da vida. Trata-se do “como viver”, por onde caminhar, qual conteúdo assegurar ao longo da existência. É aqui que entra a consideração sobre a felicidade. Não estamos falando de sucesso! A felicidade, na sua essência, é inseparável da experiência da fé no Bem Supremo.

O sentido da vida está atrelado ao reconhecimento das nossas fontes, que é o nosso Sumo Bem e, a partir do qual, é possível organizar a hierarquia dos valores e a ordem de importância daquilo que nos edifica e realiza como pessoa.

O “porque e como viver” nos leva à reflexão sobre a importância dos valores e das virtudes. Somos seres inteligentes, capazes do discernimento do bem e do mal, portanto dotados de capacidades de reconhecer aquilo que é autêntico. Por isso o sentido da vida, que implica a decisão pelo bem viver, depende da ordem dos valores e de uma escala de prioridades para os investimentos da vida. Nem tudo tem o mesmo valor e importância. Isso é possível através do exercício das virtudes, ou seja, da prática do bem que nos leva a querer e fazer o bem.

Da experiência do verdadeiro sentido para a vida, nasce a experiência da paixão pelo bem, a alegria do viver e a repulsa a tudo aquilo que ameaça a felicidade, como toda espécie de vício e mediocridade.

A Vida é dom e responsabilidade

A questão vocacional nos convida a conceber a vida como dom de Deus e responsabilidade humana. Significa sublinhar dois aspectos diferentes e inseparáveis da nossa existência. O primeiro é aquele de acolher a beleza da vida como presente de Deus. Disso deriva a consciência de que Nele está o nosso sustento e consistência da nossa vida. Desviando-nos de Deus, perdemos o apreço pelo bem e o sagrado respeito para com a vida.

O homem arbitrariamente poderá destruí-la, mas jamais será capaz de retomá-la por si mesmo. Da descoberta da vida como dom, a pessoa se reconhece como devedora de Alguém e sentirá a necessidade da gratidão e gratuidade para com seu Senhor e seus semelhantes. Quando a vida humana é acolhida como dom, é possível respeitá-la como valor que transcende as circunstâncias e situações acidentais.

O segundo aspecto é o reconhecimento de que a vida é tarefa, a vida é missão, a vida é responsabilidade. Com a acolhida da Vida, tomamos consciência de que se trata de uma grande responsabilidade. Nada está pronto! Mas Aquele que nos criou também nos capacitou para a responsabilidade através da inteligência, da consciência, da vontade, da liberdade, da capacidade de cuidar. Vamos aprendendo! Viver é percorrer um caminho!

Somos chamados a nos educar para o sentido da vida como responsabilidade, dever, exigência e responsabilidade, por isso nos perguntamos: “o que fazer?”, “como viver?”, “para onde ir?” Falar de vocação é admitir a necessidade de viver a própria vida como um projeto que nos foi confiado e que exige resposta livre e responsável.

Esse senso de responsabilidade vocacional se manifesta em nós através do sentido da justiça, do dever da prática do bem e evitar o mal, do chamado à solidariedade, da natural vontade de harmonia interior, da busca contínua de felicidade. O sentido da vida como responsabilidade proporciona ao ser humano a abertura de horizontes para a compreensão da existência e a necessidade de viver com entusiasmo, alegria, liberdade, ousadia, coragem, generosidade explorando os próprios talentos (cf. Mt 25, 14-30).

A perspectiva da responsabilidade apresenta a vida como projeto, nos educa para a consciência de compromisso; estimula-nos ao exercício cotidiano do esforço, da luta; pede-nos a necessidade de discernimento e tomada de decisões; convida-nos a dar respostas às necessidades, a sermos capazes de servir com alegria e generosidade. Quem faz isso é feliz!

PARA A REFLEXÃO PESSOAL:

  1. Você acha importante a reflexão sobre a questão vocacional?
  2. Por que a vida é dom ou presente?
  3. Em que consiste conceber a vida como responsabilidade?

 

 

 

 

 

O post A importância da questão vocacional apareceu primeiro em CNBB.


Fonte: Noticias da CNBB

Artigos relacionados