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Juventude, evangelização e mídias digitais

Dom Antonio de Assis Ribeiro
Bispo auxiliar de Belém do Pará

 

Introdução

Continuemos a reflexão sobre a questão da evangelização e as mídias digitais. Desta vez abordemos a grande sensibilidade dos jovens e sua contribuição para a evangelização através das mídias digitais. Visto que a evangelização é um dinâmico processo de comunicar ao mundo a mensagem do Evangelho e que Jesus Cristo continua conosco em todas as fases da história e das culturas (cf. Mt 28,15) então, somos chamados a usar os novos meios que a tecnologia nos dispõe para promover o Reino de Deus.

Os jovens nasceram no “continente digital” e, por isso, são portadores de grande facilidade no uso das novas ferramentas de comunicação que a tecnologia nos disponibiliza. A contribuição deles é, portanto, de fundamental importância.

Valores e limites da cultura digital

Na Exortação Apostólica Pós-sinodal “Christus Vivit”, falando aos jovens, o Papa Francisco dedicou um significativo espaço para a questão digital e o mundo juvenil (cf. CV, 86-90). O Papa afirma que «o ambiente digital caracteriza o mundo atual (…). Já não se trata apenas de “usar” instrumentos de comunicação, mas de viver numa cultura amplamente digitalizada que tem impactos muito profundos na noção de tempo e espaço, na percepção de si mesmo, dos outros e do mundo, na maneira de comunicar, aprender, obter informações, entrar em relação com os outros” (CV, N.86).

“A internet e as redes sociais geraram uma nova maneira de comunicar e criar vínculos, sendo uma “praça” onde os jovens passam muito tempo e se encontram facilmente, embora nem todos tenham acesso igual… Em muitos países, a web e as redes sociais já constituem um lugar indispensável para se alcançar e envolver os jovens nas próprias iniciativas e atividades pastorais» (CV, N.87).

Não obstante os aspectos positivos e suas possibilidades, o referido documento pós-sinodal também reconhece os limites e deficiências do fenômeno da cultura digital. Não é bom confundir a comunicação com o simples “contato virtual”. O ambiente digital é também um território com males como a solidão, manipulação, exploração do erotismo, violências, pornografia, vícios, interesses econômicos e falsidade ideológica (cf. CV, 88-89).

A contribuição dos jovens

É inegável, pelo mundo afora, a grande contribuição dos jovens no que diz respeito ao uso das novas ferramentas da comunicação, sobretudo, com os aplicativos e as redes sociais. Eles passeiam nesse universo de comunicação usando esses novos meios com muita desenvoltura. Uma manifestação bem concreta do grande número de jovens engajados é a PASCOM (pastoral da comunicação), as rádios Web, Web TV (canais), bem como a gestão das diversas redes sociais das nossas paróquias, grupos, pastorais, movimentos e instituições em geral.

Neste tempo de Pandemia, devido as restrições por causas do distanciamento social, a Igreja para ser fiel à sua missão pastoral teve que se reinventar, usando novas formas de comunicação, com linguagem diferente e servindo-se de novas ferramentas. Talvez na maioria das paróquias os jovens estejam sendo os protagonistas nesse importante serviço.

A diversidade de conteúdo pastoral que está sendo veiculado é digna de um reconhecido aplauso aos jovens. Vejamos algumas das principais atividades com maior evidência, promovidas pelos jovens: produção de podcasts formativos e informativos; gincana juvenil virtual (com atividades em diversas dimensões); live’s (programações ao vivo), celebração eucarística, adoração ao santíssimo, encontros catequéticos, leitura orante, reuniões, conferências, programação musical; campanhas, estudos, momentos de estudo etc.

O critério da comunhão

Não basta a boa vontade dos jovens, a competência técnica deles e a criatividade para a programação de eventos virtuais; pastoralmente, é necessário que se assegure o bom conteúdo veiculado e que tudo esteja em comunhão com a Igreja no que diz respeito à fé, teologia, bons costumes e moral. Para Igreja o critério mais importante não é o técnico, mas o ético e o pastoral. Quem se comunica nas Redes Sociais, enquanto fiel católico em nome da Igreja, deve estar em comunhão com o ser, pensar, sentir e agir da mesma. Quando um líder fala o que quer sem se importar com o seu conteúdo está traindo sua fé e depondo contra a comunhão. O protagonismo dentro da Igreja, de qualquer sujeito, para ser justo, deve sempre considerar a comunhão eclesial. As “lives católicas”, para serem autênticas, devem ser coerentes com as convicções de fé da Igreja; não podem ser subjetivistas. Quem teimosamente comunica sem se importar com a comunhão teológica acaba fazendo um grande mal e uma tremenda confusão. A evangelização é criteriosa. Jesus Cristo nada falou e nada fez sem estar em comunhão com Pai. Por isso afirmou: «minha doutrina não vem de mim, mas daquele que me enviou” (Jo 7,16); “não faço nada por mim mesmo, pois falo apenas aquilo que o Pai me ensinou» (Jo 8,28-29). O critério de comunhão moral e teológica é de fundamental importância; para que isso seja assegurado em vista de diminuir margens de erros, é importante que os párocos, garantam aos jovens a devida assessoria teológica e pedagógica.

Critérios e orientações pastorais

Considerando de suma importância a comunhão eclesial proponho aos líderes da pastoral juvenil, assessores, educadores e párocos algumas orientações pastorais para ajudar na produção, qualidade e transmissão de conteúdos pastorais pelas redes sociais:

  • Formar uma equipe que esteja em comunhão com o pároco. Não é saudável deixar que tudo dependa de uma só pessoa que pensa, produz e veicula. Isso favorece os desvios;
  • Assegurar para a equipe de comunicação um assessor teológico (alguém maduro na fé, que pensa e vive em comunhão eclesial);
  • Definir o projeto paroquial da PASCOM, deixando claro a sua identidade, critérios de produção e perfil dos envolvidos;
  • Colocar ao centro a Palavra de Deus: ela ilumina, discerne, fundamenta e julga cada realidade e todos os temas; a Palavra de Deus evita a confusão da abordagem superficial e precipitada de assuntos polêmicos oriundos de pressões ideológicas;
  • Educar os comunicadores e assessores para a necessidade de consultar a palavra da Igreja presente no Catecismo da Igreja Católica; para qualquer realidade humana a Igreja tem oficialmente uma palavra séria e criteriosa;
  • Adotar sempre uma linguagem acessível a todos os públicos;
  • Recordar sempre que tudo aquilo que, em geral, cai nas redes sociais, ultrapassa a sua fronteira local, e torna-se conteúdo disperso pelo mundo; portanto, se algo errado for veiculado gera graves e profundas consequências;
  • Zelar por este importante princípio: não basta a qualidade técnica, é preciso assegurar o conteúdo eticamente justo e teologicamente fiel;
  • Evitar, a todo custo, informações falsas, o achismo, o modismo cultural e ideológico;
  • Garantir que a finalidade de qualquer transmissão, de modo direto ou indireto, seja a promoção da evangelização, preservando a fidelidade eclesial e estimulando o desenvolvimento do Reino de Deus.

PARA REFLEXÃO PESSOAL:

  1. Quais valores e limites você percebe presentes na cultura digital?
  2. Porque é importante assegurar a comunhão doutrinal e moral nas transmissões?
  3. Qual das orientações mais lhe chamou a atenção e por quê?

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Fonte: Noticias da CNBB

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