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Quando os números se transformam em nomes

Dom João Bosco Óliver de Faria
Arcebispo Emérito de Diamantina

 

Convivendo com esta pandemia, vamos nos habituando aos números que, os órgãos do governo e da  imprensa, nos oferecem ao final de cada dia, ou no princípio de cada semana. Embora esses números sejam, por si só, assustadores e tristes, eles não deixam de ser pálidos, foscos, frios e distantes. Soam como nos soavam, no início do ano, as estatísticas da China e da Itália. Assustam racionalmente, mas não atingem os nossos sentimentos, sobretudo porque, à medida que a mídia passa a reproduzi-los, eles tendem a se tornar banais. 1040 ou 1041 são números que não fazem diferença para quem está distante das lágrimas derramadas por alguém, quando da perda de um ente querido! Mesmo os números dos recuperados não nos falam muito ao coração, porque já estamos nos acostumando à tragédia do outro.

Moro no interior, onde o vírus acaba de chegar forte e fazer suas primeiras vítimas. Esses números, então,  começam a tomar cores, formas  e a receber nomes: Antônio, José, Francisco, Regina e Maria: o motorista de taxi com quem viajei algumas vezes, a dona da livraria onde eu gostava de fazer minhas compras e o funcionário do posto de combustível! Uma unidade a mais passa a fazer uma grande diferença:  – Hoje, foi o Geraldo que nos deixou!

Essa nova situação leva as pessoas a sentirem que o vírus vai chegando perto e se perguntam: – Por que ele? Por que  ela? Era tão bom! Ajudava tanto os outros! Foi muito cedo, que pena! Ele tinha tantos sonhos! Ela que cuidava de sua mãe e, se cuidou tanto para não se contaminar, havia até saído da cidade.  E eu? Não dá para entender!

Realmente, não dá para entender!

O fogo, porém, irá sempre queimar; o prego na água, irá indubitavelmente se afundar; a água rolará sempre para baixo e os rios correrão todos para o mar!

Deus estabelece as lei da natureza e as respeita. É graças a estabilidade dessas leis naturais que o avião se mantém no ar, que o fogão nos dá, quentinho,  o alimento de cada dia e a geladeira preserva nossos alimentos e nos oferece a água fresca no calor. O homem se vale das leis da natureza, constrói um grande edifício de  apartamentos, cria a comunicação à distância nas suas inúmeras formas, e aperfeiçoa progressivamente sua qualidade de vida a e os meios no cuidado da saúde.

Essas mesmas leis da natureza, contudo, surgem com maior ou menor força, na contramão do bem estar humano: as enchentes, as secas, os ciclones, os terremotos, os vulcões, a geada na plantação, a nuvem de gafanhotos e tantos outros acidentes naturais.

O fato é que o pequeno volume das acontecimentos negativos se perde na imensidão de tanta conquista humana sobre a terra, que Deus nos confiou: Deus os abençoou e lhes disse: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra.” Deus disse: “Eu vos dou todas as ervas que dão sementes, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dão semente: isso será vosso alimento. A todas as feras, a todas as aves do céu, a tudo que rasteja sobre a terra e que é animado de vida, eu vos dou como alimento toda a verdura das plantas” e assim se fez. Deus viu  tudo o que tinha feito: e era muito bom. (Gn 1, 28, 31)

Acontecimentos ruins sempre existiram e sempre vão existir na história da Humanidade. Não são mecanismos que Deus usa para castigar o homem, mas acidentes naturais do ciclo da vida, e são igualmente finitos.

Alguns vírus, que no passado foram o terror da humanidade, hoje, são guardados a sete chaves e cuidadosamente vigiados em alguns dos grandes laboratórios do mundo, pois poderão ser úteis, futuramente, diante de outros males que possam surgir. Assim é guardado e vigiado o vírus da varíola!

Deus não abandona o homem em seu sofrimento. Seu Filho Único e querido, Jesus, veio até nós e combateu todas as formas de sofrimento da humanidade, curando todos os tipos de doenças e pregando o amor entre os homens.

A falta do Amor de Deus entre o homens causou, sem dúvida alguma,  mais guerras, mais mortes, mais lágrimas e muito mais sofrimentos que todos os vírus que existem e já existiram possam ter feito. A segunda Guerra Sino-Japonesa matou 25.000.000 de  pessoas entre 1937 e 1945; a Segunda Guerra Mundial matou entre 60.000.000 a 85.000.000 de pessoas nos anos de 1939 a 1945 – números que incluem as vítimas civis. Também as separações matrimoniais, os órfãos de pais vivos, os abortos além de tantas e tantas outras formas de violência derramaram rios de lágrimas que fazem sofrer o Coração Sagrado e Misericordioso  de Jesus!

Deus, que deu a inteligência ao homem, ilumine os cientistas e médicos para que descubram tanto as vacinas contra a Covid 19 quanto o melhor tratamento para os contaminados. Se muitos morreram e morrem, posso dizer – sem medo de fazer injustiça – foi pela  falha humana no providenciar, em tempo, as medidas e medicamentos necessários no combate a esta triste pandemia!

Rezemos pelos que morreram e pelo conforto de seus familiares.

Rezemos  pelos enfermos.

Rezemos pelos cientistas, pelos médicos, pelos enfermeiros e pelos auxiliares de enfermagem.

Cuidemos de nós e dos outros. Não relaxemos nas medidas de isolamento e de distanciamento social, lavemos sempre as mãos com água e sabão, usemos álcool em gel, e máscaras! Não deixemos para nos sensibilizar com o problema apenas quando as estatísticas evocarem nomes de pessoas próximas e queridas.

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Fonte: Noticias da CNBB

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